ALEXANDRE MESTRE

O DESPORTO NACIONAL: NÃO É SÓ MAIS DINHEIRO, É TAMBÉM MAIS APOSTA NAS PESSOAS! Hoje, queria sobretudo falar de pessoas. De recursos humanos. De ocupações e profissões no desporto. Farei três propostas, que são talvez micro, mas que a meu ver poderiam gerar efeitos macro.

Perguntam-me, por vezes, quais as medidas estratégicas, mais “macro”, que carece o desporto português para avançar. E talvez porque de há muito a esta parte me dedico a áreas como o Direito do Desporto e Ética Desportiva, me interpelam em especial sobre esses domínios.

É evidente que o recorrente tema do financiamento é incontornável: não se pode pedir aos clubes, às associações e às federações desportivas que façam omeletes sem ovos: sem dinheiro, sem financiamento digno desse nome, escusem de exigir mais praticantes ou mais medalhas. Também é verdadeiro que precisamos, em muitos domínios, de inovar, de modernizar, de romper, de fazer escolhas, de não ter medo de tomar decisões que tardam. Mas hoje, queria sobretudo falar de pessoas. De recursos humanos. De ocupações e profissões no desporto. Serei curto. Farei três propostas, que são talvez micro, mas que a meu ver poderiam gerar efeitos macro.

Dirigentes desportivos em regime de voluntariado

Está na hora de valorizar verdadeiramente os dirigentes desportivos em regime de voluntariado. Caso contrário, entre o seu emprego e o desporto terão, necessariamente, que buscar a sobrevivência e deixar o desporto para o pouco tempo que possa restar. Reveja-se, de uma vez por todas, o Estatuto do Dirigente Desportivo em Regime de Voluntariado, cujas normas de 1995 são cada vez mais letra morta.

 Profissionalização dos dirigentes associativos federativos

Simultaneamente, urge uma adequada dotação orçamental para a profissionalização dos dirigentes associativos federativos que queiram dedicar-se em exclusivo à sua atividade. Se, por exemplo, a maioria dos membros dos órgãos estatutários das federações desportivas fossem profissionais, devidamente remunerados, teríamos uma dedicação em full time (com correspondente responsabilização) e, necessariamente, mais e melhores decisões – não se exija a quem tem de trabalhar noutra área, que tenha tempo e disponibilidade física e mental para ser o melhor presidente de uma federação ou o melhor membro do Conselho de Disciplina de uma federação. Para que o exercício dos poderes públicos seja maximizado em quantidade e qualidade há que pagar. Caso contrário, como se comenta muito, “só os reformados e ricos podem exercer lugares-chave no tecido associativo”.

Bolsa de recursos humanos para o desporto

A par, é vital aproveitar os imensos jovens de valor que saem das nossas universidades e dos nossos politécnicos, com know-how e vontade de entrar no mercado de trabalho desportivo, mas que não são escoados, não encontram essa oportunidade. Pode e deve o Estado, sem que isso implique financiamento de monta, criar e pagar uma bolsa de recursos humanos para o desporto, com formação em áreas como a Gestão do Desporto, a Economia do Desporto, a Psicologia do Desporto, a Sociologia do Desporto, o Direito do Desporto, o Marketing do Desporto, entre outras. Que aportem valor. Que ajudem a empreender no desporto e a desenvolver atividades, designadamente no seio das federações desportivas. Que colaborem na fiscalização, que tem de ser permanente e efetiva, para monitorizar quem efetivamente cumpre a lei e sancionar as ações e omissões em contrário. Que dotem o Estado de mais e melhores meios para ações de consciencialização dos agentes desportivos e da sociedade, em particular na área da Ética Desportiva: como encarar, como combater flagelos como violência, racismo, xenofobia, corrupção, apostas ilegais, manipulação de resultados, entre outros. Se esta medida avançasse não se esbanjaria talento e teríamos mais massa crítica e mais “mãos” para mexer no futuro do desporto nacional.

Tão pouco que, a meu ver, poderia significar tanto… Fica (mais) este repto, que, claro, vale o que vale, mas que segue com esperança, para quem de direito.

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