MIGUEL FRASQUILHO

4 de Outubro de 2016

jcf_0050“A CONQUISTA E CONSOLIDAÇÃO DOS MERCADOS RESULTA DE UMA PROPOSTA DE VALOR DIFERENCIADA DAS NOSSAS EMPRESAS, DA CAPACIDADE DE INVESTIR, DE PERSEVERANÇA  E PERSISTÊNCIA”

Miguel Frasquilho, presidente da AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal), traçou, em entrevista à FRONTLINE, o atual estado da economia portuguesa, tendo em conta o contexto europeu e mundial. “Em resultado do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido ao nível da correção dos equilíbrios estruturais da economia nacional (contas públicas e contas externas) e das reformas estruturais implementadas e de outras em curso em diversas áreas, a economia nacional tem um enquadramento mais favorável e é hoje percecionada como sendo mais competitiva”, sublinhou. Fazendo um balanço “muito positivo” da sua experiência enquanto presidente da AICEP, Miguel Frasquilho não pôde deixar de destacar o facto de, atualmente, haver tantas empresas e empresários nacionais com tanta resiliência, capacidade de inovação e qualidade, “cada vez mais virados para o exterior!”, embora saiba que existe ainda “muito trabalho pela frente”. Para o presidente da Agência, 2017 deverá ser um ano “desafiante” e, na sua opinião, as exportações e o investimento “acelerarão”.

Qual é o papel estratégico da AICEP em termos de promoção da exportação, de captação de investimento e de internacionalização?

A exportação e internacionalização, por um lado, e o investimento, por outro, estão no ADN da AICEP. Dar todo o apoio às empresas e investidores é a nossa missão e, para uma pequena economia como a portuguesa, as exportações e o investimento são motores fundamentais para a obtenção de um crescimento sustentável. Embora, como costumo dizer, a AICEP não exporte nem invista – são as empresas e os empresários que o fazem –, a Agência é um pilar fundamental na estratégia de desenvolvimento do país e tem tido um papel muito ativo na ajuda e no apoio às empresas nacionais nos seus processos de internacionalização e na retenção e captação de investimento nacional e estrangeiro para Portugal.

Qual a estratégia da Agência na promoção da imagem de Portugal e das suas marcas no exterior?

Em resultado do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido ao nível da correção dos equilíbrios estruturais da economia nacional (contas públicas e contas externas) e das reformas estruturais implementadas e de outras em curso em diversas áreas, a economia nacional tem um enquadramento mais favorável e é hoje percecionada como sendo mais competitiva (de acordo com o Doing Business, do Banco Mundial, o nosso país é, atualmente, o 23.º do mundo onde é mais fácil fazer negócios).  A oferta nacional é hoje muito atrativa para os investidores internacionais: o sistema científico e universitário de qualidade, as redes de infraestruturas de telecomunicações e logística de topo e a posição geoestratégica do país (não esqueçamos que está a ser negociado um acordo transatlântico entre a Europa e os EUA que fortalece a nossa localização privilegiada), complementados pelo Portugal 2020, são apenas alguns dos exemplos que podem ser mencionados e que a AICEP promove junto dos investidores. Além disso, temos uma oferta de empresas, produtos e serviços de altíssima qualidade: engenharia, educação, formação, consultoria, agroalimentar, pesca, turismo, calçado, têxteis, moldes, automóvel, enfim, vários são os setores de atividade onde as empresas portuguesas têm dado cartas com os seus produtos e serviços, cada vez mais inovadores e de maior valor acrescentado, ganhando quota de mercado nos mercados tradicionais e conseguindo penetrar em novos mercados, fora da União Europeia, emergentes e de rápido crescimento. Temos mais empresas portuguesas a vender mais produtos e serviços e em mais mercados, provando que o Made in Portugal é hoje um ativo reconhecido internacionalmente e, muito importante, que acrescenta valor, uma situação que há alguns anos não se verificava. Quando esta administração a que tenho o gosto e o privilégio de presidir tomou posse, foi apresentado um Plano Estratégico que definia um conjunto de medidas concretas para estimular a captação/retenção de investimento e as exportações nacionais. Este plano, que está praticamente cumprido e implementado, previa, por exemplo, a criação dos especialistas em captação de investimento (FDI Scouts), a realização de um roadshow internacional de captação de investimento em 23 geografias selecionadas e a expansão da rede externa da Agência (até ao final de 2016 contamos acompanhar as empresas portuguesas em 66 países, tendo alargado, assim, a nossa presença a 13 novos países e passando a cobrir todos os países da CPLP). Acredito que todas essas medidas, juntamente com as inúmeras feiras, seminários e diferentes ações, como as missões e sessões de capacitação, em que a Agência participa e/ou organiza, mais a vinda do Web Summit para Lisboa, que em conjunto com outras entidades também ajudámos a trazer para Portugal, têm sido contributos relevantes da AICEP para aumentar a notoriedade de Portugal e das nossas marcas no exterior.

