ADRIANO MOREIRA

13 de Fevereiro de 2020

UM PAÍS – DOIS SISTEMAS. No processo de descolonização pelas potências ocidentais depois da paz de 1945, e obedecendo às normas e princípios da ONU, o governo da China tinha de enfrentar pelo menos dois problemas difíceis: um que persiste e diz respeito a Taiwan, onde o vencido Chiang Kai-shek se refugiou com o ainda poderoso exército e reivindicando continuar a ser o Presidente da China, sendo que a ilha representou durante anos essa unidade fictícia no Conselho de Segurança, e agora, eliminada a ficção, vai perdendo o reconhecimento internacional como Estado; o segundo problema era o de Hong Kong, realmente uma criação inglesa significativamente ocidentalizada, e que fazia seguramente hesitar o governo do Reino Unido entre criar um Estado ou aceitar a entrega à China, salvaguardando o teor da identidade cultural que criara.  A ideia de um Estado com dois sistemas foi semanticamente comportável com a tradição da “civilização chinesa”, abrangendo na unidade política as minorias que possui. Foi assim que em 1997 nasceu a Região Especial de Hong Kong, mas com um limite temporal que aproxima, talvez inevitavelmente, o fim do regime de transição, questão que não deve ter reflexos na Região Especial de Macau que tem uma identidade respeitável e não desafiante. Mas Hong Kong lembra inevitavelmente o desafio da juventude chinesa que levou ao massacre de Tiananmen, permanecendo na memória desse triste ano de 1989 a imagem divulgada do jovem estudante que caiu, mas firme, diante da brutalidade do tanque militar.  

Nesta data, de novo a juventude universitária se destaca na sociedade civil que reclama uma solução política, enquanto a resposta do governo da China alerta para a inevitável repressão. As barricadas das universidades não são de prudentes gestores políticos, mas de jovens com uma visão de futuro que não é acompanhada pela prévia avaliação dos riscos. O regresso aos países de origem da larga comunidade de estudantes estrangeiros é o corolário das manifestações que nos seus países apelam à negociação e repúdio da violência, mas deste modo evidenciando que temem que os apelos não sejam eficazes. Não faltam no próprio território manifestações de responsáveis criticando o governo porque “não deveria em qualquer circunstância deixar a situação degradar-se a este ponto”. E a gravidade da referida situação é evidenciada pelo facto de os presidentes de nove universidades de Hong Kong terem emitido um apelo no sentido de a sociedade se mobilizar para repor a paz e ordem, pensando seguramente na sua responsabilidade em relação aos estudantes que organizaram e resistiram dentro das respetivas instalações. Uma esperança que já parece limitada pela declaração breve do Presidente Xi Jinping, em negociações em Brasília, no sentido de que “pôr fim ao caos e restaurar a ordem era a tarefa mais urgente a executar”.  

Na sociedade civil destaca-se a iniciativa de um grupo de advogados, que a imprensa filia na Hong Kong Forward Alliance, a qual inclui especialistas de crises da sociedade civil, antigos oficiais e responsáveis empresariais, procurando viabilizar uma solução diferente de repressão, cujo agravamento foi largamente anunciado. Não é prudente assumir que o governo da China, embora praticando a diplomacia em que apoia a sua atual política de influência, que já é claramente, no que toca ao globalismo, uma competição EUA-China, faça cedências quanto ao valor da unidade territorial por efeito de reprovação externa. Mas talvez possamos conseguir que o valor global da “Nação sem Estado”, que tende para caracterizar Hong Kong, seja moderador da intervenção militar, com benefício para o exercício da atual diplomacia chinesa de influência, e da limitação da erosão da importância económica que essa “Nação sem Estado” tem para a China. O interesse político da influência pode beneficiar o respeito pelos direitos humanos, e a paz interna.  

 

 



Categoria: Opinião

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