PEDRO NUNO SANTOS

“QUEREMOS QUE O PS TENHA O MELHOR RESULTADO, QUE LHE PERMITA CONTINUAR A GOVERNAR” – Ministro das Infraestruturas e da Habitação desde 2019, responsável por vários dossiers difíceis como a TAP, a Groundforce ou a crise dos combustíveis, Pedro Nuno Santos chega ao fim de três anos de mandato com um ex-líbris no currículo: a ferrovia. Não esconde que é no trabalho operado na CP e em decisões como a de recuperar material circulante encostado ou comprar novos comboios que reside o maior orgulho que retira destes anos como ministro. A poucas semanas de o país ir a votos – numas eleições provocadas pelo chumbo do Orçamento do Estado para 2022 –, Pedro Nuno Santos, que durante quatro anos tinha sido o homem que António Costa escolhera para manter a geringonça bem oleada, não entra em cenários. Diz apenas que quer que o PS tenha o “melhor resultado, que lhe permita continuar a governar”. E garante que os socialistas se irão apresentar na campanha com a “confiança do trabalho” que fizeram, para “convencer os portugueses de que o PS deve ter uma votação reforçada”.

TRÊS ANOS DEPOIS DE ASSUMIR A PASTA DAS INFRAESTRUTURAS E DA HABITAÇÃO, QUE BALANÇO FAZ DO TRABALHODESENVOLVIDO?

Esta pasta tem sido um constante desafio e acredito que são muitas as áreas que estão nesta tutela, onde o Governo tem levado a cabo políticas que estão a impor uma verdadeira transformação na sociedade portuguesa. O balanço não pode, por isso, deixar de ser bastante positivo. Mesmo com todos os dossiers difíceis e complexos que temos tido em mãos, como a TAP, a Groundforce ou a tão mediática greve dos motoristas de matérias perigosas, acho que temos estado sempre à altura desses desafios. A ferrovia tem sido sempre uma das nossas maiores prioridades. Gostava de ter o quádruplo de fundos para investir no setor. Porque os problemas são graves, mas temos uma estratégia que começa a dar frutos, com a recuperação de material circulante encostado, com a decisão de comprar centenas de novos comboios, ou de avançar com o Centro de Competências Ferroviário. Mas também a Habitação, onde o programa 1.º Direito é a cara da verdadeira aposta que estamos a fazer no reforço do parque habitacional público. 

JÁ QUE FALOU NA HABITAÇÃO, VAMOS COMEÇAR POR ESSA ÁREA, QUE É UM DOS PRINCIPAIS SETORES DE INVESTIMENTO PARA OS PRÓXIMOS ANOS. QUAL É A GRANDE PRIORIDADE DESTE GOVERNO?

O Governo está a levar a cabo uma mudança substantiva no modo como o país tem encarado as políticas de habitação nas últimas décadas. A nossa principal prioridade, neste âmbitO, é claramente o reforço da oferta pública de habitação, o reforço do parque habitacional público, que representa apenas 2% do total de alojamentos. Trata-se de uma prioridade que assenta em duas vertentes essenciais. Por um lado, a erradicação das situações de habitabilidade indigna em que se encontram ainda muitas famílias, através do programa 1.º Direito (Programa de Apoio ao Acesso à Habitação). Por outro, o alargamento da promoção pública direta de habitação a agregados com rendimentos intermédios. Isto é, a segmentos da população que, dado o seu nível de rendimento, não são elegíveis no âmbito do 1.º Direito, mas ao mesmo tempo não dispõem de condições para aceder à habitação através do mercado. E este é um grande avanço, já que a promoção pública tem estado circunscrita, há muitas décadas, à resolução das carências mais prementes de alojamento. 

O 1.º DIREITO É UM DOS PRINCIPAIS PROGRAMAS A SER BENEFICIADO POR ESTES FUNDOS DO PRR. EM QUE PONTO DO PROGRAMA ESTAMOS? É POSSÍVEL ALCANÇAR AS 26 MIL CASAS ATÉ 2026?