Que balanço faz da sua experiência como presidente da AICEP?jcf_0066

Até hoje, faço um balanço muito positivo. Tem sido uma experiência muito gratificante e enriquecedora. Tendo em conta as três grandes linhas estratégicas apresentadas no Plano Estratégico – impulsionar as exportações nacionais, através da prestação de serviços de qualidade, à medida das necessidades das empresas nacionais, tanto na origem como no destino; aumentar a captação e retenção de investimento, através da prestação de serviços de qualidade, à medida das necessidades dos clientes e investidores, tanto no estrangeiro como em Portugal e adaptar a Agência às necessidades de aumento das exportações e de captação e retenção de investimento – e as principais medidas propostas, posso dizer-lhe que estou satisfeito. Embora ainda haja muito trabalho pela frente (é sempre um work in progress) é fantástico ver tantas empresas e empresários nacionais com tanta resiliência, capacidade de inovação e qualidade, cada vez mais virados para o exterior! E ver, também, como Portugal tem conseguido posicionar-se de forma crescente nos radares dos investidores internacionais.    A economia portuguesa nunca teve um grau de abertura tão elevado e o investimento tem vindo a recuperar. E isso, enquanto presidente de uma das entidades que contribui para que o motor da economia do país funcione, deixa-me muito satisfeito.

Qual é a sua opinião sobre o atual estado da economia portuguesa? O que podemos esperar tendo em conta o atual contexto europeu e mundial?

O mundo está a passar por tempos de grande instabilidade e incerteza. Eleições em países-chave, a evolução dos preços do barril de petróleo, a instabilidade política e militar verificada em alguns mercados e as principais políticas monetárias mundiais, entre tantos outros fatores, afetam naturalmente a economia portuguesa. No entanto, penso que a economia nacional está numa fase em que há aspetos que se devem destacar. Há uma forte e dinâmica nova geração de empresas – há startups fantásticas! – e as empresas portuguesas já não olham para o mercado interno como mercado-alvo, nomeadamente as que pretendem ter sucesso, crescer, ser sustentáveis no longo prazo. Os mercados já não são locais, são globais. Os nossos empresários e as nossas empresas já não concorrem com outras empresas portuguesas, mas sim com empresas de todo o mundo. Nunca se exportou tanto no país. E, provavelmente, nunca Portugal esteve tanto nos radares dos investidores internacionais. No entanto, é preciso termos noção de que o mundo é muito competitivo. Ao nível do peso das exportações no produto, ainda temos um longo caminho a percorrer para nos equipararmos a países com dimensão semelhante a nível europeu e cujo peso das exportações ultrapassa 50%. Nós passámos a marca dos 40%, mas queremos mais – e considero que temos condições para isso. Temos de continuar a melhorar as condições de atratividade do país para retermos e captarmos mais investimento. No fundo, para nos tornarmos ainda mais competitivos. Só desta forma conseguiremos crescer de forma sustentada e reduzir o ainda elevado desemprego existente.

