PEDRO PINTO LEITE

UMA DAS PRINCIPAIS LIÇÕES DA PANDEMIA É A NECESSIDADE DE ADAPTAR E FORTALECER SISTEMAS DE VIGILÂNCIA EXISTENTES PARA MELHOR DIRECIONAR A INFORMAÇÃO À POPULAÇÃO-ALVO NA QUAL SE PRETENDE INTERVIR”

Em entrevista à revista FRONTLINE, o médico Pedro Pinto Leite, diretor de Serviços de Informação e Análise da Direção-Geral da Saúde, falou sobre o atual estado da pandemia em Portugal – que enfrenta agora a quinta vaga –, traçando um caminho para o futuro. Destacando a vacinação como uma das “medidas mais efetivas para controlar a transmissão e proteger a população contra a doença grave e morte”, o responsável acredita que assim que terminar a vaga atual, é provável que “entremos numa fase de recuperação da pandemia”. Quanto à importância da existência de sistemas disponíveis para monitorizar a evolução da pandemia, Pedro Pinto Leite é perentório ao afirmar que “dados salvam vidas”. Tal como refere, “uma informação epidemiológica de qualidade sobre uma determinada população permite adequar melhor uma intervenção, tornando-a mais efetiva”. Na opinião de Pedro Pinto Leite, o futuro da vigilância em Saúde Pública e controlo de epidemias passará pela “preparação e resposta a ameaças de saúde transfronteiriças graves, incluindo outro tipo de doenças transmissíveis como as que são transmitidas por vetores como os mosquitos, articulada a um nível supranacional”. Em Portugal, o futuro passará pelo “desenvolvimento de uma infraestrutura integradora de várias fontes e tipos de dados em saúde, a ‘coluna vertebral digital’, que melhor sirva a vigilância em Saúde Pública”.

EM TERMOS EPIDEMIOLÓGICOS, EM QUE FASE DA PANDEMIA ESTAMOS? NUMA QUINTA VAGA? A ENTRAR NA FASE ENDÉMICA? QUAL A REAL SITUAÇÃO DO PAÍS?

Portugal encontra-se atualmente na quinta e maior vaga epidémica de toda a pandemia da Covid-19, caracterizada por uma nova variante do vírus SARS-CoV-2, a variante Ómicron. Apesar de se tratar de uma variante menos grave, a maior transmissibilidade traduziu-se numa magnitude de novos casos de infeção muito elevada, pelo que foi necessário rever a estratégia de resposta à pandemia num curto período para salvaguardar a priorização das situações mais graves e mitigar a pressão no sistema de saúde. Em setembro de 2021, a Direção-Geral da Saúde coordenou a elaboração do Referencial Outono/Inverno 2021-22, que previa três cenários possíveis e respetivas respostas. Um dos cenários correspondia ao surgimento de uma nova variante com redução da efetividade vacinal contra a Covid-19, para o qual seria necessária uma resposta de mitigação, como acabou por acontecer. Foi sem dúvida um dos momentos mais desafiantes nestes dois anos de pandemia, que requereu um trabalho intensivo e articulado entre várias equipas. Não fosse o surgimento de uma nova variante, Portugal poderia ter prosseguido mais cedo para uma fase de recuperação da pandemia, assumindo eventualmente uma presença constante do vírus em circulação dentro de valores esperados – ou seja, uma fase endémica. Assim que terminar a vaga atual, é provável que entremos numa fase de recuperação da pandemia.

QUAL É, NESTE MOMENTO, A REGIÃO E O GRUPO ETÁRIO COM MAIOR INCIDÊNCIA DE INFEÇÕES DIÁRIAS?

À data, a região com maior incidência acumulada a 14 dias por 100 mil habitantes é a Região Autónoma da Madeira, seguida da Região do Norte, que ultrapassou recentemente a Região de Lisboa e Vale do Tejo. Pode associar-se estas diferentes incidências a diferentes momentos de introdução da variante Ómicron e nos diferentes períodos de isolamento e quarentena em cada região, traduzidos em diferentes números efetivos de contactos na população. O grupo etário decenal com maior incidência corresponde ao grupo etário até aos 9 anos de idade, que também muito recentemente ultrapassou o grupo etário entre os 20 e os 29 anos, associado sobretudo ao recomeço do ano letivo, numa população maioritariamente vacinada apenas com uma dose de vacina, com múltiplos contactos e uma menor adesão a medidas não farmacológicas.