O Programa de Recuperação e Resiliência é de facto um instrumento financeiro muito importante, que veio dar um impulso significativo ao programa 1.º Direito, aprovado em 2018. Temos neste momento cerca de 100 municípios com as suas Estratégias Locais de Habitação (ELH) aprovadas e com os respetivos Acordos de Colaboração já celebrados com o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU). A este universo juntam-se as cerca de 100 ELH já elaboradas e submetidas ao IHRU para apreciação e aprovação, bem como os cerca de 60 municípios que estão ainda a elaborar as suas estratégias. No caso das ELH com Acordo de Colaboração já assinado, estamos a falar numa resposta, já comprometida, a cerca de 16 mil famílias a viver em situação habitacional indigna. O cumprimento da meta de 26 mil casas, concluídas até 2026, de modo a que possamos beneficiar integralmente dos apoios do PRR, é um objetivo muito estimulante e exigente, que obriga a um esforço conjunto e a uma cooperação muito estreita entre o Estado central – através do IHRU – e os municípios. Mas essa é justamente uma das virtudes deste programa, a do reconhecimento do papel fundamental das autarquias na resolução dos problemas habitacionais que persistem, beneficiando não só do seu conhecimento detalhado das carências, mas também das melhores soluções para as ultrapassar.

CONSIDERA QUE O ESTADO FALHOU E ABDICOU, MESMO, DE ASSEGURAR O DIREITO CONSTITUCIONAL À HABITAÇÃO DE TODOS OS PORTUGUESES? NA SUA OPINIÃO, CABE AO GOVERNO, EM COLABORAÇÃO COM AS AUTARQUIAS, GARANTIR CONDIÇÕES DE DIGNIDADE NA HABITAÇÃO, DESDE LOGO ÀS FAMÍLIAS MAIS CARENCIADAS?

Sem dúvida. O nosso Estado social foi constituído tardiamente, por comparação com a generalidade dos países europeus. E tendo permitido criar e robustecer um Serviço Nacional de Saúde e uma Escola Pública, de que nos orgulhamos, não foi, contudo, capaz de cumprir um direito igualmente fundamental, que é o direito de todos a uma habitação digna.

TRÊS ANOS DEPOIS DE ASSUMIR A PASTA DAS INFRAESTRUTURAS E DA HABITAÇÃO, QUE BALANÇO FAZ DO TRABALHO DESENVOLVIDO?

Esta pasta tem sido um constante desafio e acredito que são muitas as áreas que estão nesta tutela, onde o Governo tem levado a cabo políticas que estão a impor uma verdadeira transformação na sociedade portuguesa. O balanço não pode, por isso, deixar de ser bastante positivo. Mesmo com todos os dossiers difíceis e complexos que temos tido em mãos, como a TAP, a Groundforce ou a tão mediática greve dos motoristas de matérias perigosas, acho que temos estado sempre à altura desses desafios. A ferrovia tem sido sempre uma das nossas maiores prioridades. Gostava de ter o quádruplo de fundos para investir no setor. Porque os problemas são graves, mas temos uma estratégia que começa a dar frutos, com a recuperação de material circulante encostado, com a decisão de comprar centenas de novos comboios, ou de avançar com o Centro de Competências Ferroviário. Mas também a Habitação, onde o programa 1.º Direito é a cara da verdadeira aposta que estamos a fazer no reforço do parque habitacional público.

JÁ QUE FALOU NA HABITAÇÃO, VAMOS COMEÇAR POR ESSA ÁREA, QUE É UM DOS PRINCIPAIS SETORES DE INVESTIMENTO PARA OS PRÓXIMOS ANOS. QUAL É A GRANDE PRIORIDADE DESTE GOVERNO?

O Governo está a levar a cabo uma mudança substantiva no modo como o país tem encarado as políticas de habitação nas últimas décadas. A nossa principal prioridade, neste âmbito é claramente o reforço da oferta pública de habitação, o reforço do parque habitacional público, que representa apenas 2% do total de alojamentos. Trata-se de uma prioridade que assenta em duas vertentes essenciais. Por um lado, a erradicação das situações de habitabilidade indigna em que se encontram ainda muitas famílias, através do programa 1.º Direito (Programa de Apoio ao Acesso à Habitação). Por outro, o alargamento da promoção pública direta de habitação a agregados com rendimentos intermédios. Isto é, a segmentos da população que, dado o seu nível de rendimento, não são elegíveis no âmbito do 1.º Direito, mas ao mesmo tempo não dispõem de condições para aceder à habitação através do mercado. E este é um grande avanço, já que a promoção pública tem estado circunscrita, há muitas décadas, à resolução das carências mais prementes de alojamento.

