LUÍS MARQUES GUEDES

7 de Abril de 2015

JCF_6467“O ESTADO TEM DE PASSAR A SER O PARCEIRO QUE, AO LADO DA SOCIEDADE CIVIL, CONSTRÓI UM PAÍS MELHOR”

Licenciado em Direito e jurista de profissão, Luís Marques Guedes é atualmente o ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares. Tendo “a noção exata da situação do país”, em 2011, Marques Guedes aceitou, prontamente, o convite do atual primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, para integrar o Executivo, desempenhando as funções de secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros. Posteriormente, e adquirindo um conjunto mais alargado de responsabilidades, foi convidado a exercer o cargo de ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares. Tal como sublinha, as responsabilidades que mais releva são as que tem “ao nível do Conselho de Ministros”, porque é aí que se tomam “as decisões mais importantes, mais transversais do Governo”. Na opinião do ministro, este é o mandato “mais difícil” que em 40 anos de democracia um governo constitucional alguma vez teve, isto porque foi necessário adotar medidas que estavam “pré-contratualizadas com a troika e com o Governo socialista anterior” e que se revelaram de uma exigência “enorme”. Contudo, o Governo conseguiu, ao longo destes três anos de cumprimento do programa, e também graças aos “sacrifícios” que os portugueses se mostraram disponíveis para realizar, recuperar a capacidade de nos financiarmos autonomamente nos mercados. Hoje somos um país que “virou a página” e que está já a caminhar “num novo ciclo”, e por isso há, tal como afirma o ministro, um sentimento de uma boa parte do “dever cumprido”. Consciente de que temos deputados a mais no Parlamento, Luís Marques Guedes garante que o número ideal seria entre 150 e 180 deputados, porque desta forma o trabalho seria mais “profícuo e, porventura, o exercício de funções seria mais considerado e respeitado pela sociedade”, conclui. Em jeito de conselho, o ministro afirmou que era “necessário” que o PS “abandonasse o estado de negação, de dizer que tudo o que foi feito foi mal feito, quando é evidente que a maior parte daquilo que foi feito, os resultados o demonstram, foi bem-sucedido”.

É atualmente o ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares.   O que o levou a aceitar este desafio?

Eu aceitei, no início do Governo, o cargo de secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, fundamentalmente, pela noção exata que tinha da situação do país. Portugal encontrava-se, em 2011, numa situação dramática, teve de ir de mão estendida pedir ajuda aos nossos parceiros europeus, praticamente, para uma sobrevivência financeira que estava completamente posta em causa pela situação de pré-bancarrota, e entendi que era um apelo de serviço ao meu país que eu não podia recusar. Passado um ano e meio de funções, quando o primeiro-ministro me convidou a assumir as funções de ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares, para poder ter um conjunto mais alargado de responsabilidades, o empenho continuou a ser o mesmo e a noção de serviço continuou a ser a mesma.

Que balanço faz do seu mandato? E do Governo?