O QUE DISTINGUE ESTA QUINTA VAGA?

Esta quinta vaga é caracterizada sobretudo por uma nova variante do vírus SARS-CoV-2, a variante Ómicron. Esta variante é caracterizada por várias mutações associadas a um aumento da transmissibilidade, sobretudo através da evasão ao sistema imunitário, com menor efetividade vacinas e maior probabilidade de reinfeção, apesar de menos grave do que a variante Delta. A Direção de Serviços de Informação e Análise da Direção-Geral da Saúde conduziu muito recentemente um estudo que comparou o risco de internamento entre os casos de infeção pelas variantes Ómicron ou Delta, e concluiu-se que a variante Omicron esteve associada a um risco de internamento 75% menor relativamente à variante Delta. Ou seja, por cada 100 pessoas infectadas internadas com a variante Delta, se tivessem sido infetadas pela variante Omicron apenas 25 pessoas teriam sido internadas, independentemente da idade, do sexo, do estado vacinal e de se ter tido uma infecção anterior. O mesmo estudo conclui ainda uma associação da variante Ómicron a um menor tempo de permanência no hospital e menor risco de morte. Ainda assim, é importante referir que o benefício da redução da gravidade pode ser parcialmente anulado pela maior capacidade de transmissão, por se traduzir em números absolutos muito elevados e que podem resultar numa sobrecarga do sistema de saúde.

APESAR DE UM AUMENTO, COM ESTA VARIANTE NÃO ESTAMOS A OBSERVAR AUMENTO DE INTERNAMENTOS EM CUIDADOS INTENSIVOS. PORQUÊ?

O reduzido impacto nos internamentos em cuidados intensivos deve-se sobretudo à proteção conferida pelas vacinas contra doença grave e às elevadas coberturas vacinais nos grupos etários com maior risco de internamento em unidades de cuidados intensivos, ou seja, entre os 40 e os 80 anos.

QUANDO DEVEREMOS ATINGIR O PICO DESTA QUINTA VAGA?

Recorrendo a modelos estatísticos, prevê-se o pico desta quinta vaga no início de fevereiro. O modelo que se utiliza funciona a partir de uma população compartimentada em diferentes estados (suscetíveis, expostos, infetados e recuperados), com transições entre eles ao longo do tempo. O modelo assume vários pressupostos, incluindo a transmissibilidade da infecção, um aumento de mobilidade das pessoas no Natal e Ano Novo, reduções dos contactos no período de contenção após as festividades, efetividades vacinais e uma ligeira diminuição da imunidade ao longo do tempo, assim como a administração de doses de reforço. Portugal foi dos países europeus com restrições menos severas durante o inverno e com a abertura das escolas mais tarde, tendo apostado numa estratégia de maior contenção durante um período após as festividades de Natal e Ano Novo. Por esse motivo, não será de estranhar que atinja o pico posteriormente a outros países europeus com medidas mais restritivas.

QUAIS OS VALORES DE INFEÇÕES DIÁRIAS QUE AINDA PODEREMOS ATINGIR?

De acordo com as últimas estimativas, os modelos utilizados mostram que podemos chegar a valores perto de uma média de 80 mil novos casos por dia.

QUAL A RELEVÂNCIA/IMPORTÂNCIA DE CONTINUAR A SER DIVULGADO, DIARIAMENTE, O NÚMERO DE NOVAS INFEÇÕES?

Durante uma pandemia, é importante comunicar o risco à população, por forma a capacitar a mesma num âmbito de gestão de risco. Neste aspeto, o nosso principal objetivo tem sido informar o melhor possível o cidadão e os decisores para que melhor possam agir. Este processo é tão mais efetivo quanto mais transparente e simples for a partilha de informação, de forma regular. Esta foi a razão da partilha diária dos novos casos de infeção. Estes dados partilhados diariamente são acompanhados pelo relatório semanal de “Monitorização das linhas vermelhas para a COVID-19”, com análises mais complexas e interpretação da situação epidemiológica. De futuro, é esperado que relatórios de situação diários sejam substituídos por apenas um relatório semanal, à semelhança de outras infeções por vírus respiratórios como a gripe sazonal, e em linha com a comunicação no âmbito do Plano de Contingência de Saúde Sazonal da Direção-Geral da Saúde.

DEPOIS DESSE PICO PODEREMOS ASPIRAR A ENTRAR NUMA FASE ENDÉMICA? O QUE NOS FALTA PARA ENTRARMOS NESTA FASE? SEGUNDO DECLARAÇÕES RECENTES DE MARCELO REBELO DE SOUSA, JÁ ESTAMOS NESSA FASE ENDÉMICA…

Entende-se por endemia a presença constante de uma doença numa determinada área geográfica ou grupo populacional. Quando a doença ocorre claramente em excesso da expetativa normal para um determinado local e tempo, falamos em epidemia. Uma epidemia que ocorre numa vasta área geográfica, como à escala mundial, e afeta um elevado número de pessoas, é considerada uma pandemia. Com um regresso a uma dinâmica social semelhante ao período pré-pandémico, uma vez estabilizado o processo de vacinação, será possível definir os valores esperados do número de casos de Covid-19 em Portugal ao longo do ano, passando nessa altura a uma doença endémica, enquanto os valores dos casos de infeção se mantiverem nesse intervalo esperado. O mais provável será que a doença se torne endémica, com momentos epidémicos, ou seja, com momentos em que esteja acima do esperado para aquele local e altura do ano. Estes momentos podem resultar de várias situações, como contextos com reduzidas coberturas vacinais, perda de imunidade conferida pela vacinação ou infeção ao longo do tempo ou o surgimento de novas mutações do vírus, com capacidade para evadir o sistema imunitário. Não podemos excluir a possibilidade de não haver uma transmissão sustentada do vírus durante determinados períodos em Portugal no futuro, tornando-se, nessa situação, numa doença que teria apenas momentos epidémicos.

ESTANDO O MUNDO NUMA FASE ENDÉMICA, O QUE MUDA?

Uma fase endémica, com previsíveis momentos epidémicos, seria caracterizada pela integração de uma nova realidade no quotidiano individual e coletivo e, portanto, de uma indispensável responsabilização cívica e social. A transmissão da infecção por SARS-CoV-2 dependeria essencialmente do comportamento de cada indivíduo, incluindo a vacinação como ato de cidadania, por oposição ao ocorrido em fases anteriores da pandemia com a implementação de medidas populacionais.

DE QUE FORMA PODERÁ A TECNOLOGIA ESTAR AO SERVIÇO DA SAÚDE, AUXILIANDO OS PROFISSIONAIS DE SAÚDE A CONTROLAR E MONITORIZAR ESTA PANDEMIA?

Procedeu-se à melhoria de plataformas existentes e ao desenvolvimento de novas ferramentas que provaram ter sido uma mais-valia na gestão da pandemia, quer através do alívio da pressão nos serviços de saúde e redução da deslocação ou exposição desnecessária de profissionais e outros doentes ao vírus, quer através de uma monitorização clínica das pessoas infetadas mais eficiente, incluindo a possibilidade de autorreporte digital de sintomas pelos doentes, sem que o médico os tivesse de contactar. De igual forma, todas as declarações e prescrições puderam ser emitidas de forma desmaterializada, sem papel. O rastreio de contactos também foi facilitado com a possibilidade de preenchimento pela própria pessoa infectada de um formulário eletrónico. Outras tecnologias mais robustas permitiram acompanhar um conjunto de indicadores-chave ao longo da pandemia. O paradigma mudou substancialmente, de uma fonte única passou a recorrer-se a várias fontes digitais de dados, com diferentes formatos, focando-se a ligação e integração destes dados para obter informação que pudesse melhor orientar a ação. Pretendemos desenvolver uma única infraestrutura capaz de fundir todos os dados de saúde disponíveis com fim à vigilância epidemiológica, uma “coluna vertebral digital”, que permita uma mudança holística do sistema e que seja orientada para a população. Para isso existem três ações necessárias. Em primeiro lugar, tem de se envolver os stakeholders certos e ter em conta a experiência do utilizador, para evitar a atomização dos usos de dados de que é exemplo a atual “pandemia dos exceis”. Em segundo lugar, a Direção-Geral da Saúde pode assumir a liderança do processo e dar o primeiro passo na construção da infraestrutura técnica, uma vez garantido o financiamento para a mesma. Por fim, terá de ser garantida formação a todos os profissionais de saúde ou outros utilizadores envolvidos no sistema.

