ADALBERTO CAMPOS FERNANDES

A IMPORTÂNCIA DE UM CONSENSO ALARGADO SOBRE O SNSAo longo das últimas décadas, o SNS tem enfrentado desafios estruturais, agravados por crises sucessivas, que não podem continuar a ser geridos de forma reativa nem dependentes da lógica de curto prazo dos ciclos político-eleitorais. 

A saúde é um dos pilares estruturantes do contrato social e do desenvolvimento sustentável em Portugal. O Serviço Nacional de Saúde (SNS), consagrado na Constituição da República Portuguesa, representa desde 1979 uma das mais relevantes conquistas da democracia, assegurando o acesso universal, geral e tendencialmente gratuito aos cuidados de saúde. No entanto, ao longo das últimas décadas, o SNS tem enfrentado constrangimentos persistentes, como o subfinanciamento, a fragmentação organizacional, o défice de recursos humanos, as desigualdades territoriais e dificuldades recorrentes no acesso a cuidados. Estes desafios estruturais, agravados por crises sucessivas, não podem continuar a ser geridos de forma reativa nem dependentes da lógica de curto prazo dos ciclos político-eleitorais. 

Reformas comprometidas 

A experiência acumulada demonstra que a alternância frequente de orientações estratégicas, a rotatividade das lideranças e a ausência de políticas de saúde com continuidade e avaliação rigorosa têm comprometido reformas essenciais. Cada legislatura inicia projetos que raramente são concluídos, interrompendo processos de transformação que exigem estabilidade, investimento plurianual e monitorização consistente. Esta instabilidade afeta negativamente a eficiência do sistema, desincentiva a inovação organizacional e tecnológica e fragiliza a confiança dos cidadãos e dos profissionais no SNS. 

Torna-se, por isso, crucial construir um consenso político e social alargado em torno do SNS, que estabeleça um quadro de prioridades estável, previsível e partilhado para todo o horizonte de uma legislatura, com a ambição de perdurar para além dela. Este consenso não implica uniformidade ideológica, mas sim a definição de um núcleo de compromissos estratégicos mínimos entre os principais partidos com vocação governativa, os profissionais de saúde e as suas ordens profissionais, as autarquias, o setor social e solidário, os prestadores privados, as associações de doentes e os representantes da sociedade civil. 

Um pacto desta natureza deve contemplar e calendarizar objetivos quantificáveis em áreas críticas tais como o financiamento sustentável e transparente, o reforço dos cuidados de saúde primários e da rede hospitalar, a valorização e a retenção dos recursos humanos, a modernização da governação e dos modelos de gestão, a digitalização e a interoperabilidade dos sistemas de informação, bem como a integração efetiva de cuidados ao longo do ciclo de vida do utente. 

Acordo estruturante e transversal 

A existência de um acordo estruturante e transversal permitiria garantir maior previsibilidade de recursos, reduzir a conflitualidade institucional, promover a continuidade das políticas públicas, reforçar a accountability e criar condições para a inovação e para a melhoria contínua da qualidade e da eficiência do SNS. Permitiria, sobretudo, restabelecer a confiança dos cidadãos num sistema público de saúde mais equitativo, resiliente e centrado nas necessidades da população. 

A presente legislatura constitui uma oportunidade crítica para alcançar este compromisso nacional pela saúde. Sem ele, Portugal permanecerá preso a um ciclo de estagnação e de respostas fragmentadas, com ele, poderá transformar o SNS num verdadeiro motor de coesão social, desenvolvimento económico e bem-estar coletivo. 

O futuro do SNS não pode depender apenas da vontade conjuntural de quem governa. Tem de assentar num compromisso duradouro entre todos os que dele dependem, isto é, em todos nós. 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *