MIGUEL PINTO

“A MOBILIDADE ELÉTRICA DEIXOU DE SER UMA PROMESSA E PASSOU A SER UMA ESCOLHA REAL”

Miguel Pinto lidera a afirmação de uma marca jovem, totalmente elétrica e posicionada no segmento Premium, num momento em que o setor automóvel vive uma transformação estrutural. Da evolução do consumidor português aos desafios da infraestrutura de carregamento, passando pela sustentabilidade, pelo design e pela concorrência global, a entrevista olha para o presente e para o futuro da mobilidade elétrica em Portugal.

 O que o levou a aceitar o desafio de liderar a Polestar em Portugal?

Sou desde sempre um apaixonado pelo setor automóvel, no qual tenho vindo a fazer o meu percurso profissional. Creio que o que mais me aliciou terá sido, em primeiro lugar, a oportunidade de fazer parte de uma transformação estrutural do setor automóvel, capaz de transformar a sociedade, respondendo às suas necessidades de mobilidade, mas também capaz de construir um mundo melhor e mais sustentável para as gerações vindouras.

A Polestar é uma marca muito interessante que não nasceu como uma transição de uma marca tradicional – nasceu já com uma visão muito clara do futuro: um futuro elétrico, digital e sustentável. Isso permite-nos trabalhar com uma liberdade estratégica diferente.

A estes fatores juntaria ainda o facto de acreditar, desde o início, que Portugal poderia desempenhar um papel relevante para a Polestar. É um mercado que tem demonstrado desde sempre abertura à inovação e uma taxa de adoção de veículos elétricos bastante interessante, sobretudo no contexto do Sul da Europa.

Como define hoje a essência da Polestar?

A Polestar é a única marca europeia 100% elétrica. Estamos presentes no segmento Premium com três pilares bem definidos: design escandinavo puro, performance única de condução e uma preocupação real com a sustentabilidade.

Há também um quarto elemento que é igualmente crítico – a transparência. Temos uma abordagem muito pragmática em relação à sustentabilidade, onde tudo é mensurável e integrado na nossa cadeia de valor. Não se trata apenas de comunicar uma ambição, mas de garantir que essa ambição se traduz em decisões concretas, seja no desenvolvimento do produto, seja na escolha de parceiros, na forma como construímos os nossos eventos, etc.

Esta conjugação de pilares emocionais e racionais é única no setor e ajuda a diferenciar a identidade da Polestar.

A ligação inicial à Volvo ainda é relevante?

Foi importante numa fase inicial, sobretudo pela credibilidade e pela herança tecnológica. A ligação à Volvo é algo que muito nos orgulha, mas posso dizer que, hoje em dia, a Polestar tem um posicionamento completamente autónomo. A marca conquistou o seu próprio espaço no segmento premium elétrico, com uma linguagem de design distinta e uma proposta de valor muito clara. Essa independência é fundamental para afirmarmos a nossa identidade e para construirmos uma relação própria com o cliente.

No entanto, para além da partilha de plataformas do Grupo Geely, da utilização de fábricas comuns, mantemos uma relação sólida com a Volvo. Os clientes Polestar sabem, por exemplo, que podem receber assistência técnica em qualquer dos 28 pontos pós-venda da Volvo no nosso país.

O setor automóvel está a mudar radicalmente. Como se reflete isso no negócio?

A mudança é estrutural. No produto em si e no modelo de negócio. O automóvel deixou de ser apenas um produto físico para passar a ser uma plataforma tecnológica em constante evolução.

Hoje, a experiência não termina na compra – prolonga-se ao longo de todo o ciclo de vida do veículo, com atualizações remotas, serviços digitais e uma relação contínua com o cliente. Isso altera profundamente a forma como se pensa, se comercializa e se vive o automóvel. Diria que o setor automóvel está a passar por uma revolução a todos os níveis.

O que significa ser uma marca premium no universo elétrico?

O conceito Premium também tem vindo a evoluir. Já não se limita a materiais ou acabamento – está também cada vez mais ligado à experiência, à tecnologia e à coerência da proposta.

