CARLOS CARREIRAS

MOBILIDADES E PROSPERIDADE – Precisamos do transporte público no combate à pandemia. Como líder de uma das comunidades que resposta mais firme deu à pandemia, tenho consciência das minhas responsabilidades. Em Cascais pretendemos que os cidadãos encontrem na mobilidade um catalisador para a prosperidade. O problema de se condicionarem as liberdades é o de nunca se ter bem a certeza de quando serão respostas. É inegável que o combate à pandemia cerceou direitos, liberdades e garantias. É igualmente verdade que tal foi feito em nome maior da proteção da vida num período em que o entendimento do vírus era ainda difuso. Hoje já ultrapassamos esse tempo. Conhecemos melhor a forma de propagação da Covid-19. Há muita coisa que não sabemos. Porém, sabemos que se tomarmos as medidas adequadas de autoproteção, contribuiremos muito para o achatamento da curva epidemiológica. Cientes de que não há risco zero na vida em sociedade – o risco é inerente à nossa condição de seres dotados de livre-arbítrio – temos todos de fazer um esforço para repor a normalidade. É a minha convicção de que, nessa reposição rápida da normalidade, o transporte público será uma peça central e insubstituível. Por mais que o recurso ao teletrabalho seja uma opção crescente em muitas atividades, há milhões de trabalhadores no nosso país e em todo o mundo que pura e simplesmente não se podem dar ao luxo do trabalho remoto. A virtualização do trabalho não é democrática.

Transportes fiáveis em tempos de pandemia – A manufatura, a educação nas nossas escolas, a prestação de cuidados de saúde ou a manutenção das nossas cidades exigem presença física. Nas áreas urbanas mais densamente povoadas, as pessoas que têm de continuar a sair de casa para ganhar a vida dependem muito do recurso ao transporte público. Ter redes de transportes fiáveis em tempos de pandemia é decisivo para a reconstrução do edifício económico em que assentam as nossas sociedades. Sem mobilidade não há nem liberdade nem prosperidade. Isto mostra como é importante normalizar o uso do transporte público. Os autocarros, metropolitanos e comboios são lugares particularmente desafiantes por três razões: são espaços fechados e andam regularmente sobrelotados, anulando distâncias de segurança. A boa notícia é que a ciência e o bom senso permitem-nos dar resposta a este triplo desafio. Com mais ventilação e com mais desdobramentos, mitigam-se os efeitos da sobrelotação e protege-se o distanciamento social. Para resumir, diria que os principais problemas se resolvem com uma ideia operacional: menor densidade de passageiros, mais frequência de carreiras. Em pandemia, não há problemas que se resolvem sozinhos. Precisamos do contributo de todos. Este é mais um caso exemplar: governos (locais e nacionais), empresas e cidadãos são chamados a fazer a sua parte para que a pandemia não mate a confiança na rede capilar de transporte que anima a nossa economia e sustenta o nosso modo de vida.

Rede integrada e moderna de mobilidade – Como líder de uma das comunidades que resposta mais firme deu à pandemia, tenho consciência das minhas responsabilidades. Em Cascais pretendemos que os cidadãos encontrem na mobilidade um catalisador para a prosperidade. Essa vontade não nasceu com a pandemia. Vem de mais longe. Desde dia 1 de janeiro de 2020 que os transportes públicos em Cascais são gratuitos para quem vive, estuda ou trabalha em Cascais. Isso fez de nós o primeiro concelho do país, e um dos poucos no mundo, a criar universalidade de acesso à rede de transportes como fundamento da liberdade de circulação. Esta decisão foi acompanhada por outras, a montante. Como, por exemplo, termos estreado o sistema de bilhética unificado ou, de forma mais decisiva, Cascais se ter tornado Autoridade Municipal de Transportes. Isso permitiu que as nossas equipas começassem a trabalhar numa rede integrada e moderna de mobilidade. Por imposição da União Europeia, realizámos antes de qualquer outro município no país o Concurso Público Internacional para a concessão de transporte coletivo rodoviário no nosso concelho. E enquanto a oposição em Cascais contestava o concurso, insinuando a existência de um fato à medida para a Scotturb (que, ironicamente venceu em concelhos comunistas e socialistas), a mesma Scotturb contestava o resultado do concurso que, concluído no final do ano passado, dava a vitória à Martin. Perguntará o leitor, de forma pertinente, que relação têm estes procedimentos com o controlo da pandemia? A resposta é: tem toda a relação.