Concorda com a necessidade de captação de investimento? Estamos no caminho do crescimento ou, pelo contrário, estamos estagnados?

Diria que estamos a meio da ponte. Há aspetos em que melhorámos bastante e em que nos tornámos mais competitivos, mas ainda temos outra metade da ponte para percorrer. O mundo em que vivemos é, de facto, muito competitivo – e ficar parado não é ficar no mesmo sítio, é, em termos relativos, andar para trás. A perceção de Portugal nos mercados internacionais é bem melhor do que há uns anos atrás. No entanto, os últimos relatórios de competitividade conhecidos (Institute for Management Development e World Economic Forum), em que descemos algumas posições, devem ser sinais de alerta a ter em conta para melhorarmos ainda mais a competitividade do país.

Em matéria de captação de investimento estrangeiro, qual será a atuação estratégica a seguir?

A captação de investimento estrangeiro deverá concentrar-se em diferentes áreas. Logo à partida na manutenção e expansão do investimento existente através de um acompanhamento regular, atento e eficiente, através do apoio às empresas já instaladas na captação de novas oportunidades de investimento que resultará no ancoramento das suas atividades em Portugal. Tendo em linha de conta os setores geradores de maior número de projetos de IDE, bem como os fatores críticos de decisão que lhes estão associados, foram selecionados setores-alvo onde Portugal apresenta vantagens comparativas. Identificadas as principais empresas dentro destes setores bem como os países de origem (países-alvo), a AICEP, através dos seus FDI Scouts – especialistas na captação de investimento estrangeiro em três áreas geográficas específicas –, está a desenvolver um trabalho focado e preparado de abordagem a potenciais novos investidores. Depois, com base no trabalho conjunto com empresas instaladas e com potenciais novos investidores, é necessário identificar “custos de contexto” e propor soluções que resultem numa efetiva melhoria do “produto Portugal” enquanto localização para instalação de IDE. E por fim, assente nos casos de sucesso de empresas instaladas e seus testemunhos, bem como nos projetos recentemente conquistados, devemos comunicar regularmente as vantagens de Portugal, criando dessa forma uma maior dinâmica de sucesso.

jcf_0096Portugal é, neste momento, um país atrativo para os investidores? O que nos torna um país atrativo?

Portugal continua a apresentar vantagens competitivas para captação de projetos de IDE que têm permitido o reinvestimento das empresas instaladas bem como a angariação de novos investidores. Se nos cingirmos a inquéritos de consultoras internacionais, principais estudos de benchmarking e testemunhos de empresas instaladas em Portugal, são várias as vantagens competitivas que podemos identificar. Desde logo os recursos humanos: qualificação dos recursos humanos; disponibilidade e qualidade de engenheiros; trinómio de custos, horas efetivas trabalhadas e produtividade; domínio de línguas estrangeiras. As infraestruturas, principalmente ao nível das estradas, mas também ao nível dos portos e aeroportos, bem como a qualidade das infraestruturas de telecomunicações, são outro fator distintivo. O imobiliário com custos competitivos face à concorrência (escritórios e industrial), a existência de uma sólida base de fornecedores locais para suporte da atividade dos grandes investidores (supply chain) e a boa cooperação entre empresas e universidades também são de destacar. A par disso, Portugal tem um ambiente favorável para os negócios (no Doing Business do Banco Mundial, Portugal aparece à frente de países como a França, Espanha, Polónia e República Checa). A estabilidade social e a segurança (Portugal aparece em 5.º lugar no World Peace Index de 2016), os incentivos ao investimento muito competitivos e, claro, a qualidade de vida que o nosso país oferece completam o leque de vantagens que os investidores têm em conta na hora da tomada de decisão.

O que é necessário alterar para nos tornarmos ainda mais atrativos em termos de investimento?