Um cliente premium procura inovação relevante, design diferenciador e uma experiência fluida, tanto no produto como no processo de compra. E procura, cada vez mais, marcas que tenham um posicionamento claro e consistente como aquele que a Polestar tem.

 

Portugal já é um mercado maduro para a mobilidade elétrica?

Portugal está relativamente avançado, especialmente se compararmos com outros mercados do Sul da Europa como a Espanha e a Itália por exemplo. Estamos avançados a vários níveis, quer na aceitação do produto em si, quer na infraestrutura de carga, um aspeto fundamental na jornada elétrica.

É evidente que continua a existir alguma distância entre o segmento do cliente particular e o empresarial, tendo este último um papel fundamental na aceleração da eletrificação, uma vez que os incentivos fiscais na compra de elétricos para empresas são significativos. No entanto, o peso do cliente particular tem vindo a crescer, temos visto isso no mercado em geral e nas vendas da Polestar em particular.

O que leva hoje um cliente a escolher um elétrico?

São vários fatores. Em primeiro lugar diria que a racionalização da estrutura de custos e a conclusão de que os custos de utilização são de facto mais baixos nos automóveis elétricos quando comparados com as motorizações a combustão (especialmente no contexto atual da escalada dos preços de petróleo). Por outro lado, há a vertente tecnológica que terá aliciado uma boa parte dos clientes mais early adopters. Os benefícios fiscais referidos anteriormente têm também muito peso, especialmente na fatia de mercado empresarial.

Por outro lado, ainda, há também um fator importante que é a experiência de condução – que muitas vezes surpreende positivamente quem faz a transição.

Por último, uma palavra também para as razões ambientais. São muitos aqueles, especialmente na Polestar, que escolhem um veículo 100% elétrico, pois é o que a sua consciência ambiental diz, cientes que estão a contribuir para a construção de um futuro mais sustentável.

E o que ainda trava essa decisão?

Sabemos que ainda persistem algumas barreiras, sobretudo ao nível da perceção da autonomia dos modelos e da infraestrutura de carga. No entanto, diria que estes preconceitos já não correspondem à realidade, especialmente num país como o nosso, onde não só o território já começa a ter uma estrutura de carga muito completa, como também já é possível ligar as principais cidades nacionais numa viagem de modelo elétrico com uma só carga, sem necessidade de parar a meio do caminho. Importa continuar a explicar, a desmistificar e ensinar os clientes de que, hoje em dia, a transição para a mobilidade elétrica talvez já faça todo o sentido para a maior parte deles.

Qual o peso das empresas na vossa atividade?

É um canal absolutamente determinante. Em linha com o mercado nacional, continua a representar uma parte muito relevante das vendas, significando atualmente mais de 75% das nossas vendas totais. O mercado empresarial é um motor importante da transição energética, quer pela fiscalidade, quer pela capacidade de renovação de frotas.

A fiscalidade tem sido um fator decisivo?

Sem dúvida. O enquadramento fiscal em Portugal tem sido um dos principais aceleradores da mobilidade elétrica, sobretudo no segmento empresarial mas também no particular.

Têm vindo a alargar a gama. Qual o papel de cada modelo?

O alargamento da gama é um passo natural na maturidade da Polestar enquanto marca e reflete a transição de uma presença mais de nicho para uma proposta mais completa no segmento premium elétrico. Durante algum tempo, operámos com um único modelo, o Polestar 2, o que nos permitiu afirmar a identidade da marca e validar o nosso posicionamento. Hoje, com uma gama  mais alargada, conseguimos responder a diferentes perfis de cliente sem perder coerência estratégica.

O Polestar 2 continua a ser a nossa base. Foi o modelo que nos permitiu entrar no mercado e construir notoriedade. É um produto muito equilibrado, que combina design, tecnologia e performance, e continua a ser essencial para introduzir novos clientes ao universo Polestar. No próximo ano vamos iniciar a comercialização de um Polestar 2 completamente renovado.

O Polestar 3 representa a nossa entrada no segmento dos SUV premium de maior dimensão, com uma proposta mais familiar e mais sofisticada. É um modelo fantástico, reforçado agora com a chegada dos 800V, que reforça claramente o posicionamento da Polestar ao nível do conforto, do espaço e da tecnologia, respondendo a um tipo de cliente que valoriza versatilidade e utilização mais transversal.