Não sou a pessoa mais adequada para falar sobre o meu desempenho e não gosto de o fazer. Sobre o balanço do exercício deste mandato por parte do Governo, posso dizer que este foi o mandato mais difícil que em 40 anos de democracia um governo constitucional alguma vez teve. A situação em que Portugal foi colocado em 2011 tornou o exercício da governação muitíssimo difícil e muito exigente. A necessidade de adoção de medidas que estavam pré-contratualizadas com a troika e com o Governo socialista anterior revelou-nos um programa duríssimo, de uma exigência enorme, que, do meu ponto de vista e do Governo, estava em alguns aspetos mal negociado, mas que era fundamental cumprirmos para podermos ultrapassar a situação de resgate financeiro, ou seja, a nossa incapacidade de nos financiarmos autonomamente nos mercados. Conseguimos, ao longo destes três anos de cumprimento do programa – com algumas alterações que conquistámos graças à credibilidade e confiança que ganhámos –, acomodar um pouco melhor a intensidade do cumprimento do mesmo. Saímos do programa, no verão do ano passado, numa situação completamente diferente – talvez inesperada para muitos –, que foi fruto do trabalho e dos sacrifícios que os portugueses se mostraram disponíveis para realizar, mas também, obviamente, do trabalho do Governo e da liderança que conseguiu, de uma forma determinada e persistente, levar a termo. Como balanço, diria que há, claramente, um sentimento de uma boa parte do dever cumprido, sendo certo que este Governo não foi eleito apenas para cumprir o programa de ajustamento. Tem um programa próprio que ficou muitíssimo condicionado pelo programa de ajustamento, mas, como o primeiro-ministro afirmou no início do mandato, a tarefa que temos pela frente é uma tarefa, no mínimo, para duas legislaturas: a primeira fundamentalmente foi cumprir o programa; agora já iniciámos uma nova fase, de crescimento, de recuperação da qualidade de vida e do poder de compra por parte dos portugueses, e esperamos poder prosseguir este rumo porque o nosso programa não era o programa da troika. O programa da troika foi negociado com o Governo anterior.

Se voltasse atrás, fazia algo de maneira diferente?JCF_6393

Com certeza que sim. Acho até curioso quando algumas pessoas afirmam que se voltassem atrás faziam tudo igual. Eu acho que fazia imensas coisas de maneira diferente, tanto na minha vida política, como profissional ou pessoal. A maior escola de vida são os erros que cometemos, é com os erros que aprendemos mais.

O que alterava?

No exercício deste mandato não lhe sei dizer onde tenha havido grandes erros, mas houve, com certeza, várias opções que foram tomadas – porque governar é escolher, é tomar opções, é decidir – que poderiam ter sido diferentes. Em pormenor não quero situar nenhuma. Acho que não houve um erro clamoroso.

Na sua opinião, Portugal conseguiu cumprir os objetivos impostos pela troika?

Acho que cumprimos. Os objetivos eram extraordinariamente exigentes, em alguns casos até mal desenhados, e foi necessário construir a credibilidade necessária para que a própria troika revisse alguns desses objetivos, mas a verdade é que Portugal cumpriu, de forma indiscutível. É bom que os portugueses não esqueçam a razão pela qual a troika veio para o nosso país. Isso aconteceu porque, quer a nível de Estado, quer a nível da própria economia, Portugal deixou de ter capacidade de se financiar. Perdeu a confiança e a credibilidade dos mercados. Era essa a situação que nós vivíamos em 2011, quando o Governo socialista de então teve de ir pedir auxílio aos nossos parceiros europeus e ao FMI. No final do programa, Portugal não só reganhou totalmente a confiança e a credibilidade antes perdida, como até colocou a confiança em níveis históricos. Veja-se as taxas de juro de que Portugal goza, e não é nas últimas semanas, é nos últimos meses. É algo perfeitamente sustentado e consolidado, são mínimos de sempre desde que vivemos em democracia. Estamos com taxas de juro, para a nossa dívida nacional, abaixo dos 2%, o que é uma taxa de juro extraordinária. Em alguns momentos até já tivemos a nossa dívida pública com taxas de juro inferiores à dívida pública norte-americana.

Que Portugal temos hoje?

É um Portugal que terminou um período de emergência extraordinariamente exigente e, por isso, é um país de certa forma magoado, é um país que passou por imensos sacrifícios, mas que hoje em dia tem um horizonte de esperança pela frente. Estamos finalmente a crescer, de forma sustentada, estamos a reduzir o desemprego, que é o principal problema social. Somos um país que virou a página e que está já a caminhar num novo ciclo. O mais importante agora é que continuemos com a exigência e com o rigor que possibilite que esta mudança, mudança que foi conseguida por este Governo – este foi o Governo que, verdadeiramente, conseguiu mudar o rumo em que o país estava em 2011 –, não seja posta em causa. Não nos podemos deixar embalar pela cantiga dos que nos querem fazer regressar ao passado.

