PORTUGAL 2030

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A DIABETES EM PORTUGAL EM DEBATE

A problemática da Diabetes em Portugal foi o tema central de mais um debate do ciclo Portugal 2030, promovido pela revista FRONTLINE, que reuniu um painel de especialistas, no passado dia 14 de novembro, precisamente na data em que se assinala o dia mundial da doença, no Hotel InterContinental, em Lisboa. Esta iniciativa, que fechou o primeiro ano do ciclo de debates Portugal 2030, contou com a presença do secretário de Estado Adjunto do ministro da Saúde, Fernando Leal da Costa.

José Manuel Boavida, da Direção-Geral de Saúde; Maria Helena Cardoso, da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo; Luís Gardete Correia, da Associação Protetora dos Diabéticos em Portugal; Francisco Carrilho, diretor dos Serviços de Endocrinologia e Diabetes do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, e João Nabais, da International Diabetes Federation, European Region, constituíram o painel de oradores convidados para mais um debate do Ciclo Portugal 2030, promovido pela revista FRONTLINE.   A problemática da Diabetes em Portugal foi o tema central da iniciativa, que teve lugar precisamente na data em que se celebrou o dia mundial desta doença e contou, igualmente, com a presença do secretário de Estado Adjunto do ministro da Saúde, Fernando Leal da Costa, que procedeu ao seu encerramento.

José Manuel Boavida – Direção-Geral de Saúdeorador_YC7H3661

A primeira intervenção no debate coube a José Manuel Boavida, da Direção-Geral de Saúde (DGS), que começou por traçar a dimensão atual da doença em Portugal, alertando para a sua prevalência elevada: “Se juntarmos aqueles que têm diabetes e aqueles que estão em risco de ter diabetes, estamos a falar de 3 milhões de portugueses que são atingidos por esta situação. E acresce outra situação que é dramática, o facto de hoje termos já uma prevalência de 13% da população com diabetes, quando em 2009 os estudos cifravam este número em 11,7% da população.” Para aquele especialista, outra preocupação constante é que metade desta população tem a diabetes por diagnosticar, ou seja, cerca de 400 mil indivíduos, e que esse diagnóstico muitas vezes infelizmente só ocorre na despistagem de outras situações de doença. Outro alerta expresso foi a decorrência do facto de, ao juntar estes 13% de prevalência a um segundo grupo que se considera que tem risco de vir a ter diabetes, então estamos a falar já de 40% da população portuguesa. No que respeita ao impacto da doença ao nível da mortalidade, José Manuel Boavida salientou que, de acordo com os últimos dados, em Portugal 25% das mortes nos hospitais são de pessoas com diabetes, número que todos os anos tem vindo a subir, o que representa um enorme impacto no sistema de saúde em matéria de saúde pública e já representa 10% da despesa total nesta área. Mas, em paralelo, destacou também os avanços verdadeiramente significativos que se têm vindo a fazer no rastreio da doença, nomeadamente na área do rastreio da retinopatia diabética feita por proximidade nos centros de saúde e o seguimento real que hoje já se faz ao nível dos cuidados de saúde primários de pessoas com diabetes, com cerca de 81% dos doentes com consulta registada a este nível, libertando os hospitais para que tenham um papel mais específico no tratamento da doença.

 

oradora_YC7H3641Maria Helena Cardoso – Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo

Maria Helena Cardoso, da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, retomou o fio condutor da intervenção de José Manuel Boavida para falar sobre o tratamento da diabetes, alertando para a complexidade de variáveis envolvidas neste domínio, variáveis relacionadas com a pessoa, com a diabetes, com a equipa de saúde, com a doença em si, com a família e fatores associados às condições do macro sistema: “Quando falamos de tratar uma pessoa com diabetes, temos de dar poder à pessoa, mas fundamentalmente a equipa de saúde é que tem de reconhecer esse poder, porque a equipa aconselha atitudes, mas a pessoa quando vai para casa faz o que quer. A pessoa com diabetes tem de ser um parceiro e as decisões vão ter de ser partilhadas. Portanto, o envolvimento da pessoa no tratamento é de uma importância extrema.” Para Maria Helena Cardoso, outro aspeto fundamental quando se escolhe um tratamento é a satisfação da pessoa a quem se destina o tratamento, aspeto que pode parecer insignificante, mas não é: “Se o tratamento for ineficaz, a pessoa vai ter tendência para não o cumprir, logo, uma terapêutica farmacológica não eficaz vai levar também à não mudança no estilo de vida, tão importante nestes doentes.” Aquela responsável abordou também a questão da realidade da doença em Portugal, começando por salientar que, nos últimos cinco anos, houve uma diminuição do número de anos potenciais de vida perdidos por diabetes e, desde o ano 2000, uma redução significativa da letalidade inter-hospitalar, o que significa pacientes mais bem tratados. E concluiu abordando a questão da necessidade de, para além da micro intervenção, que é feita a nível clínico, se apostar na macro intervenção a nível do ambiente físico, económico e sociocultural, pois só com a participação de todos será possível travar esta epidemia.

Luís Gardete Correia –  Associação Protetora dos Diabéticos em Portugalorador_YC7H3650

Luís Gardete Correia, da Associação Protetora dos Diabéticos em Portugal, introduziu o tema da importância do tratamento integrado do doente com diabetes, voltando a chamar a atenção para a existência de mais de 400 mil diabéticos em Portugal sem diagnóstico feito. E relembrou outros factos associados à doença, uma das primeiras causas de morte, a primeira causa de insuficiência renal, a primeira causa de cegueira, a primeira causa de amputações não traumáticas, das primeiras causas de doença cardiovascular, entre outras. Numa análise histórica da doença, Gardete Correia relembrou que o primeiro grande marco foi o aparecimento da insulina em 1921. Até então as pessoas com diabetes tipo I morriam e a diabetes tipo II não tinha expressão. A partir daqui as pessoas deixaram efetivamente de morrer, e pensou-se então que o problema estava resolvido e que a doença seria controlada com fármacos que certamente seriam desenvolvidos. Mas assim não aconteceu, e o que se verificou foi começar-se a ter a noção de um outro aspeto que não existia antes, o das complicações, pois não se sabia o que eram 10, 20, 30 anos de diabetes, já que as pessoas morriam. Percebeu-se então que a questão não era só prescrever a insulina, mas sim “ensinar a insulina” e nasceu, concretamente em Portugal pela mão de Ernesto Roma – precisamente o fundador da Associação Protetora dos Diabéticos –, a Educação Terapêutica, afinal aquilo que hoje se chama a abordagem integrada da doença, que vai desde o planeamento familiar à consulta do pé, à consulta de urologia, entre tantas outras dentro de uma mesma estrutura que acompanha todas as manifestações das complicações tardias da doença. E este é o modelo de unidade integrada atualmente disseminado pelo mundo inteiro e que Michael Porter, que tem desenvolvido inúmeros trabalhos na área da Saúde, caracterizou com um conjunto de atributos: uma organização à volta de uma situação médica de um doente, com uma equipa dedicada e multidisciplinar; com uma avaliação integrada da equipa, um círculo completo de cuidados e uma única estrutura administrativa, entre outros. E concluiu a sua intervenção destacando o papel que a Associação dos Diabéticos de Portugal tem tido, “considerada hoje, por exemplo, uma unidade de referência ao nível dos diabetes pediátricos e um centro de excelência, de inovação e envolvimento desta doença, para além dos inúmeros projetos em que está a colaborar com a Organização Mundial de Saúde”.

orador_YC7H3657Francisco Carrilho – diretor dos Serviços de Endocrinologia e Diabetes do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra

Já Francisco Carrilho, diretor dos Serviços de Endocrinologia e Diabetes do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, centrou a sua intervenção numa perspetiva sobretudo médica, embora de forma generalista, começando por abordar a questão das novas tecnologias aplicadas à diabetes, nomeadamente de dispositivos como as bombas infusoras de insulina, dos sensores subcutâneos e da monitorização da glicose, e das aplicações informáticas como, por exemplo, para contagem de equivalentes alimentares, para contagem de calorias, entre as milhares que existem. Mas foi a questão das bombas infusoras – um dispositivo que injeta insulina de uma forma mais adequada ao tratamento da doença – que relevou na sua exposição: “Os doentes que têm este dispositivo têm-no ao abrigo de um programa de reembolsos de pagamento deste projeto que é universal em toda a Europa. Note-se que as bombas infusoras só passaram a ter uma aplicação mais disseminada a partir do momento em que os responsáveis políticos entenderam ser rentável investir numa bomba infusora, tratar melhor o doente diabético e com isso poupar muito dinheiro. Se olharmos para uma pessoa com diabetes tipo I, ela começa a ser diabética aos 5, 10, 15 anos de idade e vai viver mais 50 anos com elevados gastos para os sistemas de saúde, pelos cuidados prolongados que vai necessariamente ter.” Olhando para os números do programa em Portugal, atualmente com 1119 doentes a beneficiar desta tecnologia, o diretor dos Serviços de Endocrinologia e Diabetes do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra lamentou que o mesmo – lançado pelo então ministro Correia de Campos – tenha terminado em 2012, o que levou a que no ano a seguir tivessem sido colocadas apenas 275 bombas e em 2014 só 106, das quais 31 foram de substituição: “Foi uma redução muito significativa numa lista de espera que é enorme e o programa está atualmente sem a dotação orçamental devida.” E concluiu citando números: “Na Suécia há cerca de 25 mil diabéticos tipo I, dos quais cerca de 25% têm bomba. No Reino Unido há 220 mil, dos quais 6% têm bomba infusora. Nos Estados Unidos temos cerca de 35% com bombas, porque os tais malfadados seguros de saúde já perceberam que é muito mais barato tratar os doentes com esta tecnologia. Em Portugal temos cerca de 2%. E olhando para os gastos, gastamos 420 milhões de euros em hospitalizações e 1200 mil em bombas!”

João Nabais – International Diabetes Federation, European Regionorador - YC7H3636

João Nabais, da International Diabetes Federation, European Region, e também ele doente diabético do tipo I, encerrou o painel de intervenções dos especialistas, chamando, desde logo, a atenção para a disparidade que existe no acesso dos diabéticos às novas tecnologias, mesmo a nível europeu. Pegando nas projeções que existem sobre a doença, adiantou que é estimado que se passe dos atuais 7,9% de diabéticos na Europa para 10,3% em 2035 – com gastos que se cifram em 144 biliões de dólares – mas alertando para o facto de as projeções serem sempre pulverizadas. Voltando aos números, João Nabais apontou, por exemplo, a questão da prevalência relativa da doença, onde a Turquia ocupa o primeiro lugar, mas com Portugal logo a seguir, “o que nos leva a ter de encarar a diabetes de uma forma muito séria, mas nunca esquecendo que sempre que se fala em números, por detrás de um número está sempre uma pessoa”. Sobre a questão da disparidade do acesso dos diabéticos às novas tecnologias, o orador citou um estudo da IDF Europa – International Diabetes Federation, cujas conclusões apontam claramente para esta desigualdade de acesso entre países, e mesmo dentro do próprio país, quando se vê no estudo que o que se gasta em saúde tem uma variação brutal: por exemplo, na Suíça – cerca de 6600 euros per capita –, quando no Cazaquistão este valor se cifra em cerca de 74 euros. “Vou falar-vos de uma iniciativa que a IDF realiza e que expressa bem esta realidade no que respeita aos diabéticos. Todos os anos juntamos durante uma semana cerca de 24 jovens adultos, entre os 18 e os 30 anos, de 22 países diferentes, para partilharem as suas experiências e aprenderem a ser os novos líderes na área da diabetes. Mas é também aí que se percebem as diferenças, como um jovem ucraniano que foi para o campo com o seu medidor de glicemia, que mais não era do que as tiras antigas de medição da glicemia que eu usei nos anos 80, por contraponto a muitos outros, por exemplo da Suécia, que já têm uma bomba de insulina. Este é o panorama geral.” E fechou a sua intervenção com o que considerou a pergunta de “um milhão de dólares”: “como é que vamos ter acesso a tecnologias que serão tendencialmente mais caras? É para isso que temos de trabalhar todos”.