O Polestar 4 assume um papel absolutamente central na nossa gama. É, provavelmente, o modelo que melhor traduz o equilíbrio entre design, performance e funcionalidade. Tem uma proposta muito versátil e apelativa, o que explica a forte recetividade que tem tido em vários mercados, incluindo Portugal onde é o nosso bestseller.

Já o Polestar 5 tem um papel distinto. É o nosso halo car, um modelo de afirmação tecnológica e emocional. Mais do que volume, o seu objetivo é reforçar a imagem da marca, demonstrar a nossa capacidade de inovação e projetar o posicionamento da Polestar num patamar ainda mais elevado dentro do segmento premium.

No fundo, cada modelo tem uma função clara dentro da estratégia da Polestar: desde a captação de novos clientes até ao reforço de posicionamento e da imagem. O que nos distingue é que, apesar desta diversificação, conseguimos manter uma identidade muito consistente – em design, em experiência e na forma como encaramos a mobilidade elétrica.

Esse equilíbrio entre escala e coerência é, provavelmente, um dos aspetos mais críticos na fase de crescimento em que nos encontramos.

 

O Polestar 4 tem sido particularmente bem recebido. Porquê?

O sucesso do Polestar 4 resulta, acima de tudo, de um alinhamento muito claro entre aquilo que o mercado procura hoje e a proposta concreta do nosso produto. Em primeiro lugar, há um fator de design que não pode ser ignorado. O Polestar 4 apresenta uma abordagem muito diferenciadora dentro do segmento – é um coupé com uma identidade forte, minimalista e bastante distintiva. Num mercado premium cada vez mais competitivo, onde muitos produtos tendem a convergir, essa diferenciação estética tem um impacto real na decisão de compra.

Depois, há um segundo eixo, que é o equilíbrio do produto. O Polestar 4 consegue combinar performance, autonomia, espaço e tecnologia de uma forma muito coerente. Não é um modelo de nicho – é um produto que consegue falar com vários perfis de cliente, desde empresas a particulares, precisamente porque não obriga a compromissos relevantes em nenhuma dimensão-chave.

Outro aspeto importante é a proposta tecnológica e de experiência. O veículo integra de forma muito natural a componente digital – seja ao nível da interface, da conectividade ou da experiência de utilização – o que vai ao encontro das expectativas de um cliente que já vive num ecossistema digital no dia a dia. Isso torna a adaptação ao produto muito intuitiva.

Por fim, há um fator crítico que é o posicionamento de valor. O Polestar 4 apresenta uma proposta muito competitiva dentro do segmento premium elétrico, oferecendo um nível de design, tecnologia e performance que o torna bastante atrativo face às alternativas disponíveis.

No fundo, o que explica a sua recetividade é esta combinação de fatores: um design distintivo, um produto equilibrado, uma experiência tecnológica forte e um posicionamento muito bem calibrado para o mercado atual.

E o Polestar 5?

Como referi anteriormente, o Polestar 5 é o nosso halo car. Representa o máximo daquilo que conseguimos fazer em termos de tecnologia, design e performance. É um modelo que não tem como objetivo o volume, mas sim reforçar a imagem da marca e projetar a nossa visão para o futuro.

Existem muitas características que o tornam único, sendo que gostaria de destacar o seguinte: o Polestar 5 é extremamente fiel ao concept precept. Conseguimos manter o design de produção praticamente intacto em relação ao protótipo inicialmente apresentado, algo raro na indústria automóvel.

Como se cria emoção num automóvel elétrico?

A emoção continua a existir – mas é uma emoção diferente. Está no design, na aceleração, na experiência digital, no silêncio.

É uma emoção mais sofisticada, mais ligada à experiência global do produto. E para mostrar isto mesmo, temos uma parceria com a Universidade de Oxford, em que estamos a medir de forma científica o prazer de condução. Os resultados serão divulgados em breve.

A experiência de compra também mudou?