Reforçar a promoção da imagem de Portugal como país atrativo para localização de projetos produtivos inovadores e geradores de riqueza é fundamental. A experiência das empresas já instaladas demonstra-nos todos os dias que Portugal é atrativo, mas é preciso dar a conhecer as nossas potencialidades de forma mais generalizada. Em paralelo, devemos manter e reforçar o permanente diálogo com os investidores. Devo também acrescentar que a estabilidade e previsibilidade são fatores essenciais para a captação de investimento e para o seu ancoramento.

Qual a principal área de investimento em Portugal? Como justifica?

As áreas que mais se destacam, quer pela procura crescente de investidores estrangeiros, quer pela existência de condições endógenas propícias à expansão do investimento por parte de empresas já estabelecidas, são aeronáutica, automóvel, agroalimentar, floresta/papel e serviços partilhados ou BPO (Business Process Outsourcing)/TI (Tecnologias de Informação) – isto é, os chamados business services. Estes setores assumem também maior predominância e dinamismo por estarem associados à existência de importantes clusters, como é o caso do automóvel e do aeronáutico, ou pela existência de importantes recursos endógenos, como é o caso do alimentar e do papel e, finalmente, pelo crescimento de talento qualificado que tem sustentado não só a indústria, mas também, e em grande parte, os centros de serviços de maior valor acrescentado.

Considerando a experiência e o know-how da AICEP em matéria de mercados, como é que esta contribuirá para potenciar novas oportunidades de negócio? Quais são os mercados considerados prioritários para o nosso país?

Este é talvez o principal ativo que colocamos à disposição das empresas portuguesas: o conhecimento e experiência que temos nos mercados. Sermos capazes de perceber bem os mercados, onde estão as oportunidades e as suas dificuldades, é fundamental para assegurarmos o cumprimento da nossa missão, ou seja, contribuir para a internacionalização das nossas empresas. Mas a nossa proposta de valor não se esgota no conhecimento e apoio de mercados. Ela é mais abrangente e começa em Portugal. Antes de as empresas entrarem num processo de internacionalização, e em particular as PME, é fundamental que exista uma preparação cuidada e sustentada. É por isso que nós disponibilizamos às empresas nacionais um canal privilegiado dentro da Agência: os Gestores de Clientes.  As empresas com potencial de internacionalização podem recorrer a um parceiro (o seu Gestor de Cliente, disponível em Lisboa e no Porto, e também nas nossas Lojas da Exportação espalhadas um pouco por todo o país) que as ajudará a perceber melhor como desenvolver a sua estratégia e que produtos/serviços da AICEP poderão utilizar para alavancar esse processo. A relação com o Gestor de Cliente é ainda fundamental para que exista um conhecimento mais profundo da nossa realidade empresarial e assim potenciar as oportunidades que vão sendo detetadas nos mercados externos. Mais do que indicar mercados prioritários, a AICEP deve ter a capacidade de acompanhar a dinâmica das empresas, porque são elas que escolhem os mercados. No entanto, não podemos deixar de reconhecer que há mercados que merecem uma atenção especial: a União Europeia, fruto do processo de integração em que estamos inseridos, será sempre um mercado importante; os países de língua portuguesa (CPLP), pelo potencial cultural e linguístico, também devem ser valorizados; e as economias com maior potencial de crescimento também devem ser acompanhadas com um olhar atento.

Quais são, neste momento, os projetos de investimento estrangeiro mais importantes em Portugal?jcf_0093