O 1.º DIREITO É UM DOS PRINCIPAIS PROGRAMAS A SER BENEFICIADO POR ESTES FUNDOS DO PRR. EM QUE PONTO DO PROGRAMA ESTAMOS? É POSSÍVEL ALCANÇAR AS 26 MIL CASAS ATÉ 2026?

O Programa de Recuperação e Resiliência é de facto um instrumento financeiro muito importante, que veio dar um impulso significativo ao programa 1.º Direito, aprovado em 2018. Temos neste momento cerca de 100 municípios com as suas Estratégias Locais de Habitação (ELH) aprovadas e com os respetivos Acordos de Colaboração já celebrados com o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU). A este universo juntam-se as cerca de 100 ELH já elaboradas e submetidas ao IHRU para apreciação e aprovação, bem como os cerca de 60 municípios que estão ainda a elaborar as suas estratégias. No caso das ELH com Acordo de Colaboração já assinado, estamos a falar numa resposta, já comprometida, a cerca de 16 mil famílias a viver em situação habitacional indigna. O cumprimento da meta de 26 mil casas, concluídas até 2026, de modo a que possamos beneficiar integralmente dos apoios do PRR, é um objetivo muito estimulante e exigente, que obriga a um esforço conjunto e a uma cooperação muito estreita entre o Estado central – através do IHRU – e os municípios. Mas essa é justamente uma das virtudes deste programa, a do reconhecimento do papel fundamental das autarquias na resolução dos problemas habitacionais que persistem, beneficiando não só do seu conhecimento detalhado das carências, mas também das melhores soluções para as ultrapassar.

CONSIDERA QUE O ESTADO FALHOU E ABDICOU, MESMO, DE ASSEGURAR O DIREITO CONSTITUCIONAL À HABITAÇÃO DE TODOS OS PORTUGUESES? NA SUA OPINIÃO, CABE AO GOVERNO, EM COLABORAÇÃO COM AS AUTARQUIAS, GARANTIR CONDIÇÕES DE DIGNIDADE NA HABITAÇÃO, DESDE LOGO ÀS FAMÍLIAS MAIS CARENCIADAS?

Sem dúvida. O nosso Estado social foi constituído tardiamente, por comparação com a generalidade dos países europeus. E tendo permitido criar e robustecer um Serviço Nacional de Saúde e uma Escola Pública, de que nos orgulhamos, não foi, contudo, capaz de cumprir um direito igualmente fundamental, que é o direito de todos a uma habitação digna. De facto, as políticas habitacionais seguidas nas últimas décadas refletem sobretudo duas linhas essenciais de atuação do Estado. Por um lado, em termos de provisão direta de alojamentos, a sua circunscrição às carências maisgritantes, ou seja, uma política minimalista e territorialmente focada nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Por outro lado, no que concerne às políticas de promoção indireta, apostou-se essencialmente numa intervenção através do mercado, nomeadamente no âmbito dos apoios à aquisição de casa própria. O problema é que estes dois mecanismos, por si só, não permitiram criar um parque habitacional público com dimensão suficiente, tanto no sentido de assegurar o acesso de todos a uma habitação a preços comportáveis pelos rendimentos das famílias, como no sentido de contribuir para a regulação do mercado. São essencialmente esses os desafios que temos pela frente.

E A CLASSE MÉDIA, COMO SE GARANTE QUE NÃO É AFASTADA DAS SUAS CIDADES POR RENDAS E PREÇOS ESPECULATIVOS?

É justamente por isso, pela necessidade de adotarmos políticas de habitação capazes de dar resposta às necessidades e expetativas das classes médias – à semelhança da transversalidade e universalidade que alcançámos nas áreas da Saúde e da Educação – que precisamos de reforçar o peso relativo que o parque habitacional público tem no parque habitacional total. Por duas razões: porque assim estaremos a dar resposta direta a famílias com rendimentos intermédios, mas com dificuldade em aceder a uma habitação no mercado; mas também porque o reforço da oferta pública é um contributo muito importante para a regulação dos preços de mercado. É esta ação no seu conjunto, a par de outros mecanismos de regulação e apoio, que permitirá conter as dinâmicas de especulação e gentrificação, que têm vindo a afetar sobretudo o centro dos principais espaços urbanos, evitando que essas dinâmicas enfraqueçam a sua função residencial, com impactos muito para lá da questão habitacional. Isto é, com impactos na própria economia urbana, nas mobilidades e nos transportes, no bem-estar das pessoas e das comunidades.