 

secretario de estado_YC7H3852Um agradecimento especial:

Coube ao secretário de Estado Adjunto do ministro da Saúde, Fernando Leal da Costa, encerrar o debate sobre a problemática da diabetes em Portugal. O membro do Governo começou por saudar a iniciativa, não só pela data em que era assinalada, mas, como enfatizou, porque falar sobre a diabetes, falar de um problema muito importante no nosso sistema, é sempre oportuno em qualquer dia. Leal da Costa começou por referir que, atualmente, o principal problema da diabetes no mundo inteiro se prende como o aumento acentuado de casos de diabetes tipo II e que esta não é só uma doença dos estratos sociais e económicos mais favorecidos, como é uma doença que hoje afeta também, de uma forma impressionantemente crescente, países que habitualmente não estariam sujeitos a este tipo de patologia, nomeadamente países de África, Sudoeste Asiático e América do sul, onde parte dos nossos maus padrões alimentares acabaram de alguma forma por se tornar dominantes: “A diabetes é uma doença pandémica, e Portugal é um país com uma elevada prevalência de diabetes, onde podemos considerar várias razões para que assim seja, mas principalmente parece-me que estamos a falar de uma acumulação histórica de hábitos alimentares não muito saudáveis, uma tendência para uma grande inatividade física e também, porque não dizê-lo, porque estamos hoje mais próximos de conhecer a realidade da doença e estamos confrontados com a sua real dimensão.” O secretário de Estado salientou ainda a forma como a sociedade se tem sabido organizar, “no sentido de, a pouco e pouco, poder ajudar o Estado a combater a doença, uma doença de tal forma comum que eu diria que são poucas as famílias portuguesas que não a conhecem”. E acabou por citar o seu próprio exemplo, confrontado desde miúdo com uma doença que não compreendia, com a situação de uma tia sua que sofria de diabetes tipo I e que acabou por falecer ainda bastante jovem. Na conclusão da sua intervenção, Fernando Leal da Costa citou igualmente o esforço significativo que está a ser feito ao nível dos cuidados de saúde primários, no combate às assimetrias que ainda existem a nível nacional, por exemplo, na capacidade de rastreio de retinopatia, alertando também para o facto de que todo o esforço que puder ser feito no sentido de tornar o tratamento da diabetes mais comportável, nomeadamente nas escolhas de medicamentos, obviamente libertará mais recursos para apostar noutras coisas eventualmente mais necessárias, nomeadamente na compra de bombas infusoras: “e isto é o que temos de fazer em qualquer doença, saber escolher as prioridades, porque infelizmente não vamos conseguir que o orçamento aumente de um dia para o outro. Embora felizmente existam neste momento bons indicadores económicos, isso não nos desculpa nem afasta da obrigação de termos de tratar a diabetes desde a primeira hora da forma mais correta e mais sustentável no longo prazo”. E deixou uma última mensagem para “chamar à discussão um outro agente muito importante, ao qual o Governo não pode deixar de dar a sua devida atenção”, a necessidade de se trabalhar com a indústria alimentar, que tem um papel fundamental naquilo que se prende com a prevenção da obesidade e da diabetes, mas reconhecendo que têm sido desenvolvidos esforços importantes nesta matéria e, mais uma vez, alertando para a necessidades das abordagens multissetoriais para o combate à diabetes.