Maior segurança, maior distanciamento, maior conforto – Quero lembrar que a entrada da empresa espanhola em Cascais está apenas dependente do visto do Tribunal de Contas. Sem visto não temos como dotar o concelho de mais, melhor e maior rede de transportes públicos. Com todo o respeito pelos tempos próprios das instituições, não escondo que esperamos e desejamos que esse visto surja o quanto antes. E porquê? Porque a Martin, e a proposta de valor de serviço público que o município exigiu à empresa, será um parceiro insubstituível no combate às pandemias económica e social, ambas geradas na cauda da grande crise de saúde pública – sobretudo agora, que uma segunda vaga da doença está a emergir. Para se perceber do que estamos a falar, quando obtivermos o visto do Tribunal de Contas poderemos duplicar a oferta de transporte público rodoviário. Em termos absolutos, estamos a falar de 7 milhões de quilómetros anuais contratados, um aumento de 83% face ao prestador atual. Ou seja, os passageiros em Cascais vão andar com maior segurança e maior distanciamento. Mas também com maior conforto: por exigência do concurso que montámos, a Martin terá de operar autocarros novos, zero km, equipados com wi-fi, sensores de bordo e videovigilância. Toda a tecnologia de ponta no setor será embarcada na frota ao serviço dos cascalenses. É uma solução de mobilidade para um novo tempo que tem de ser, por obrigação moral, mais sustentável. Daí que toda a frota seja da última geração Euro 6, muito menos agressora do ambiente.

A importância da inovação – A relação com a Martin prevê ainda uma bolsa tecnológica de 2 milhões de euros. Este dinheiro podia ter sido usado para baixar ainda mais o preço por quilómetro. Decidimos não fazer isso. Porque a inovação é importante, e porque a queremos liderar, a Martin garantirá a todo o tempo a evolução tecnológica, com isso criando níveis crescentes de satisfação na experiência do cliente. Porque Cascais não é uma ilha, o nosso caderno de encargos prevê integração de toda a bilhética do concelho com a Área Metropolitana de Lisboa (AML). Por último, mas não menos importante, o preço: todas estas exigências foram conseguidas por um preço de 1,76€/km. Isso é bom ou mau? Temos de comparar com os nossos vizinhos. E quando comparamos, vemos que outros vão pagar mais (o preço médio da AML é de 1,93€) por autocarros mais velhos (média de sete anos), com menos carreiras (aumento de 39%, inferior aos 83% de Cascais) e sem qualquer contrapartida para a inovação tecnológica.

Todos ganham – Cascais, sozinha, conseguiu mais do que vários municípios da AML no seu conjunto. Que fique claro, porém, que este não é um jogo de soma zero. Todos ganham. Quero, por isso, felicitar a AML por ter seguido, sem preconceitos, o modelo de contratação que há muitos meses preconizámos em Cascais. Os únicos derrotados em todo este processo foram apenas os impreparados eleitos da oposição em Cascais, que nunca, em momento algum, compreenderam a natureza das mudanças que estavam a ser promovidas – nem nos transportes, nem no combate à pandemia. Fazer frente à pandemia, recuperar a normalidade, reconstruir o país exige uma rede de transportes públicos seguros, confortáveis e frequentes. É isso que queremos. É isso que esperamos. É uma questão de tempo.

Vencer a Covid-19 não é apenas um tema sanitário. Não podemos tratar da doença e morrer da cura. Precisamos de confiança, de normalidade, de previsibilidade. Precisamos de uma economia a funcionar. Todos estes valores podem ser-nos facilitados por uma rede de transportes públicos modernos e sustentáveis.

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