FERNANDO NEGRÃO

1 de Abril de 2018

Leituras políticas

Da mesma forma que não acredito em políticos providenciais (fujo desses, aliás), acredito que, num dado momento da vida de um país, existem políticos que estão em melhores condições do que outros para fazerem uma leitura mais acertada e mais abrangente do sentir, das expetativas e das necessidades da sociedade. Não com o objetivo demagógico-populista de dizerem, depois, o que as pessoas querem ouvir – uma tendência perigosa que ciclicamente tem colocado o poder em mãos duvidosas, senão erradas, como vem acontecendo em tantas latitudes. Mas no sentido de interpretar com seriedade e coragem os anseios e as preocupações dos cidadãos e, munido desse entendimento e de ideias válidas, mobilizar a comunidade na construção de um futuro melhor para todos.

 

Essa leitura do país real nunca pode ser, apenas, uma leitura política stricto sensu. Se assim fosse, seria uma leitura necessariamente redutora, submetida a lógicas de curto prazo e com efeitos limitados. Ao contrário, tem que ser uma leitura ampla, holística, capaz de apreender o momentum cultural, social, económico e, diria até, psicológico da nação como um todo. Possuir essa capacidade e saber expressá-la no tempo e no modo certos, convertendo-a em ação, é, quanto a mim, um dos atributos mais distintivos de um líder. Sá Carneiro, Mário Soares e Cavaco Silva – personalidades incontornáveis dos dois partidos mais representativos da nossa democracia – personificaram, na história recente de Portugal, três formas diferentes de fazer política, quer enquanto primeiros-ministros quer enquanto Presidentes da República. Os três souberam fazer a leitura do país nos respetivos tempos políticos, os três tiveram o engenho e arte de interpretarem corretamente os sinais, e a cada um soube agir em conformidade. Com os três, o país saiu a ganhar.

 

Personalidades relevantes

Sá Carneiro, num momento histórico particularmente conturbado, com as esquerdas radicais apoiadas pelo designado Conselho da Revolução e a vida política condicionada pelo pacto MFA-Partidos, em que tudo se encaminhava para o triunfo da revolução comunista. Com uma convicção, determinação e teimosia sem paralelo, soube fazer frente a esse “quadro” antidemocrático, e na afirmação dos valores das democracias ocidentais, bateu-se com êxito pelo fim das entidades e pactos totalitários, ganhou eleições, formou Governo e deu ao país as condições para ser membro de pleno direito da Europa democrática, desenvolvida e orientada pelo respeito aos direitos, liberdades e garantias. Com Sá carneiro o país normalizou. Mário Soares, senhor de uma intuição política ímpar, percebeu no 1.º de Maio de 1974 que a ação do PCP articulada com a dos militares esquerdistas levaria sem sombra de dúvida ao início do “processo revolucionário em curso”, com vista à ditadura comunista. E assim teria sido, não fora a forte coragem e a ainda mais forte formação democrática de Mário Soares no combate à ideologia comunista e seus apêndices. Lutas inesquecíveis, cuja importância os portugueses perceberam e a elas se juntaram. Mesmo que algo possa ter mudado, seria bom que esta luta, que este combate que Mário Soares levou de vencida, não seja nunca esquecida. Com Mário Soares a democracia consolidou-se. Cavaco Silva, o político fazedor que, já em tempos diferentes, veio para desenvolver. O político que fazia política através da fixação de prioridades na ação de fazer e não tanto de dizer. Aquilo que mostrava que fazia, e fez muito, era a sua forma de dizer a política. Dono de uma sólida formação na área das políticas e finanças públicas, soube sempre fazer o equilíbrio mais adequado entre as contas certas, o desenvolvimento e a modernização do país, sempre acompanhado com avanços significativos no âmbito da justiça e da ação social. Foram tempos empolgantes, em que as nossas dúvidas relativamente ao nosso país se foram esfumando e em que percebemos que éramos capazes. Capazes de sermos iguais ou melhores que os mais desenvolvidos. Capazes de sermos membro de pleno direito de uma Europa moderna e justa. Os tempos de hoje dão-lhe toda a razão. Com Cavaco Silva, o país cresceu e as desigualdades diminuíram.

 

Políticos padronizáveis

Também não acredito, como se vê, em políticos padronizáveis. Políticos que se ajustam cientificamente aos mercados eleitorais, como perfeitos produtos de marketing, mas que falham no essencial: não se ajustam à vida das pessoas. Hoje somos todos mais educados, mais cultos e reivindicamos mais do que uma vida digna para todos. Queremos cuidado no ambiente, particular atenção à gestão da água, um desenvolvimento que chegue a todos sem exceção e que seja sustentável, políticas ativas para os mais jovens e os menos jovens, efetiva igualdade entre géneros, mais cuidado com o património e melhor e mais acessível cultura. Queremos vida com qualidade e, mais que tudo, queremos que essa qualidade se alargue a todos.



Categoria: Magazine

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