QUE FERRAMENTAS ESTÃO À DISPOSIÇÃO PARA MONITORIZAR A PANDEMIA EM PORTUGAL?

A Direção-Geral da Saúde é a responsável pelo tratamento de dados de vários sistemas de informação que podem ser utilizados com um fim de vigilância em Saúde Pública e monitorização, incluindo a aplicação informática de suporte ao Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SINAVE), a plataforma Trace COVID-19, o Sistema de Informação dos Certificados de Óbito (SICO) ou a plataforma de vacinação VACINAS. Para fins de monitorização, foram criados alguns painéis de controlo e relatórios dinâmicos atualizados em tempo real com base nestes sistemas. Estes sistemas centralizados garantiram uma adaptação rápida, de âmbito universal e controlo sobre a qualidade e ligação dos dados. Existem alguns desafios relacionados com o facto de os dados estarem repartidos entre diferentes organizações, que implicam a realização de protocolos prévios à recolha e análise dos dados, ou com as limitações legais relativas à proteção de dados que devem ser salvaguardadas. Com a pandemia, tornou-se necessário uniformizar registos e melhorar a conexão dos dados no ecossistema de saúde, em vez de desenvolver novos sistemas ad hoc para cada necessidade. Na perspetiva da vigilância e monitorização, esta conexão permitiria por exemplo obter os casos de infecção através do SINAVE, que podem ser cruzados com dados do Registo Nacional de Utentes, ou com os sintomas, comorbilidades e diagnósticos reportados nos sistemas de gestão clínica ou hospitalar, ou com os medicamentos e tratamentos prescritos através da plataforma de Prescrição Eletrónica de Medicamentos, ou com o estado vacinas registado na plataforma de vacinação VACINAS. De igual forma, podem ser exploradas novas fronteiras na vigilância em Saúde Pública, para além das doenças transmissíveis e não-transmissíveis, como dados de saúde ocupacional, de farmacovigilância, ou até dados ambientais e de saúde animal na perspetiva do conceito de “Uma Só Saúde” que relaciona a saúde humana com a saúde animal e ambiental.

CONSEGUIMOS DESENVOLVER, EM PORTUGAL, TODOS OS SISTEMAS DE INFORMAÇÃO DE QUE NECESSITÁMOS OU TIVEMOS DE IR “FORA DE PORTAS”?

No início da pandemia, foi desenvolvida uma solução local de curto prazo que permitiu responder à análise de um volume de dados como nunca tinha sido realizado antes, com apoio externo às instituições do Ministério da Saúde. Em paralelo, foi desenvolvido um sistema de análise de dados epidemiológicos mais robusto “dentro de portas” com a Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, EPE, instituição responsável pela garantia da operacionalidade e segurança das infraestruturas tecnológicas e dos sistemas de informação do Ministério da Saúde. Este sistema entrou em produção em novembro de 2020, colocando termo ao sistema local inicialmente desenvolvido. Que não haja dúvidas relativamente a um aspeto: dados salvam vidas. Uma informação epidemiológica de qualidade sobre uma determinada população permite adequar melhor uma intervenção, tornando-a mais efetiva. Uma das principais lições da pandemia é a necessidade de adaptar e fortalecer sistemas de vigilância existentes para melhor direcionar a informação à população-alvo na qual se pretende intervir. Nenhum sistema é perfeito, mas algumas ações podem torná-lo mais resiliente, incluindo medidas de controlo de qualidade, que evitem situações de reporte de homens “grávidos” ou utilização de tabelas por múltiplos utilizadores, com erros de inserção de dados e limite do número de linhas, por exemplo. Importa ter acesso a dados em tempo real, focados na população-alvo de intervenção, e reter o valor acrescentado do uso de ferramentas de saúde digitais seguras, com controlo de qualidade mais rígido.