No setor automóvel, destacamos os investimentos dos construtores Volkswagen Autoeuropa, PSA Mangualde e Toyota, com reforço da produção para os próximos anos. Assume particular relevância a instalação de novos fornecedores de componentes automóveis, tais como o grupo francês GMD e o Howa Tramico. Paralelamente, relevantes empresas da indústria de componentes instaladas em Portugal anunciaram também projetos de expansão e novas decisões de localização em Portugal com contributos importantes do ponto de vista das exportações, emprego e inovação: Continental Mabor, Hutchinson, Antolin, Faurecia e Sakthi. Importante é também a aposta das empresas em atividades de investigação e desenvolvimento. A parceria entre a Bosch Car Multimedia e a Universidade do Minho, na sua primeira fase, resultou já em 12 novas patentes submetidas e esta aposta e parceria mantém-se com um investimento muito significativo em novos projetos até 2018. A expansão do grupo brasileiro Embraer e o reforço da presença de empresas como a Mecachrome são os principais destaques no setor aeronáutico. A indústria de processamento alimentar ganhou um novo investidor proveniente dos EUA – Amy’s Kitchen – que está a instalar uma grande unidade de produção de refeições congeladas para servir toda a Europa. Na área dos serviços, destacam-se algumas multinacionais que selecionaram Portugal para instalar uma nova operação, tais como a Ubiquity Global Services com um centro multilinguístico para servir o mercado EMEA, a francesa Génération Verlingue com um centro financeiro para 120 pessoas, a Companeo com um contact center pan-europeu, a Europcar com um centro de serviços partilhado financeiro com 300 pessoas e a Euronext. Em forte expansão, encontram-se os centros de serviços já instalados, como a Infineon, a Sitel, a Webhelp, a Altice, a Fujitsu e a Concentrix, quer por via da agregação de novas funções, quer pelo crescimento da cobertura geográfica dos serviços que prestam. Finalmente, o setor da floresta e do papel mantém o seu papel de destaque a nível europeu e mundial: a Renova e The Navigator Company (Portucel) anunciaram recentemente novos projetos de expansão da capacidade, com impacto socioeconómico muito positivo.

Teremos este ano, e até 2018, a Web Summit em Portugal. Que benefícios trará para o nosso país?

O evento Web Summit não é, na realidade, uma conferência. No ano passado, ainda em Dublin, foram 21 conferências, desde a tecnologia ao desporto, à música, à gastronomia, à moda, à agricultura e muito mais. É uma concentração de talento das mais variadas indústrias de todo o planeta. É, ao mesmo tempo, uma concentração de personalidades internacionais, de investidores reconhecidos e das mais inovadoras mentes de vários países.       E, neste último ponto, para Portugal, para os empreendedores portugueses que sonham em alcançar o sucesso com os seus produtos inovadores, este evento pode tornar estes sonhos realidade pois as oportunidades que aí surgem fazem a diferença.  A realização de um evento desta ordem de grandeza em Portugal traz uma visibilidade muito relevante para o nosso país no setor das TIC, possibilita às nossas startups o contacto direto com um ecossistema único a nível mundial e com os maiores investidores do setor, e atuará sem dúvida como um verdadeiro catalisador do empreendedorismo no território nacional. A realização deste evento na cidade de Lisboa traz também benefícios claros e inequívocos, quer ao nível do turismo, quer ao nível da economia local (restauração, hotelaria, comércio) e, especialmente relevante, para as empresas do setor das TIC (pelas inúmeras oportunidades de levantamento de capital e estabelecimento de parcerias que daqui poderão surgir). A projeção obtida pelo Web Summit devido à cobertura diária por parte das maiores empresas de media (cerca de 1500 jornalistas) no mundo, poderá ser efetivamente o que alterará por completo a visibilidade de Portugal ao nível das TIC. Isto apesar de existirem já em Portugal empresas que dão cartas e são players fortes no setor a nível internacional, mas cujo talento e dinâmica poderão ser assim potenciados para um outro patamar.

Na sequência deste evento, como está a correr a sua demanda pela captação de investimento das gigantes-tecnológicas norte-americanas em Portugal? O desafio que lançou teve já algum retorno?