Mudou profundamente – e não foi uma mudança incremental, foi estrutural. Durante décadas, a experiência de compra automóvel foi relativamente linear e centrada no ponto de venda físico. Hoje, esse modelo evoluiu para uma lógica claramente omnicanal, onde o cliente controla muito mais o processo e decide quando e como interage com a marca. O digital assume agora um papel absolutamente central no início da jornada. É, na maioria dos casos, o primeiro ponto de contacto – seja para pesquisa, configuração do veículo ou comparação de opções. O cliente chega ao momento de decisão muito mais informado, com expectativas claras e um nível de exigência superior.

Mas isso não significa que o físico tenha perdido relevância – pelo contrário. O que aconteceu foi uma redefinição do seu papel. Os Polestar Spaces, por exemplo, não são concessionários tradicionais; são espaços de experiência, desenhados para permitir um contacto mais próximo com o produto, sem pressão comercial direta. Isso é importante porque reflete uma mudança no comportamento do consumidor, que valoriza mais autonomia e menos fricção no processo de decisão. Os test-drives continuam a ser um momento crítico – muitas vezes decisivo – porque é aí que o cliente valida a proposta do produto e, no caso dos elétricos, quebra preconceitos associados à condução, autonomia ou performance.

Outro elemento que ganhou relevância é a continuidade da relação após a compra. Hoje, a experiência não termina na entrega do automóvel. Existe uma ligação permanente com o cliente, através de serviços digitais, atualizações remotas e acompanhamento ao longo de todo o ciclo de vida do veículo. Diria que o grande desafio – e também a grande oportunidade – está em garantir uma experiência integrada e consistente em todos os pontos de contacto. Não se trata apenas de ter canais digitais e físicos, mas de garantir que funcionam de forma complementar e coerente.

O que distingue a vossa abordagem à sustentabilidade?

Referi anteriormente que a sustentabilidade é um dos nossos pilares fundamentais, constituindo não um pilar de comunicação, mas um princípio operacional que orienta toda a organização. O que verdadeiramente nos distingue é o facto de tratarmos a sustentabilidade como algo mensurável, transparente e integrado em toda a cadeia de valor, e não como uma iniciativa isolada ou um conjunto de compromissos genéricos.

Desde o início, a Polestar assumiu uma abordagem muito clara: cada decisão – seja no desenvolvimento de produto, na escolha de materiais ou na seleção de fornecedores – tem de ser avaliada também pelo seu impacto ambiental. Isso implica um nível de exigência elevado, porque obriga a repensar processos industriais, cadeias de fornecimento e até o próprio design dos veículos.

Um dos elementos mais diferenciadores é precisamente essa transparência total. Trabalhamos para quantificar e comunicar o impacto de cada modelo ao longo do seu ciclo de vida, o que permite ao cliente tomar decisões informadas. Não se trata apenas de dizer que um produto é mais sustentável – trata-se de demonstrar em que medida o é, e onde ainda há margem de melhoria.

Outro aspeto fundamental é o facto de encararmos a sustentabilidade como uma jornada contínua, e não como um destino já alcançado. Temos metas ambiciosas – nomeadamente ao nível da neutralidade carbónica – mas, mais importante do que a meta em si, é a forma como trabalhamos diariamente para a atingir, envolvendo toda a cadeia de valor.

Como encaram a crescente concorrência?

A concorrência é positiva porque nos obriga a trabalhar cada vez melhor. O nosso foco passa por manter uma proposta clara, diferenciadora e consistente – baseada em design, tecnologia e sustentabilidade – e continuar a construir uma marca com identidade forte.

Que evolução antecipa para o mercado?

Nos próximos cinco anos, esperamos, crescimento sustentado dos elétricos, maior competitividade e uma aceleração tecnológica cada vez maior. Portugal continuará a ser um mercado relevante neste contexto.

Que marca gostaria de deixar na Polestar Portugal?

Gostaria de deixar uma marca consolidada, com uma presença forte e reconhecida pela inovação, pela sustentabilidade e pela qualidade da experiência que oferece. No fundo, uma marca que não só acompanha a transformação do setor, mas que ajuda a liderá-la.

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