SUA EXCELÊNCIA, DE CORPO PRESENTE

DOM QUIXOTE

PEPETELA – Depois de ter vencido, por unanimidade do júri, o Prémio Literário Correntes d’Escritas, em Fevereiro de 2020, o romance Sua Excelência, de Corpo Presente, do escritor angolano Pepetela, acaba de ser distinguido com o Prémio Literário dstangola/Camões.

De acordo com o júri do referido prémio, este ano na segunda edição, presidido por Irene Guerra Marques, linguista e docente na Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, e constituído pelo jornalista e escritor Carlos Ferreira e por Manuel Muanza, Professor Auxiliar no Departamento de Língua Portuguesa no Instituto Superior de Ciências da Educação, a obra premiada “reafirma a condição de Pepetela como escritor de primeira água, angolano, africano e universal”.

Os jurados, que entre os 20 livros candidatos optaram pelo romance de Pepetela, consideraram “fundamental na obra do autor a sua condição de sociólogo para entender o aproveitamento literário que faz do conhecimento que domina para a sua criatividade e para o desenvolvimento e aprofundamento dos seus enredos”, adiantando ainda que “’Sua Excelência de corpo presente’ é um dos seus exemplos mais apurados, se atendermos não apenas à sua actualidade, como também à forma como mantém, jovem e lúcida, a ironia, a crítica sociocultural e uma criatividade intensa que acompanha os avanços e recuos da realidade angolana e até mesmo africana, no que diz respeito à realidade que vivemos ao Sul do Saara.”

Só mesmo a imaginação e a ousadia literária do autor de Geração da Utopia para nos oferecer uma história delirante como esta e que parte daqui: um ditador de um país africano – não precisamos de saber nem que ditador nem que país – morre. Ou será que morre mesmo? Na verdade, ele está morto, mas o que acontece é que, apesar de morto, ele vê, ouve e pensa. Vê os que lhe foram ao velório prestar-lhe uma última homenagem (ou certificar-se de que morreu), ouve as suas conversas e sussurros, e pensa… pensa muito, sobre tudo o que o rodeia, em como chegou àquela situação e no que se lhe seguirá. Assim estirado, aprisionado num corpo sem vida, mas na posse das suas faculdades intelectuais, só lhe resta entreter-se a recordar as peripécias vividas com muitos dos que lhe vieram dizer adeus, entre os quais se encontram diversos familiares, a primeira-dama (e as outras mulheres e namoradas), os numerosos filhos e as altas dignidades do Estado. Ao relembrar a sua vida, o percurso que o levou a presidente e os muitos anos como Chefe de Estado, vai-nos revelando os meandros do poder político, o nepotismo que o corrói e os vários abusos permitidos a quem o detém.

Uma crítica mordaz ao abuso de poder e aos sistemas de governo totalitários disfarçados de democracias, escrita com um sentido de humor inteligente, e em que qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

Pepetela (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos) nasceu em Benguela, Angola, em 1941. Licenciou-se em Sociologia, em Argel, durante o exílio. Foi guerrilheiro do MPLA, político e governante. Foi ainda professor na Universidade Agostinho Neto, em Luanda, e tem sido dirigente de associações culturais, com destaque para a União de Escritores Angolanos e a Associação Cultural Recreativa Chá de Caxinde.

A atribuição do Prémio Camões (1997) confirmou o seu lugar de destaque na literatura lusófona.

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