ALEXANDRE MESTRE

CITIUS, ALTIUS, FORTIUS DE DIDON E DO DESPORTO À LUTA CONTRA A PANDEMIAO Olimpismo é “uma filosofia de vida”, como assinala a Carta Olímpica, e nesta fase em que lutamos para se salvarem e reerguerem vidas, temos de as viver com muita ambição. Uma ambição no bom sentido da palavra, no sentido a que aludia Didon. Urge continuar a buscar forças e motivação onde pensamos que já não as temos, em busca de um novo capítulo. 

Nesta edição de 2021, a revista FRONTLINE celebra mais um aniversário. Está, naturalmente, de parabéns.  

Em março de 1840, nasceu Henri Didon, padre dominicano que dá o mote para este breve artigo. No mesmo mês, mas de 1900 deu-se a sua morte. Henri Didon, em 1891, perante o seu fiel amigo Pierre de Coubertin, barão fundador dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, foi o autor daquela que viria a ser acolhida e mantida até hoje como a divisa olímpica: “Citius, Altius, Fortius” (Mais Longe, Mais Alto, Mais Forte).  Convicto de que o desporto encerra um papel catalisador na educação do ser humano, Didon viu no desporto um dos meios de, pedagogicamente, incentivar o espírito de iniciativa e a emulação, de propagar a “virtude”, o “cavalheirismo”, os “valores. A Didon também se atribuem outras frases, menos conhecidas, mas igualmente sabedoras e impactantes. Escolho aqui uma delas, retirada de um livro, em tradução livre: “Quando queremos saltar três metros, importa olhar para cinco: na vida não são tanto os joelhos que vos traem mas sim a falta de ambição. Pierre de Coubertin salientou a “alma” de Didon e afirmou que “a luta era a sua primeira paixão; ele procurava-a até no altar de onde pregava”. 

 A divisa olímpicaMas porquê invocar Didon aqui e agora, neste artigo? Bom, devo confessar que sempre me atraiu bastante a divisa olímpica, lema de vida que procuro seguir, no meu percurso pessoal e profissional, porque nele muito acredito e em muito me motivo. Nessa medida, gosto, quando posso, de partilhar a divisa com o Outro, de a disseminar. Estou convicto de que pode ser inspiradora. Por outro lado, penso que esta divisa deve ser assinalada também no prisma do Direito do Desporto, matéria que, também nesta revista, procuro disseminar, e hoje volto a não resistir a isso. Nas aulas, quando leciono Direito Olímpico ou quando se discute a relação entre o direito público e o privado do desporto, uso muito a divisa olímpica como exemplo. É que a nossa lei, num exercício em que o Estado como que incorpora a Carta Olímpica (emanada de um ente privado suíço, o Comité Olímpico Internacional), prevê expressamente a divisa olímpica como uma das “propriedades olímpicas”, que são “direito exclusivo” do Comité Olímpico de Portugal. Mas a primeira de duas razões fundamentais para trazer aqui a divisa de que Didon foi pai prende-se com o aproximar dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Quero aproveitar esta ocasião para desejar a todos os atletas, mas muito em especial aos atletas portugueses (e todo o seu “pessoal de apoio”) a melhor das sortes. Superem-se! Se querem a prata, olhem para o ouro. Se o objetivo é o diploma, procurem a medalha. Se o desígnio é o recorde nacional, lutem pelo recorde mundial. Pensem na divisa olímpica, no legado de Didon. 

Enfrentar a pandemiaA segunda razão para aqui evocar Didon ultrapassa o desporto, ainda que nele tenha pretexto. Creio que todos temos a ganhar se nos guiarmos pela divisa olímpica no enfrentar desta terrível pandemia. O Olimpismo é “uma filosofia de vida”, como assinala a Carta Olímpica, e nesta fase em que lutamos para se salvarem e reerguerem vidas, temos de as viver com muita ambição. Uma ambição no bom sentido da palavra, no sentido a que aludia Didon. Urge continuar a buscar forças e motivação onde pensamos que já não as temos, em busca de um novo capítulo. Todos nós, cidadãos e empresas do mundo inteiro. Ironicamente, a palavra universalidade que sempre associamos aos Jogos Olímpicos é também a palavra que usamos para descrever a abrangência da pandemia e crises conexas. Como universal e global terá que, em grande medida, ser a resposta de todos os países a este flagelo que vivemos. E que o façamos no respeito pelos valores professados por Didon, sabendo que em tempo de crises e de recursos sempre escassos, o ser Humano tem invariável tendência ou tentação para ceder nos valores   

Em frente. “Isto é uma maratona”, como muitos nos avisam. Mas há que chegar à meta. E vencer, de vez, colocando paixão na luta contra um vírus que não é um adversário, é mesmo um verdadeiro inimigo. 

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