 

A Comissão Europeia apontou vários desequilíbrios económicos em Portugal. O Executivo está preocupado com esta situação?

Muitos dos desequilíbrios são de natureza estrutural, não são desequilíbrios que tenham acontecido nos últimos dois ou três anos. Pelo contrário. Nos últimos dois ou três anos corrigiu-se o essencial das situações. Contudo, e uma vez que se corrigiram situações de emergência, existem agora problemas estruturais da economia portuguesa, e também sociais, que têm mais de uma década de erros de condução da política económica e social em Portugal e que, no mundo em que vivemos hoje, que é altamente competitivo, temos de saber superar para podermos vencer. Portugal, tal como todos os outros países, enfrenta hoje em dia uma competição que é global. Este Governo, ao longo dos seus três anos e meio de mandato, cumpriu o programa a que estávamos obrigados e lançou as reformas necessárias para encarar de forma diferente essa competição. Mas são desafios que vão ser permanentes, por uma razão muito simples, os países que são mais bem-sucedidos – em que os povos têm melhores níveis de bem-estar e qualidade de vida – são aqueles que, permanentemente, se sabem reformar, porque a sociedade, também ela, está sempre a reformar-se e a evoluir. Se os países não se reformarem, se não houver reformas permanentes a nível dos governos e da responsabilidade política das nações, os países vão ficando para trás, progressivamente. As sociedades que não tiverem essa energia e essa dinâmica permanentes para se reformarem e para se reinventarem vão ficar para trás. É esse o desafio que Portugal tem de vencer.

 

JCF_6476Hoje, qual é a sua visão da Assembleia da República? O que mudou da visão que tinha antes de ser ministro?

Não mudou nada na visão que eu tinha da Assembleia da República antes de ser ministro, até porque não é a primeira vez que exerço funções governativas. Já as exerci também, no início da década de 90, no Governo de Cavaco Silva, com quem tive a honra de trabalhar. O exercício de funções governativas e a sua interligação com o Parlamento não é nada de novo ou de inédito para mim. A opinião que eu tenho da Assembleia da República é que ela é um órgão de soberania fundamental para o exercício da democracia. Funciona como uma válvula de escape de uma panela de pressão, onde os confrontos ideológicos e a tensão política – que, numa sociedade democrática, livre e aberta, naturalmente têm de existir – se podem exprimir em liberdade. Tenho a noção de que a Assembleia da República, ao longo dos anos, tem vindo a sofrer erosão na sua qualidade – fruto, fundamentalmente, da enorme pressão que hoje em dia existe, nomeadamente em termos mediáticos, sobre o exercício da política. Essa pressão, muitas vezes excessiva e injusta, afasta muitos dos homens e mulheres com mais qualidade, que até estariam disponíveis para prestar serviço ao seu país, mas que são afugentados por esta voragem mediática que se intromete e inferniza a sua vida pessoal e profissional.

Quais podem ser os reflexos futuros dessa pressão?

Eu sou um otimista e, por isso, não acho que isto seja um declínio irreversível. Acredito que a sociedade se renova sucessivamente e a própria comunicação social também terá de se renovar. Há de chegar um momento em que os bons jornalistas vencerão os maus jornalistas, em que o bom jornalismo vencerá o mau jornalismo e a política voltará a ser considerada – e em alguns casos é considerada por algum bom jornalismo – como um exercício nobre de serviço à sociedade. E é assim que as coisas têm de ser encaradas e quanto mais depressa tal acontecer, maior será a qualidade do exercício da política, porque maior será a disponibilidade das pessoas com qualidade, dentro da nossa sociedade, para servir durante determinado momento da sua vida no exercício de cargos políticos.

Considera que temos deputados a mais?