ACREDITA QUE ESTAMOS A COMETER, ESTE ANO, OS MESMOS ERROS DO NATAL DE 2020? O QUE JÁ DEVERIA TER SIDO FEITO?

O controlo da incidência da Covid-19 permite indiretamente garantir um menor impacto na gravidade da doença, sobretudo nas populações mais vulneráveis e não vacinadas atualmente, nas sequelas da infecção, na pressão nos serviços de saúde e na maior probabilidade de geração de novas variantes. A incidência resulta sobretudo de três fatores: número de contactos efetivos que as pessoas têm, utilização de medidas não farmacológicas quando esses contactos ocorrem e imunidade da população, quer através da vacinação quer de infecção prévia. Para controlar a incidência da Covid-19 com a introdução de uma nova variante contra a qual a imunidade da população é mais reduzida, não sendo possível proceder à vacinação massiva em tempo útil até a variante se tornar dominante, apenas se torna possível a redução de contactos efetivos ou a intensificação de medidas não farmacológicas. E ao contrário do ano passado, foram efetivamente implementadas medidas para reduzir o número de contactos efetivos como o teletrabalho obrigatório ou o encerramento de locais associados a eventos de superspreading e intensificação das medidas não farmacológicas como a utilização de máscaras.

A ABERTURA TARDIA DAS ESCOLAS NO MÊS DE JANEIRO, FOI UMA ATITUDE PRUDENTE?

A abertura das escolas é um momento potenciador do número de contactos efetivos, numa população que adere menos facilmente a medidas não farmacológicas como o distanciamento físico, utilização de máscaras, etiqueta respiratória ou lavagem de mãos frequente, e com baixa imunidade por vacinação. Nesse sentido, com o aumento da incidência com crescimento exponencial como consequência da introdução da variante Ómicron em Portugal, o adiamento de um momento que potenciais este crescimento foi prudente, salvaguardando a menor disrupção social e desenvolvimento pedagógico das crianças e jovens.

DEPENDEMOS UNS DOS OUTROS À ESCALA GLOBAL? OU SEJA, ENQUANTO HOUVER PAÍSES COM TAXAS DE VACINAÇÃO MUITO BAIXAS OU QUASE INEXISTENTES, MANTEREMOS O APARECIMENTO DE UMA E OUTRA VARIANTE?

A globalização e a elevada mobilidade entre os países acabam por constituir um desafio no controlo de uma doença transmissível como a Covid-19. Nesse sentido, sendo um problema de saúde global, requer uma resposta igualmente global, pelo que cada vez é mais importante o papel de instituições internacionais como a Organização Mundial da Saúde ou o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças. Nesta perspetiva, esse esforço coletivo é importante para salvar vidas à escala global, para além do interesse de cada país em reduzir a disseminação do vírus de forma descontrolada e a probabilidade de surgimento de novas variantes. É por isso fundamental mantermos o nosso empenho na vigilância epidemiológica em Portugal e no acompanhamento e participação ativa nas decisões coletivas de Saúde Pública a nível europeu e internacional.

NA SUA OPINIÃO, O QUE É QUE OS PAÍSES MAIS DESENVOLVIDOS PODERÃO FAZER PARA INVERTER ESTA TENDÊNCIA?

Em 2021, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom, referiu que o mundo estaria perto de um fracasso moral catastrófico no que diz respeito à produção e distribuição equitativa das vacinas contra a Covid-19 e que o preço desse fracasso seria pago com vidas e meios de subsistência nos países mais pobres do mundo. O Ministério da Saúde português está envolvido no programa de doação de materiais e vacinas aos países africanos de língua oficial portuguesa, ao Brasil e a Timor-Leste, enquanto parceiros tradicionais da cooperação internacional. A Direção-Geral da Saúde contribui igualmente com consultoria técnica e formação especializada a estes países.

