ADRIANO MOREIRA

12 de Dezembro de 2019

A ESTRATÉGIA DOS TURBILHÕES – À medida que a interdependência global se torna mais desafiante, cresce o distanciamento de uma governança mundial, estando sempre presente o aviso de Bismark, que, com duas guerras mundiais, ficou confirmado pelos factos. Já no longínquo 1970, Albert Hirschman, num livro que despertou o interesse mundial, intitulado Exit, voice, and loyalty, alertava para um inquietante futuro. Quando o tema mais abordado na circunstância atual da ordem internacional é sempre o da economia e finanças, é difícil não registar as dificuldades financeiras da ONU, quando crescem os riscos para a defesa dos valores que a utopia da fundação assumiu. Já tinha sido sublinhado, designadamente por Frédéric Charillon, da Universidade de Auvergne, que a falta de uma governança do globalismo tinha desencadeado um movimento crítico da proposta ordem, por considerarem longe da autenticidade a política das potências mais fortes, o que incluía as que têm o direito de veto no Conselho de Segurança. As diplomacias contestatárias assumiram o que foi chamado “nova prática internacional alternativa”, a formação de “solidariedades partilhadas”, um movimento que multiplicou as formações lideradas pelos chamados emergentes, numa estratégia de turbilhões. Estas observações, feitas há uma década, lidaram com a identificação de sérios sintomas de que a “utopia” da ONU seria negativamente afetada pela realidade que conduziu a um globalismo “sem bússola”, como sugeriu Montbrial.

Os EUA colocam em perigo a solidariedade atlântica e a confiança global; o Brexit afeta não apenas o Reino Unido mas também a estabilidade da União Europeia; o multilateralismo parece ser progressivamente agredido pelas “eucracias”; também pela chamada “diplomacia de grupo” como o G-5 que evoluiu para G-7 e que reuniu os Estados mais desenvolvidos; depois o G-20, mais complexo, com um objetivo preciso assumido pelos que lidam com o controlo da proliferação das armas atómicas, cooperando com os que procuram combater o terrorismo. Tudo converge numa inquietação que se traduz em que formalmente a Carta da ONU não previu um confronto entre o multilateralismo e o unilateralismo, quando os factos mostram que a luta pela reformulação da hierarquia das potências, desatualizando a acolhida pelo Conselho de Segurança, aconselha, no que diz respeito à paz, avaliar se esse Conselho ainda é o confiável responsável pela conservação da paz.

Na América Latina a democracia enfraquece; os populismos afetam a estabilidade dos princípios na própria Europa; o multilateralismo da Carta é enfraquecido pela opção do unilateralismo; o Brexit enfraquece a União Europeia; as migrações desafiam o “mundo único”; a competição entre os EUA, a China, e também a Rússia, não corre sem a prática de leviandades repetidas; a justiça supraestadual é desrespeitada. O Conselho de Segurança tem matéria excessiva a exigir que avalie a relação entre o seu estatuto e a sua agenda.

Por Adriano Moreira – Presidente do Instituto de Altos Estudos da Academia das Ciências de Lisboa / Professor Emérito da Universidade Técnica de Lisboa



Categoria: Opinião

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