Considero. Eu tenho experiência parlamentar, fui deputado durante alguns anos, e tenho a noção do trabalho parlamentar, que respeito muitíssimo. Mas muitas vezes as críticas sobre os deputados decorrem, do meu ponto de vista, exatamente por haver deputados a mais para o trabalho que há a fazer. Isto tem que ver com a dimensão em que o Parlamento português está estruturado. Eu sei que há uma tensão necessária entre o volume de trabalho que o Parlamento é chamado a ter e a necessidade de representação política que o Parlamento cumpre. Para que possa ser a válvula de escape que já mencionei, tem de ter uma representação plural, não só a nível ideológico, como das várias facetas territoriais do nosso país, e dessa tensão resulta necessariamente que o Parlamento acabe por ter de ter uma representação bastante alargada. Ainda assim, acho que para a dimensão e para a pluralidade de situações que existem no nosso país, 230 deputados, do meu ponto de vista, é demasiado. Penso que o Parlamento poderia funcionar com um número entre 150 e 180 deputados. Há muito que defendo isso e faço-o não por menor consideração, mas antes porque acho que se o Parlamento tivesse essa dimensão, haveria um trabalho mais profícuo e, porventura, o exercício de funções seria mais considerado e respeitado pela sociedade.

Como é a sua relação com a presidente da Assembleia da República? A relação seria diferente se este cargo fosse ocupado por um homem?

Não seria seguramente diferente. Fui deputado com a presidência de pessoas que admiro muito, como João Bosco Mota Amaral, Jaime Gama ou Almeida Santos. No caso atual, é um pouco estranho falar dessa relação, porque eu tenho uma relação pessoal de amizade com Assunção Esteves, o que não me permite ter o distanciamento adequado para responder a esta questão no plano institucional, embora não deixe de dizer que, também no plano institucional, a minha relação com a presidente da Assembleia da República é uma relação impecável, como não poderia deixar de ser.

JCF_6436Referindo-se aos comentários de António Costa perante a comunidade chinesa, afirmou que espera que signifiquem o fim do estado de “negação do PS”. Considera possível que o maior partido da oposição possa reconhecer e enaltecer o trabalho desenvolvido pelo Governo?

Em ano eleitoral confesso que não me parece provável, mas acho que era bom que o PS começasse a usar de uma responsabilidade diferente quando fala da situação do país. É evidente que um partido da oposição tem sempre de apresentar não apenas a crítica, mas também, quando a faz, um caminho alternativo – de resto é essa a função da oposição em democracia. O que eu acho que não pode acontecer, em especial quando falamos sobre o maior partido da oposição, é a crítica pela crítica ser o “pão nosso de cada dia”, ser a cartilha, ser o seu único discurso. Era necessário, até para ganhar credibilidade junto dos portugueses, que o PS abandonasse o estado de negação, de dizer que tudo o que foi feito foi mal feito, quando é evidente que a maior parte daquilo que foi feito, os resultados o demonstram, foi bem-sucedido.

Na última campanha o PSD afirmou que era necessária uma revisão constitucional, depois tal foi esquecido. A revisão da constituição continua a ser para si uma urgência?

A revisão não foi esquecida, apenas não foi viabilizada porque, como sabe, a revisão da Constituição não é algo que dependa de uma única maioria, por absoluta que ela seja, depende sempre de uma maioria qualificada, de um mínimo de dois terços, o que pressupõe pelo menos uma convergência de posições entre o Partido Social Democrata e o Partido Socialista. E foi a ausência dessa convergência que fez com que nesta legislatura não pudesse haver revisão constitucional. Não acho que haja uma urgência na revisão constitucional, mas acho que há necessidade dessa revisão. Não falaria em urgência, falaria, antes, em necessidade. E há necessidade porque, tal como já referi, as sociedades estão permanentemente em evolução, e a Constituição da República, que é a lei fundamental, é uma lei que não é um dogma de Fé, é uma lei feita pelos homens e tem de, necessariamente, acompanhar a evolução da sociedade. Por isso é que com regularidade, normalmente cada cinco ou dez anos, é útil e necessário rever-se a Constituição. Não revolucionar mas rever, para a atualizar para os novos desafios.

Qual das áreas do seu ministério mais o fascina? Porquê?

Apesar de tudo, as responsabilidades que mais relevo são as que tenho ao nível do Conselho de Ministros, porque é aí que se tomam as decisões mais importantes, mais transversais do Governo. Cada ministro tem a sua área de responsabilidade e toma decisões no seu dia a dia, quotidianamente, relativamente ao seu setor de atividade. Mas as grandes decisões e as grandes linhas de políticas públicas são definidas no Conselho de Ministros. A responsabilidade que eu tenho, enquanto ministro da Presidência, obviamente sob a coordenação do primeiro-ministro, de preparação e trabalho relativamente a toda a atividade deliberativa do Conselho de Ministros, não me deixa indiferente. Esta é uma área de grande responsabilidade, mas também não deixa de ser uma área que, em termos de     serviço ao país, dá uma realização bastante grande.

 

O Conselho de Ministros aprovou uma resolução visando promover um maior equilíbrio na representação de mulheres e homens nos órgãos de decisão das empresas e instituiu mecanismos de promoção de igualdade. Portugal é, ainda, um país onde as mulheres são relegadas para segundo plano?

Eu não diria para um segundo plano, mas somos ainda, com certeza, um país onde existe um tratamento desigual. Tal acontece em Portugal, como de resto na generalidade dos países no mundo inteiro. Posso dizer-lhe, por exemplo, que mesmo nos países nórdicos, que são normalmente apontados como países muito avançados em termos de promoção da igualdade de género, existem grandes desigualdades a nível da diferenciação salarial. A Suécia, por exemplo, tem desigualdades salariais mais profundas do que Portugal. Eu acho que este é um problema da cultura ocidental. Não estou a dizer que no resto do mundo essas desigualdades não sejam ainda piores, mas falemos da Europa, de nós próprios. Esta questão tem vindo a ganhar avanços seguros e sólidos, ao longo dos últimos 20, 30 anos, mas continua a haver um caminho muito importante para percorrer. Falando de Portugal, essa decisão do Conselho de Ministros inscreve-se num conjunto de decisões que têm vindo a ser tomadas ao longo dos últimos três anos. Eu tenho responsabilidade, atualmente, nesta área da igualdade, e conheço bem essas desigualdades. Elas devem ser combatidas permanentemente, até pelo desperdício que isto representa para a sociedade. Existem mais mulheres no Ensino Superior do que homens, se isso não for aproveitado em termos da economia e da sociedade, há um desperdício enorme de recursos para a sociedade.

No próprio aparelho do Estado faltam mulheres em cargos de liderança em Portugal?JCF_6514

Faltam. Embora tenha havido, por decisão deste Governo, uma aposta clara e uma obrigação de todas as nomeações ao nível do setor público e empresarial, a nível dos cargos de direção, de se observar sempre um patamar mínimo de pelo menos um terço do género menos representado. Posso dizer-lhe que no Conselho de Ministros, por exemplo, nos últimos 15 meses, mais de 35% das nomeações foram de mulheres, cumprindo a meta que propusemos a nós próprios, que era uma meta mínima de um terço. Mas quando se olha para a totalidade, para a globalidade dos cargos de dirigentes ao nível do setor público, seja empresarial, seja da administração, continuamos a ver poucas mulheres. Eu acho que este é um problema cultural, das sociedades europeias, contra o qual se deve continuar a lutar.