O QUE LEVOU AO ABRANDAMENTO DO PROCESSO DE VACINAÇÃO EM PORTUGAL?

Os diferentes ritmos do processo de vacinação em Portugal adequam-se a cada fase de vacinação e da pandemia. Numa primeira fase, perante uma população não vacinada e o surgimento de uma nova variante de preocupação, o processo de vacinação teve de ser maciço e massivo. Numa fase posterior, sendo prevista a vacinação de reforço e doses adicionais da população com maior risco de desenvolver doença grave e morte, seria expectável que este processo fosse internalizado no sistema de saúde português à semelhança das outras vacinas. Neste momento, o ritmo de vacinação encontra-se na administração de cerca de 80 mil vacinas por dia, um valor muito semelhante ao do verão de 2021.

NOS ÚLTIMOS MESES TEMOS ASSISTIDO A ALGUNS AVANÇOS E RECUOS NESTE PROCESSO… PERDEMOS O NORTE COM A SAÍDA DO VICE-ALMIRANTE GOUVEIA E MELO?

Existem ajustes necessários neste processo para manter a adequação das recomendações decorrentes da evolução do conhecimento, e da situação epidemiológica ao longo do tempo. Relembro que esta  situação epidemiológica pode ter um elevado dinamismo, como tem ocorrido com o aparecimento de novas variantes. Daí ser fundamental manter a vigilância epidemiológica e a monitorização do processo de vacinação e efetividade das vacinas, sobretudo contra infeção, internamento e morte. E a Direção de Serviços de Informação e Análise da Direção-Geral da Saúde tem tido um papel importante nestas duas áreas, em colaboração com outras instituições do Ministério da Saúde.

A VACINAÇÃO CONTINUA A SER A NOSSA MELHOR ARMA? CONFIRMA QUE A MAIORIA DOS CASOS QUE SE ENCONTRAM EM CUIDADOS INTENSIVOS SÃO NÃO VACINADOS?

Na fase atual, a vacinação é das medidas mais efetivas para controlar a transmissão e proteger a população contra a doença grave e morte, com a menor disrupção social e económica numa população. A análise dos riscos de internamento ou morte entre pessoas infectadas vacinadas e as pessoas infectadas não vacinadas é realizada algumas semanas após o diagnóstico, por forma a termos o diagnóstico final do episódio de internamento à data de alta hospitalar, garantindo que o internamento foi devido à Covid-19 e não a outra causa, ou, no caso dos óbitos, para garantir que a causa de morte correspondeu à Covid-19 e não a outra causa. Assim, de acordo com últimos dados disponíveis, entre o total de pessoas infetadas em novembro, as pessoas com um esquema vacinal primário completo tiveram um risco de internamento duas a cinco vezes menor do que as pessoas não vacinadas. Entre o total de pessoas infetadas em dezembro, as pessoas com um esquema vacinas primário completo tiveram um risco de morte três a seis vezes menor do que as pessoas não vacinadas. E esta diferença também se observou com as doses de reforço. Na população com 80 e mais anos, a dose de reforço reduziu o risco de morte por Covid-19 para quase seis vezes em relação a quem tem o esquema vacinas primário completo. É possível ver o estado vacinal das pessoas infetadas que estão internadas em unidades de cuidados intensivos, e de acordo com os últimos dados nacionais disponíveis, 52% dos casos não estavam vacinados. Ainda assim, é expectável que com uma maior vacinação da população haja também uma crescente proporção de pessoas internadas com esquema vacinal completo. No limite, se toda a população portuguesa for vacinada, 100% das pessoas internadas terão um esquema vacinal completo. Esta forma de analisar os dados não reflete o risco de internamento. Por isso é que é importante analisar o risco de internamento a partir da comparação entre o número de pessoas internadas por Covid-19 entre as pessoas vacinadas relativamente a esse número entre as pessoas não vacinadas, num determinado período. A Direção-Geral da Saúde disponibiliza essa informação semanalmente através do relatório de “Monitorização das linhas vermelhas para a COVID-19”, disponível online.

