CARLOS CARREIRAS

ATAQUE BRUTAL À HUMANIDADE, A PEGADA INVISÍVEL DA GUERRA E OS CUSTOS AMBIENTAIS DOS CONFLITOS CONTEMPORÂNEOS – Num momento em que a crise climática domina o debate global, um dos seus motores mais persistentes permanece amplamente subestimado: a guerra. Para além da devastação humana e geopolítica, os conflitos armados contemporâneos constituem um fator relevante – embora frequentemente invisível – de degradação ambiental à escala planetária.

Só para termos uma noção quantitativa, a guerra na Ucrânia ultrapassa os 300 milhões de toneladas de CO₂ desde 2022 – o equivalente às emissões anuais de vários países médios europeus – e a guerra no Médio Oriente, mais de 60 milhões de toneladas de CO₂ em ~15 meses

O impacto ambiental da guerra não se limita ao campo de batalha. Ele estende-se por múltiplas dimensões, desde as emissões diretas de gases com efeito de estufa até à destruição de ecossistemas e à contaminação prolongada de solos e recursos hídricos. Estimativas recentes sugerem que o setor militar global poderá ser responsável por cerca de 5,5% das emissões mundiais de carbono. Caso fosse considerado um país, figuraria entre os maiores emissores do planeta.

Conflitos armados

Conflitos recentes oferecem exemplos concretos desta realidade. A guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, terá gerado centenas de milhões de toneladas de dióxido de carbono, não apenas através de operações militares, mas também devido a incêndios, destruição de infraestruturas energéticas e processos de reconstrução. De forma semelhante, a guerra em Gaza evidenciou como a devastação territorial se traduz em colapso ambiental: perda massiva de cobertura vegetal, destruição de terras agrícolas e falhas sistémicas nos sistemas de saneamento.

A destruição de infraestruturas constitui um dos principais vetores deste impacto. Centrais elétricas, refinarias e instalações industriais, quando atingidas, libertam quantidades significativas de poluentes atmosféricos e substâncias tóxicas. Estes eventos geram não apenas emissões imediatas, mas também efeitos cumulativos que se prolongam muito para além do fim das hostilidades. A reconstrução subsequente, intensiva em materiais como cimento e aço, agrava ainda mais a pegada carbónica.

Alterações significativas

Simultaneamente, os ecossistemas locais sofrem danos muitas vezes irreversíveis. A fragmentação de habitats, a contaminação do solo por metais pesados e a presença de engenhos explosivos não detonados comprometem a biodiversidade e tornam vastas áreas inutilizáveis durante décadas. A guerra transforma paisagens produtivas em zonas degradadas, com consequências diretas para a segurança alimentar e para a resiliência das comunidades afetadas.

A dimensão hídrica é igualmente crítica. O colapso de infraestruturas de saneamento e abastecimento conduz frequentemente à poluição de rios, aquíferos e zonas costeiras. A descarga de águas residuais não tratadas e a infiltração de combustíveis e produtos químicos nos solos criam riscos sanitários duradouros, ampliando o impacto humanitário dos conflitos.

Apesar da magnitude destes efeitos, o impacto ambiental da guerra continua sub-representado nos mecanismos internacionais de monitorização climática. As emissões militares não são universalmente reportadas, e a opacidade associada a operações de defesa dificulta a obtenção de dados rigorosos. Este défice de transparência contribui para uma subavaliação sistemática do problema.

Crise climática contemporânea

Mais do que um fenómeno colateral, o impacto ambiental da guerra deve ser entendido como parte integrante da crise climática contemporânea. Num contexto em que os recursos financeiros e tecnológicos são limitados, o aumento dos gastos militares representa também um desvio de investimento face a políticas de mitigação e adaptação climática.

Reconhecer esta interligação é essencial para uma abordagem mais completa e coerente aos desafios ambientais do século XXI. Enquanto os conflitos persistirem, a transição ecológica permanecerá incompleta. A guerra, neste sentido, não é apenas uma tragédia humana e política – é também uma força silenciosa de erosão ambiental global.

É uma abordagem que não tenho visto ser analisada e que tem resultados muito negativos que afetam várias gerações. É urgente mandar o aviso para os beligerantes, pela vossa e nossa saúde, acabem com a guerra.

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