Que prioridades quer destacar para a área do Desporto? Sabemos que já foi concretizado o projeto “Cidade do Futebol”, sem um cêntimo de investimento público, só com o financiamento da Federação Portuguesa de Futebol, UEFA e FIFA…

O exemplo da “Cidade do Futebol” é exatamente o exemplo do que eu pretendo, e tenho desenvolvido, enquanto responsável na área do Desporto. O apoio ao desporto é uma obrigação – que está inscrita na Constituição –, pois o Estado deve criar as condições para a prática de desporto por parte dos cidadãos. Para isso, existem mecanismos de reconhecimento público desportivo às federações que gerem as várias modalidades e, do meu ponto de vista, a política de desporto deve passar não por um dirigismo centralista por parte do Estado, mas por uma verdadeira relação de parceria entre o Estado e as federações desportivas. Desde que tenho responsabilidades nesta pasta tenho procurado desenvolver essa política de parceria efetiva com as federações, permitindo que os meios, os equipamentos e as instalações públicas, que até aqui eram geridas diretamente pelo Estado, passem a ser dirigidas pelas federações. Se a lei reconhece utilidade pública desportiva a essas federações e confere-lhes poderes de representação do Estado junto dessas práticas desportivas, nomeadamente a nível de constituição de seleções nacionais – de representação nacional no exterior –, da organização de provas e campeonatos nacionais, é natural também que o Estado coloque as instalações, os meios e os equipamentos que tem ao seu dispor na gestão das federações. A “Cidade do Futebol” é um exemplo, como também o é a parceria que contratualizámos com a Federação Portuguesa de Golfe, relativamente ao campo de golfe nas instalações do Jamor; a parceria com a Federação Portuguesa de Ténis; com a Federação Portuguesa de Remo e Canoagem, portanto é esse o caminho, o da parceria. Até porque, na minha opinião, a sociedade e a democracia portuguesa estão suficientemente maduras para haver uma emancipação da própria sociedade civil no relacionamento que tem com o Estado. O Estado tem de deixar de ser o “paizinho”, que tutela diretamente as atividades da sociedade civil, para passar a ser o parceiro que, ao lado da sociedade civil, constrói um país melhor.

Como é que o Governo tem encarado a altíssima taxa de desemprego entre os jovens? Que medidas propõem para alterar esta situação?

O desemprego é, em termos de política de qualquer Governo, o principal problema, porque é um problema económico e um problema social. Cruza os dois aspetos fundamentais da atividade política, que é desenvolver socialmente o país através da criação de mais riqueza, através do desenvolvimento económico. O desemprego afeta as pessoas, tanto individualmente – do ponto de vista social é um drama terrível – como em termos económicos, já que atrasa o desenvolvimento económico do país. Se formos menos a trabalhar para criar riqueza, o país criará menos riqueza para distribuir por todos. As políticas erradas aplicadas ao longo de muitos anos e professadas por partidos à esquerda que se acham progressistas são marcadas por um protecionismo enorme a quem já está no mercado de trabalho, criando condições cada vez mais adversas, cada vez mais difíceis, para o acesso das novas gerações a esse mesmo mercado de trabalho. A flexibilização tem sido, por isso mesmo, uma necessidade urgente. As reformas que foram feitas nos últimos três anos e meio, quer ao nível da legislação laboral, quer da atividade económica propriamente dita, com o aligeiramento das regras de licenciamento, com o abaixamento de custas para a criação de empresas, o fomento do empreendedorismo individual, são políticas que têm de ser prosseguidas de forma persistente ao longo dos próximos anos, precisamente para inverter essa situação. Desde o início deste mandato foi possível baixar um pouco a taxa de desemprego ao nível das camadas jovens. É um problema que não é só português, é europeu, aliás é uma das prioridades erigidas pela Comissão Europeia ao nível das políticas europeias. Em Portugal, ainda estamos muitíssimo longe de uma situação sequer confortável, mas temos dado passos nesse sentido, nomeadamente através de programas como o Impulso Jovem, que foi agilizado por este Governo e depois seguido a nível europeu através do programa Garantia Jovem – obviamente com muitos mais meios e recursos porque é um programa europeu – e que vem substituir, com vantagem, a iniciativa inédita que na altura tivemos com o Impulso Jovem. O combate ao desemprego jovem faz-se através de políticas deste tipo, políticas ativas, para dinamizar a criação de emprego e o apoio ao emprego de jovens nas empresas, ou o fomento do empreendedorismo para que os jovens criem o seu emprego próprio. É por aí que temos de prosseguir e esta tem de ser, quer para este Governo quer para qualquer outro, a primeira das prioridades.