CHEGARAM, RECENTEMENTE, A PÚBLICO NOTÍCIAS SOBRE OFENSAS E AMEAÇAS, DE VÁRIOS TIPOS, QUE DIVERSOS MÉDICOS, PERITOS, COMENTADORES E OUTRAS PERSONALIDADES TÊM RECEBIDO DURANTE ESTES MESES DE PANDEMIA. TEM SENTIDO ALGUM TIPO DE PRESSÃO PARA NÃO DAR INFORMAÇÕES OU FAZER COMENTÁRIOS SOBRE A COVID-19, A VACINAÇÃO OU QUALQUER OUTRO ASSUNTO LIGADO A ESTA TEMÁTICA?

Nunca senti qualquer pressão para não dar informação, antes pelo contrário, existem muitas solicitações para obter mais informação, e com maior detalhe. E numa perspetiva de transparência, dentro dos limites de recursos disponíveis, é partilhada toda a informação possível com a melhor qualidade. O principal desafio reside na responsabilidade de escolher a informação certa, validá-la e apresentá-la da melhor forma que melhor capacite o cidadão e os decisores a tomar decisões. O princípio da vigilância é esse mesmo, a recolha, análise, interpretação e comunicação da informação com fim à ação. Se esta partilha não for direcionada e de qualidade, podemos estar a sobrecarregar as pessoas de informação inútil e contribuir para uma “pandemia da informação”.

NA SUA OPINIÃO, O QUE LEVA A ATITUDES DESTE GÉNERO?

Neste momento, deparamo-nos com uma elevada quantidade de informação, mas nem sempre de qualidade. No mundo digital, da comunicação instantânea, a velocidade de disseminação da informação é muitas vezes superior ao tempo de validação da mesma atendendo à limitação de recursos existentes, o que pode contribuir para uma desinformação generalizada ou aumento de desconfiança nas instituições. E mesmo quando garantida a qualidade de informação, o elevado dinamismo da pandemia pode obrigar a alterações de estratégias e medidas em curtos espaços de tempo, o que pode contribuir para a fadiga pandémica.

MAIS DE METADE DOS DOENTES INTERNADOS EM ENFERMARIAS COVID NÃO SOFREM DA INFEÇÃO, MAS DE OUTRAS DOENÇAS, OU SEJA, APESAR DO TESTE POSITIVO OS DOENTES ACABAM HOSPITALIZADOS POR OUTROS MOTIVOS. O QUE DEVE SER ALTERADO?

Para fins de gestão hospitalar e controlo de infeção, independentemente da causa principal do internamento, é necessário identificar as camas dedicadas a pessoas com Covid-19. Relativamente a informação sobre o diagnóstico definitivo de Covid-19 como principal causa do episódio de internamento, procede-se a essa recolha e análise no momento posterior à alta hospitalar emitida pelos médicos. Em 2021, entre todos os internamentos com Covid-19, cerca de 75% a 85% tiveram um diagnóstico principal de Covid-19 por mês, o que confere uma grande confiança na informação partilhada diariamente. Quando são apresentados resultados sobre o risco de internamento, apenas se consideram os internamentos devido a Covid-19. Recentemente tornou-se possível aproximar o número de internamentos devido a Covid-19 antes da alta hospitalar, através do cruzamento de dados epidemiológicos e administrativos hospitalares, que se encontra ainda em validação.

O QUE PODEMOS ESPERAR NO MUNDO, EM 2022, NA ÁREA DA SAÚDE?

O futuro da vigilância em Saúde Pública e controlo de epidemias passará necessariamente pela preparação e resposta a ameaças de saúde transfronteiriças graves, incluindo outro tipo de doenças transmissíveis como as que são transmitidas por vetores como os mosquitos, articulada a um nível supranacional. No âmbito desta resposta, em Portugal, o futuro passará certamente pelo desenvolvimento de uma infraestrutura integradora de várias fontes e tipos de dados em saúde, a “coluna vertebral digital”, que melhor sirva a vigilância em Saúde Pública. O envolvimento dos profissionais de saúde, incluindo as Autoridades de Saúde e respetivas equipas multidisciplinares de Saúde Pública, e de outros setores, será muito importante para uma resposta adequada e efetiva.

 

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