O PLANO DE REESTRUTURAÇÃO DA TAP CONTINUA POR APROVAR POR BRUXELAS, MAS ENTRETANTO A EMPRESA JÁ SOFREU GRANDES TRANSFORMAÇÕES. A TAP SERÁ SEMPRE UM DOS SEUS LEGADOS. COMO EXPLICA E DEFENDE JUNTO DOS PORTUGUESES A DECISÃO QUE TOMARAM DE A SALVAR?

Há três razões fundamentais para assegurarmos a manutenção da atividade da TAP. Em primeiro lugar, a TAP é uma empresa estratégica para o país ao assegurar a nossa conetividade com o resto do mundo. E isso tem um valor económico, político, cultural e social muito forte. Estamos a falar da empresa que assegura dois terços das conexões intercontinentais metade dos passageiros entre o continente e as ilhas e um terço de todos os passageiros que passam por Portugal. Em segundo lugar, e por aquilo que expliquei, a TAP tem um impacto económico muito importante na nossa economia. A TAP todos os anos compra 1,3 mil milhões de euros a mais de mil empresas portuguesas espalhadas por todo o país. Isto tem um efeito dinamizador do tecido empresarial considerável. Para além disso, a TAP tem um papel determinante na nossa balança comercial, pois garante, segundo os dados de 2019, 3 mil milhões de euros em exportações e evita que 700 milhões de euros sejam comprados a companhias estrangeiras, ou seja, que se transformem em exportações. Por último, é a atividade da TAP que alimenta indiretamente o negócio de milhares de empresas do setor do Turismo, desde hotéis, a restaurantes, passando por atividades de entretenimento turístico, entre outros. Sem a TAP sentiríamos uma quebra acentuada no turismo, pois somos um país geograficamente periférico que não pode abdicar de ter um instrumento de conetividade ao mundo como a TAP.

ACHA POSSÍVEL QUE A TAP VOLTE A SER A GRANDE EMPRESA QUE JÁ FOI NO PASSADO? E QUE VENHA A DAR LUCRO?

Não só acho, como é isso que está no plano de reestruturação. Em primeiro lugar, a TAP não vai deixar de ser uma grande empresa. A TAP continua com mais de 90 aviões e mais de 8500 trabalhadores. É um dos grandes empregadores nacionais e uma das maiores exportadoras da nossa economia. Em relação aos resultados, está previsto que em 2025 a empresa venha a registar lucros, sendo que antes disso irá registar dois anos com resultado operacional positivo. Mas até lá o caminho é desafiante.

A CONSTRUÇÃO DE UM NOVO AEROPORTO PARA A ZONA DE LISBOA ALGUM DIA IRÁ MESMO AVANÇAR? DECORRIDOS 50 ANOS DESDE QUE SE COMEÇARAM A ESTUDAR LOCALIZAÇÕES, O QUE JUSTIFICA QUE AINDA NÃO SE TENHA CONSEGUIDO UM CONSENSO SOBRE ESTE TEMA?

Apesar das diferentes posições, todos os partidos com assento parlamentar defendem a expansão da capacidade aeroportuária na região de Lisboa. A localização irá depender da Avaliação Ambiental Estratégica. Depois de elaborada, o Governo selecionará a nova localização e terá o apoio do maior partido da oposição para alterar a lei que atualmente garante um poder de veto aos municípios sobre a localização do aeroporto. 

O PLANO FERROVIÁRIO NACIONAL VAI CUMPRIR A META DE 2023? O QUE ESTÁ A SER DESENVOLVIDO RELATIVAMENTE A ESTA QUESTÃO FRATURANTE?