O que mudou na atribuição de vistos Gold? As regras com a sua atribuição estão mais apertadas?

Houve a necessidade de dar uma maior transparência ao modelo e, por outro lado, de poder alargar o seu âmbito de ação. Os vistos Gold estavam muito focados, inicialmente, no investimento no imobiliário, e as propostas que o Governo agora apresentou são no sentido de manter esse investimento no imobiliário, mas ao mesmo tempo alargar o investimento às áreas da investigação científica, da cultura, da reabilitação urbana. É preciso dizer, em qualquer circunstância – e eu não quero deixar de o fazer –, que os vistos Gold são um sucesso. Independentemente do caso de polícia que infelizmente ocorreu, são um sucesso. Haverá que combater os infratores, mas isso não pode nunca pôr em causa um mecanismo de grande interesse e de grande sucesso para o país. Repare que programas semelhantes a este existem numa dezena de países da Europa, desde logo aqui ao lado, em Espanha, e se os investimentos não forem realizados em Portugal, serão, seguramente, realizados nos outros países. Portanto, seria um erro dramático, por causa de um caso de polícia, pormos em causa um programa de sucesso e que beneficia muitíssimo o investimento no nosso país, mais de mil milhões de euros até final de 2014 – e bem que precisamos desse investimento.

 

Estas regras mais apertadas estão a fazer diminuir o número de vistos Gold em Portugal?

Não, muito pelo contrário. A incerteza que foi gerada aquando do caso de polícia, em Portugal, e que levou à detenção dos responsáveis que terão usado as suas posições em proveito próprio, deu origem a uma queda momentânea do investimento em Portugal, o que é natural. Mas a superação dessa situação já fez com que os dados do mês de janeiro e de fevereiro revelem, de novo, uma subida do investimento em Portugal, através dos vistos Gold. E graças à nova legislação, que já está na Assembleia da República, penso que temos todas as condições para retomar uma trajetória de crescimento desse mesmo investimento.

 

É a favor da continuidade da coligação PSD-CDS nas próximas eleições legislativas?JCF_6494

Sou, a partir do momento em que os dois partidos se continuem a rever num projeto comum. O PSD e o CDS são partidos diferentes, mas que têm conseguido, em situações particulares da vida política nacional, pôr-se de acordo em objetivos comuns. É isso que faz as coligações do Governo e foi extraordinariamente importante para Portugal, na situação dramática de bancarrota em que o Partido Socialista deixou o país em 2011, ter havido essa convergência entre o PSD e o CDS numa política comum para resgatar o país da situação dramática em que estava colocado. Mas há ainda um trabalho grande pela frente a fazer, e eu espero que os dois partidos se possam entender para continuar o caminho comum que percorreram       até aqui.

 

Caso o PSD vença as próximas eleições, estará disponível para integrar novamente o Executivo?

Não faço ideia, não faço esse tipo de futurologia e não dependerá só de mim esse tipo de decisões. É, em primeiro lugar, uma decisão de quem ganhar as eleições. Se o PSD ganhar as eleições, Pedro Passos Coelho será de novo primeiro-ministro de Portugal e caberá a ele escolher a sua equipa e tomar as suas opções. Pela minha parte, a única coisa que posso dizer é que me revejo na necessidade de o país continuar neste caminho e tudo farei para que possa continuar a percorrê-lo. O que tanto pode ser feito no Governo como em qualquer outra função. Não é só no Governo que se trabalha para o bem do país e é preciso que todas as pessoas tenham essa noção, porque senão seria um fardo demasiado pesado sobre os ombros dos 14 ou 15 ministros que compõem o Governo.



Categoria: Grande Entrevista

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