Portugal começa a estar no mapa como hub tecnológico e, como dizia há pouco, a realização do Web Summit muito contribuirá para a dinâmica e visibilidade do nosso país. No roadshow que realizei aos EUA, em abril, estive reunido com algumas das maiores tecnológicas do mundo – Amazon, Apple, Facebook, Google e Twitter – e voltei com a perspetiva positiva de uma aposta em Portugal. Esses contactos já estão a dar frutos: o Facebook esteve este mês em Lisboa e no Porto com o seu programa internacional “Boost Your Business”, virado para a digitalização das PME, e no qual a AICEP foi parceira.  A iniciativa trouxe a debate a digitalização da economia portuguesa e as oportunidades para as empresas, demostrando como as PME portuguesas podem acelerar o seu negócio através de plataformas como o Facebook e o Instagram, partilhando não só experiências de casos de êxito de empresas portuguesas, como explicando, de forma prática, como se pode otimizar a presença nestas redes sociais e potenciar os negócios junto dos milhões de utilizadores destas plataformas. Foi uma conferência muito útil e este é apenas um exemplo do interesse crescente pelas nossas empresas e pelo que se está a fazer em Portugal.

Afirmou, recentemente, que “estão reunidas as condições para que o défice vá ser inferior a 3%”. Caso se consiga cumprir este valor, a confiança dos investidores poderá ficar reforçada?

Já há algum tempo que venho transmitindo isso mesmo. A ideia, que agora parece ser mais clara, de que o défice ficará abaixo de 3% do PIB neste ano – e se conseguir ficar abaixo de 2,5%, então melhor! – e abaixo de 2% em 2017, será um enorme contributo para reforçar a confiança dos investidores em Portugal. É necessário que todos tenhamos consciência de que, embora não seja o único fator para o sucesso do país, é essencial cumprir com os compromissos internacionais, nomeadamente ao nível das contas públicas.

jcf_0073Qual o papel das startups no desenvolvimento e crescimento da economia portuguesa?

É inequívoca a importância das startups para o desenvolvimento e crescimento da economia portuguesa. Primeiramente pelo que representam ao nível da criação de emprego. Por outro lado, pelo grau de educação que caracterizam muitos destes empreendedores: cursos superiores e/ou doutoramentos, da engenharia à agricultura, à economia. É transversal a frequência de um curso superior na grande maioria dos casos.

Adicionalmente, o grau inovador e tecnológico que caracteriza estas startups, apresentando produtos e serviços, que, em muitos casos, são verdadeiramente disruptivos e com impacto nas sociedades e mercados. Aliás, estas startups disruptivas têm “obrigado” as grandes multinacionais a adaptarem-se, a inovar e a tornarem-se mais eficientes, correndo o risco de serem rapidamente ultrapassadas por estas novas e pequenas empresas. São exemplos disto a Netflix, a Uber, a Feedzai, o Facebook, a Google, a Microsoft, entre outras. Nasceram startups e tornaram-se gigantes pela disrupção que causaram no mundo corporativo. Igualmente relevante é o facto de estas empresas não se limitarem a atuar no mercado doméstico.  A utilização da tecnologia disponível permite-lhes competir no mercado global, alargar a sua base potencial de clientes e com isto potenciar a valorização da empresa. Naturalmente com impacto nas exportações e no investimento do nosso país. Torna-se, assim, evidente que as startups têm impacto a todos os níveis da economia: emprego, inovação, educação, exportações, investimento. Variáveis fundamentais para o crescimento sustentado de qualquer economia.

Quais são as características, consideradas incontornáveis, de uma empresa exportadora, ou que o queira ser, no atual contexto da economia e da concorrência globais, seja ela uma grande empresa ou uma PME?