Nós contamos ter a proposta de Plano Ferroviário Nacional pronta para enviar à Assembleia da República em 2022 e não em 2023. Há uma condicionante aos prazos, que é a necessidade de fazer a Avaliação Ambiental Estratégica, mas como esta está a ser feita em simultâneo com o próprio Plano, deverá ficar pronta ao mesmo tempo. Mas quero dizer-lhe que este tema não tem sido, de todo, fraturante. Pelo contrário, na fase de auscultação, que terminou no final de setembro, tivemos uma excelente recetividade nas várias regiões do país e um grande entusiasmo das pessoas em participar e dar o seu contributo. Recebemos mais de 320 contributos. É claro que há opiniões diferentes, e há algumas regiões que, justamente, se sentem abandonadas pela ferrovia, mas o espírito da discussão tem sido extremamente positivo.

CORREMOS O RISCO DE O PLANO FERROVIÁRIO NACIONAL SER INTERROMPIDO SE O PS NÃO VOLTAR A SER GOVERNO?

Para quem está nestas funções em democracia, existe sempre o risco de o nosso trabalho ficar interrompido. Mas isso não nos desanima. Continuamos a trabalhar com o mesmo entusiasmo nesta e nas outras políticas que temos vindo a desenvolver, porque acreditamos que o fazemos em benefício de todo o país. Se, depois das eleições, houver um governo diferente, nós não tencionamos criar dificuldades à continuidade das políticas que iniciámos, mas isso será naturalmente a decisão que esse novo governo irá tomar. É a natureza da democracia.

 NAS ENCOMENDAS DOS COMBOIOS PELA CP, O GOVERNO CONFIRMA QUE AS PRIMEIRAS UNIDADES DEVEM COMEÇAR A CHEGAR NO FINAL DE 2024?

Essa é a nossa expetativa, que as primeiras das 22 novas automotoras que foram encomendadas à Stadler comecem a chegar por essa altura, sendo certo que depois ainda se segue um período de ensaios e certificação que significa que as primeiras unidades poderão entrar ao serviço no ano seguinte, em 2025. Estamos sempre a falar de prazos máximos, que estão previstos no contrato. A CP trabalha em contínuo com o fornecedor e vai acompanhando as diferentes fases do projeto e fabrico dos comboios. Por vezes, há oportunidade de antecipar algumas entregas, como aconteceu no caso das novas unidades para o Metro do Porto.

TEM DITO VÁRIAS VEZES QUE O GOVERNO ESTÁ A PREPARAR UM CADERNO DE ENCARGOS PARA A COMPRA DOS 117 NOVOS COMBOIOS, DE FORMA A QUE QUEM GANHE TENHA QUE PRODUZIR GRANDE PARTE EM PORTUGAL? COMO É QUE ISSO SE FARÁ? E POR QUE RAZÃO ISSO É TÃO IMPORTANTE?

A legislação europeia não nos permite, simplesmente, exigir que os comboios sejam produzidos em Portugal, ou que uma certa percentagem dos componentes sejam adquiridos em Portugal. Mas, por outro lado, é possível demonstrar que existem certas vantagens operacionais para quem vai adquirir os comboios, neste caso a CP, emque a maior parte da montagem seja feita num local onde os próprios técnicos de manutenção da CP a possam acompanhar. Também existem mecanismos legais que nos permitem valorizar o local da produção, quer por critérios ambientais, quer por critérios sociais. Nós tivemos um conjunto grande de especialistas na parte técnica, jurídica e de avaliação de propostas a trabalhar de forma a tornar este processo o mais robusto possível. Seja como for, o importante aqui é mesmo que este investimento de centenas de milhões de euros em material circulante para aumentar a oferta de transportes públicos não seja inteiramente consumido em importação de comboios já montados e que acaba por criar muito pouco valor duradouro para o país. Portugal tem todas as condições para ter indústria ferroviária. Há inúmeras empresas portuguesas que trabalham no setor ferroviário e há outras que estão a descobrir que, com pequenas adaptações, podem vir a trabalhar. Só assim é que nós poderemos ser um país desenvolvido, a produzir bens de elevado valor e que possam ser exportados.

SENTE QUE, SEJA QUAL FOR O RESULTADO DAS ELEIÇÕES A 30 DE JANEIRO, O SEU NOME FICARÁ PARA SEMPRE NA HISTÓRIA DA FERROVIA COMO ALGUÉM QUE LUTOU POR ELA? COMO?

