ANTÓNIO SARAIVA

PRIORIDADE AO EMPREGO. A preservação do emprego deve permanecer a grande prioridade da política económica, no curto prazo. Os próximos meses são cruciais para evitar uma escalada sem precedentes no desemprego e no encerramento definitivo de empresas viáveis. Após as quedas históricas no volume de negócios da generalidade dos setores produtivos, estamos já a assistir a alguma recuperação, mais nítida no caso do comércio a retalho, mais tardia e ainda incerta na indústria, particularmente lenta nos serviços, devido, sobretudo, à interrupção, não revertida, nos fluxos turísticos. No entanto, a atividade das empresas (umas mais afetadas do que outras, é certo) permanece em níveis historicamente baixos. De acordo com os mais recentes resultados do inquérito levado a cabo pela CIP, em parceria com o Marketing FutureCast Lab do ISCTE, mais de metade das empresas indicou que as encomendas em carteira estavam, no início de setembro, abaixo do ano passado, com uma redução média de 40%. Para quase dois terços das empresas, as expectativas são de uma quebra das vendas, até ao final do ano, da mesma ordem de grandeza. É certo que quatro em cada cinco empresas inquiridas afirmou pretender manter (ou mesmo aumentar) os seus recursos humanos nos últimos quatro meses deste ano, revelando o enorme esforço que estão a fazer para preservar o emprego, apesar da redução das vendas e das perspetivas da deterioração do negócio. No entanto, não tenho dúvida que com a quebra, ainda persistente, nas receitas, muitas empresas não conseguirão fazer face às despesas fixas inerentes às suas responsabilidades contratuais, apesar dos apoios à tesouraria que foram concedidos. Sabemos, por exemplo, que mais de três quartos das empresas teriam despedido sem o recurso ao mecanismo de lay-offsimplificado. Com a descontinuação desta medida e a sua substituição por um quadro mais limitado de apoios, as repercussões da crise no mercado de trabalho tenderão a agravar-se. Neste quadro, a preservação do emprego deve permanecer a grande prioridade da política económica, no curto prazo. Os próximos meses são cruciais para evitar uma escalada sem precedentes no desemprego e no encerramento definitivo de empresas viáveis. Justifica-se, pois, que, ao mesmo tempo que se desenham estratégias de mais longo prazo para a recuperação, se atue já para defender o emprego, conscientes de que tal objetivo passa por garantir que o maior número possível de empresas sobrevive às dificuldades e mantém a sua capacidade para impulsionar a recuperação, evitando danos irreversíveis no potencial produtivo. Não podemos esperar que cheguem os milhões prometidos por Bruxelas. Não podemos esperar pelo próximo Orçamento do Estado. É preciso proceder, urgentemente, ao reforço e à reorientação de medidas (muitas delas já esgotadas) com o objetivo de sustentar a tesouraria das empresas. Para haver futuro, há que tudo fazer, até ao limite do possível, para preservar o presente.

 

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