Na AICEP procuramos sempre sensibilizar as empresas para, antes de irem para os mercados, se prepararem. Esta é uma das mais importantes características que as empresas devem ter: uma estratégia de abordagem aos mercados. As empresas têm de definir o caminho a seguir para que o possam percorrer e ajustar sempre que for necessário, porque só com uma abordagem estruturada se consegue uma melhor eficácia na alocação de recursos (humanos e financeiros). Outra das características reside na capacidade de resistência (ou de resiliência): o processo de internacionalização é longo e demorado. Raramente acontece num horizonte temporal reduzido. É por isso que as empresas não podem desistir quando não há respostas ou interesse de potenciais clientes estrangeiros. Têm de ter a capacidade de perceber porquê e de que forma conseguem ultrapassar os fatores que estão a condicionar a sua estratégia. É preciso ir ter com os potenciais clientes e acompanhá-los de perto. Com este enquadramento facilmente se percebe que é preciso ter capacidade (humana e financeira) para aguentar este processo durante algum tempo. Internacionalização é um investimento (estratégico). As duas características já mencionadas são fundamentais para qualquer empresa que pretenda abordar os mercados internacionais.  Acontece que só será possível incorporá-las nas empresas se outra característica se verificar: recursos humanos qualificados e afetos diretamente à internacionalização. De facto, as empresas podem ter as suas estratégias bem definidas e capacidade de resistência assegurada, mas se não tiverem colaboradores responsáveis pela execução do caminho definido, será muito mais difícil alcançar os objetivos.

Existem, atualmente, alterações significativas na geografia das exportações portuguesas? Como é que se conquistam e consolidam novos mercados estratégicos?

As empresas nacionais têm desenvolvido um extraordinário esforço de diversificação dos mercados de destino das nossas exportações. De facto, há cerca de seis/sete anos o mercado da União Europeia representava mais de 80% das nossas exportações. De acordo com os últimos dados disponíveis (de julho), este valor é ligeiramente inferior a 75%. O mercado único será, incontornavelmente, o nosso principal mercado, mas a realidade demonstra-nos que as nossas empresas estão atentas e aproveitam as oportunidades que existem noutros mercados. A conquista e consolidação dos mercados resulta de uma proposta de valor diferenciada das nossas empresas, da capacidade de investir, de perseverança e persistência. Conhecer os mercados, os clientes, estar perto deles e ser capaz de manter uma relação de confiança e parceria é fundamental para a entrada e manutenção nos mercados externos. Naturalmente, quanto maior for a perceção externa de que as nossas empresas (e por essa via, o país) são modernas, competitivas, fiáveis, social e ecologicamente sustentáveis, mais fácil será a conquista de novos mercados.

Quais são as suas previsões para 2017, considerando a dinâmica das áreas de atuação da AICEP?jcf_0105

Penso que 2017 será mais um ano desafiante. O défice público deverá reduzir-se novamente (previsivelmente, como já atrás referi, para menos de 2% do PIB) e, na linha do que perspetivo para os próximos anos, a economia nacional deverá registar um crescimento entre 1 e 2%. Considerando as áreas de atuação da AICEP, acredito que as exportações e o investimento acelerarão. Nestas áreas, e ao nível da Agência, 2017 será mais um ano exigente e de muito trabalho, mas que, certamente, permitirá também colher frutos resultantes da estratégia definida e implementada durante estes últimos anos. Em virtude do objetivo delineado de diversificar mercados, proporcionando novas oportunidades às empresas nacionais e em resultado da quebra registada em alguns mercados onde Portugal nos últimos anos teve crescimentos assinaláveis nas exportações, como é o caso de Angola, onde a queda do preço de petróleo afetou naturalmente a manutenção dos níveis de exportação que se vinham verificando, tem havido um esforço muito grande de ampliação da rede externa (por exemplo, São Francisco, Seul, Riade, Zurique, Teerão, Havana, Díli, Bissau, São Tomé) que, certamente, dará frutos ainda mais visíveis no próximo ano.  Complementarmente, fruto das ações de aumento de notoriedade e do trabalho de angariação realizado, vários leads de investimento em pipeline poderão vir a ser concretizados. Enfim, estou confiante de que se Portugal prosseguir no caminho certo durante os próximos anos, temos todas as condições para que o futuro seja risonho!



Categoria: Grande Entrevista

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