Sobre o juízo que a história fará, eu não posso falar. Aquilo que eu posso dizer é que assumi estas funções com o objetivo de transformar e não de apenas gerir o dia a dia e manter a situação. Só vale a pena estar na política se for para melhorar a vida das pessoas, e o trabalho que tenho feito na ferrovia não é com o objetivo de ficar na história da ferrovia, mas de melhorar a condição de vida de quem trabalha no setor, de quem usa ou de quem não usa mas pode passar a usar o comboio. Nesse aspeto, sinto que sim, que o trabalho que temos feito tem tido um impacto positivo. Há uma parte dele que já é visível, em comboios recuperados, em redução de supressões, oficinas a funcionar, o centro de competências e as inúmeras obras que temos no terreno. Há outra parte que será visível nos próximos anos, quando se materializarem as melhorias de serviço que resultam das obras que estamos a fazer, quando chegarem os comboios novos.

ACHA QUE A APOSTA NA FERROVIA VEIO PARA FICAR, INDEPENDENTEMENTE DE QUEM CONTINUAR À FRENTE DOS DESTINOS DO PAÍS?

Eu não tenho grandes dúvidas de que veio para ficar. Aliás, basta olhar para todos os países da Europa. Não há um que esteja, neste momento, a secundarizar a ferrovia como Portugal fez nas últimas décadas. Além disso, há uma consciencialização a todos os níveis da sociedade de que o transporte ferroviário é uma solução para vários problemas em simultâneo. Desde logo, o problema ambiental e climático, mas também o problema do congestionamento e da falta de qualidade de vida nas nossas cidades. Além disso, ainda ajuda a reduzir os custos globais do transporte e a nossa dependência energética. Não deixa de me causar alguma perplexidade como é que um país que não produz petróleo demorou estas décadas todas a perceber que tinha de reduzir a dependência do automóvel e que tinha uma boa solução para isso.

ALGUNS PROCESSOS ANTIGOS TÊM TARDADO EM TER RESPOSTA. O QUE TEM FEITO O GOVERNO PARA RESOLVER OS PROBLEMAS DA LINHA DE CASCAIS OU DA LINHA DE SINTRA?

A solução para esses dois problemas já está ou no terreno ou nos nossos planos. No caso da Linha de Cascais, já estão em curso obras de modernização que irão durar até 2023 e que irão melhorar as estações, eliminar a última passagem de nível que existe, substituir o sistema de sinalização e deixar tudo preparado para mudar a tensão da catenária para os 25 kV, de forma a ficar igual ao resto da rede. Depois, no concurso de 117 comboios que lançámos recentemente, estão 34 unidades para substituir as atuais 29 que prestam serviço na Linha de Cascais, todas com mais de 50 anos. Já na Linha de Sintra, e apesar de ser uma linha suburbana moderna e ao nível de qualquer país avançado da Europa, precisamos de aumentar a capacidade da infraestrutura para distribuir os passageiros já dentro da cidade de Lisboa. Por isso, um dos projetos mais prioritários que temos no PNI 2030 (Programa Nacional de Investimentos) é a quadruplicação da linha de cintura entre Roma-Areeiro e Braço de Prata. Esta obra vai resolver vários problemas, entre eles, vai-nos permitir ter até 12 comboios por hora entre Sintra e a Gare do Oriente, ou seja, permite duplicar a oferta face ao que existe hoje.

COMO SE EXPLICA QUE UMA LINHA FERROVIÁRIA QUE VEM DA HUNGRIA ATRAVESSE ITÁLIA, ATRAVESSE FRANÇA E ATRAVESSE ESPANHA, VÁ ATÉ SEVILHA E PARE EM HUELVA? O QUE ESTÁ A SER FEITO PELO GOVERNO PORTUGUÊS PARA QUE A LINHA FERROVIÁRIA SE ESTENDA ATÉ À FRONTEIRA?

