ADRIANO MOREIRA

 

CRISE GLOBAL – Quando as circunstâncias do chamado globalismo lembram a chegada dos cisnes negros que foram imaginados para entender a falência das esperanças nos cisnes brancos de Ortega, é inquietante concluir que a Primeira Guerra Mundial, de 1914-1918, foi causada pelo assassinato de um príncipe, e que a Segunda Guerra Mundial, de 1939-1945, teve origem na circunstância de um desequilibrado ter chegado ao poder democraticamente. Estes factos articulam-se com a realidade de o chamado globalismo ser uma época de desordem e não de vida consagrada por valores e condutas que prometiam um património imaterial da Humanidade.  

A literatura sobre a urgência de conseguir organizar e conciliar os povos encontra-se condicionada pela agressão da pandemia, com o próprio globo submetido a riscos, com Jacques Attali no trabalho de identificar as múltiplas condições que permitam responder à questão – Demain, qui gouvernera le monde? –, onde a representante do secretário-geral da ONU, Radhika Coomaraswamy, em relatório de 21 de julho de 2011 para o Conselho de Segurança, escreveu: “as crianças continuam a ser afetadas de modo desproporcional (…) e a ver os seus direitos fundamentais violados (…) São recrutadas à força, mortas e mutiladas, raptadas, submetidas a violências sexuais e privadas de ajuda humanitária”.  

A Europa, respondendo com a estrutura, dimensão e invocada autoridade, a lembrar hoje tentativas mais de uma vez sem resposta no passado, e hoje lutando para assumir que sem “união” nenhum Estado europeu será capaz de responder a necessidades ou desafios, mas é inquietante a dissolução de alguns Estados europeus, como se passou com a Jugoslávia de Tito, os sentimentos que afloram por exemplo em Espanha, Bélgica e Reino Unido, e os próprios EUA tiveram um presidente como que “voltado para o Pacífico” segundo uma velha tradição, e para o Atlântico como se fosse uma retaguarda. O que se passou com Sarkozy parece um aviso para a frequente demonstração do eleitorado manifestar a falha de confiança na ordem constitucional e internacional. É uma época em que essa estrutura violada pela falta de intervenção dos eleitorados, avulta a necessidade de “vozes fiáveis” para recuperar a vigência do “credo dos valores”, que na ONU parecem impedidos pela frequência com que os imperativos do “mundo único” e da “Terra Casa Comum dos Homens” parecem tratados como se fossem utopias das vozes dos responsáveis da sua gestão e autenticidade.  

Não é de estranhar, mas é antes de confiar, que são os líderes do catolicismo, o último, o Papa Francisco, os chamados à Assembleia Geral para dignificar a comunhão das etnias e culturas, e religiões diferentes, ao serviço com êxito de uma ordem que responda à justiça, que até a pandemia parece contrariar sem comando conhecido. Seria talvez a conclusão final de Hans Küng, grande amigo e cooperante do histórico secretário-geral da ONU que foi Kofi Annan. Verificou-se o receio que Winston Churchill manifestou quanto ao consequencialismo da última Grande Guerra, ao concluir que estava em causa a sobrevivência da civilização cristã. 

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