O prolongamento do Corredor Mediterrânico até Portugal tem sido um dos temas que não temos deixado cair, quer nas nossas interações com a Comissão Europeia, quer nas relações bilaterais com Espanha. Nós sabemos que existe um grande interesse a nível regional, de ambos os lados da fronteira, e seria muito importante para Portugal integrar-se neste corredor, quer para o transporte de passageiros quer para as mercadorias. É um tema em que continuaremos a insistir, sem esquecer as outras ligações ferroviárias que também são muito importantes. Desde logo, a ligação Porto-Vigo, onde esperamos ver uma diminuição do tempo de viagem para menos de metade até 2030 e a ligação Aveiro-Salamanca.

O OE2022 FOI CHUMBADO NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA E O PRESIDENTE DA REPÚBLICA CONVOCOU ELEIÇÕES LEGISLATIVAS PARA 30 DE JANEIRO. CONSIDERA QUE O OS TEM CONDIÇÕES DE ALCANÇAR UMA MAIORIA ABSOLUTA JÁ EM JANEIRO DE 2022? OU AS MAIORIAS ABSOLUTAS SÃO IMPOSSÍVEIS NA ATUAL CONJUNTURA?

O PS vai-se apresentar a eleições com o seu programa, com a sua visão para o país e deve-se bater pelo melhor resultado possível. Vamos tentar convencer o povo português de que o trabalho que estávamos a fazer é um trabalho muito importante de promoção do desenvolvimento económico, ao mesmo tempo que se protege rendimentos e o Estado social. Esta é a nossa visão e é a visão que vamos apresentar ao país. E esperamos todos que o PS possa ter o melhor resultado, que lhe permita continuar a governar, obviamente num quadro de um conjunto de opções que só podem ser tomadas e decididas pelo povo português.

FOI APONTADO, AINDA ANTES DE TODO ESTE CENÁRIO QUE ATRAVESSAMOS, COMO UM POSSÍVEL SUCESSOR DE ANTÓNIO COSTA. ESTÁ DISPONÍVEL PARA O CARGO?

António Costa é primeiro-ministro há seis anos e tem desempenhado o cargo com inteligência e empenho. O PS está confiante de que ele se vai manter no cargo depois das eleições de janeiro próximo, porque o PS tem um trabalho de grande valor feito nos últimos seis anos e temos orgulho nele. Apresenta resultados de recuperação económica acima da média europeia, de recuperação de rendimentos, de fortalecimento do Estado social. E por isso apresentamo-nos perante estas eleições com a confiança do trabalho que fizemos e vamos obviamente batalhar, lutar, para que durante a campanha consigamos convencer os portugueses de que o PS deve ter uma votação reforçada e é somente nisso que os socialistas estão concentrados.

7 Respostas a "PEDRO NUNO SANTOS"

  1. Excelente entrevista. E um desejo que o. PS ganhe as eleicies e Ministro Pedro Santos continue. Tem feito um trabalho expcional e Portugal não pode desperdiçar o trabalho que tem desenvolvido.Parabens. Abraço.
    Jacinto Duraes

  2. Força Pedro, óptimo trabalho realizado, o PS precisa de camaradas como tu nos lugares mais destacados do Partido para servir Portugal e os Portugueses 🌹

  3. Um Ministro que quer desenvolver as infraestruturas do país, nomeadamente na área ferroviaria onde continuamos na cauda da Europa. Espero que o PNI traga mais investimento e que elimine as assimetrias entre o interior e o litoral. Há que levar o comboio a todas as capitais de distrito…conforme prometido.
    Quanto à habitação estou convicto que fará um excelente trabalho em conjunto com as autarquias. 16 mil famílias é muita gente!
    Vamos ao trabalho com Verdade e Rigor.👍

  4. Obrigada Sr. Ministro por nos fazer outra vez acreditar permissível o sonho de andar de comboio percorrendo Portugal de lés a lés.
    Quero endereçar -lhe votos de boa continuação do empenho e trabalho demonstrados. Continue perseguindo o caminho que tem trilhado. Muitos sucessos pessoais e profissionais. O seu sucesso será sempre o sucesso deste País e deste Povo que, sei bem, saberá reconhecer-lhe o mérito e agradecer-lhe.
    Bom trabalho , Boa Coragem um Abraço Fraterno

  5. Excelente entrevista, gostei.
    Sobre o IHRU, para realizar um óptimo trabalho, falta os funcionários. Mobilidade interna, não funciona neste caso.
    Solução? Urgentemente anunciar o Concurso Público geral.
    Agradeço

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