FERNANDO ARAÚJO

“O QUE NOS DISTINGUE É MUITO MAIS DO QUE A COMPETÊNCIA OU A  EXPERIÊNCIA DOS NOSSOS RECURSOS,  É A DEDICAÇÃO E O HUMANISMO QUE COLOCAMOS AO SERVIÇO DOS DOENTES” 

Depois de ter feito parte do anterior Governo como secretário de Estado Adjunto da Saúde, Fernando Araújo é atualmente presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário São João (CHUSJ), no Porto, que celebrou recentemente 60 anos de atividadeDestacando a forma exemplar como os profissionais de saúde, em geral, e do CHUSJ, em particular, têm trabalhado durante a pandemia que estamos a enfrentar, Fernando Araújo revela que tem sido um privilégio” liderar aquela instituiçãoNa sua opinião, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) não estava preparado para enfrentar um problema de saúde pública como aquele que estamos a viver: “O SNS não estava preparado para um desafio deste tipo, com este carácter de imprevisibilidade, de abrangência e de impacto em todas as dimensões”. Contudo, e avaliando a resposta dos diferentes meios disponíveis nesta segunda vaga, na opinião do presidente do Conselho de Administração, “é verdade que possuímos mais equipamentos médicos, mais recursos humanos, maiores reservas de consumíveis, nomeadamente de equipamentos de proteção individual, experiência em lidar com esta patologia e conhecimento científico da evolução da doença. No entanto, temos recursos humanos mais cansados, com menor capacidade de resiliência e de adaptação às elevadas exigências físicas e psicológicas, bem como continuamos sem um nível de organização do sistema de saúde que nos garanta uma resposta coerente e sustentada”. Relativamente ao cenário que se vive atualmente no CHUSJ, Fernando Araújo revela que “existe neste momento uma elevada pressão na procura, em termos de serviço de urgência e de transferência de doentes de outras unidades hospitalares, bem como níveis muito elevados de doentes internados, seja em enfermaria, seja em cuidados intensivos”. “De sublinhar que a generalidade das infeções em que é identificada a fonte ocorre fora do ambiente da instituição, sendo considerado extremamente seguro trabalhar no CHUSJ. Foi crítico, em termos estratégicos, implementar-se um conjunto de medidas que preveniram o contágio e transmitiram confiança aos profissionais, com o risco de colocarmos em causa a capacidade de intervenção da instituição”, conclui o presidente do Conselho de Administração. 

COMO É QUE UM HOSPITAL COM 60 ANOS, COMO O SÃO JOÃO, CONTINUA A CONSEGUIR REINVENTAR-SE PARA OFERECER SEMPRE MAIS E MELHOR À POPULAÇÃO QUE SERVE?

O CHUSJ é feito de pessoas, que ao longo de seis décadas se empenharam a transformar a instituição num projeto líder na área da Saúde. O que nos distingue é muito mais do que a competência ou a experiência dos nossos recursos, é a dedicação e o humanismo que colocamos ao serviço dos doentes. Felizmente temos disposto de gerações de excelentes profissionais que conseguiram transformar o hospital ao longo dos anos, preparando-o para o futuro, inovando e dispondo das mais avançadas tecnologias e fármacos.  

É UM ORGULHO SER PRESIDENTE DO CONSELHO DE AMINISTRAÇÃO DE UM DOS MAIORES HOSPITAIS DO PAÍS, OU, PELO CONTRÁRIO, É UM FARDO BASTANTE PESADO? 

Neste ano de 2020 tem sido um privilégio liderar esta instituição. Naturalmente, é de enorme complexidade, com períodos muito complicados, pela pressão da procura, pela dificuldade de resposta, pelos constrangimentos externos, nomeadamente logísticos. Mas é naturalmente com imenso orgulho que assistimos à generosidade dos profissionais, em tempos adversos, focados no superior interesse dos utentes, colocando por vezes a sua vida e a dos seus familiares em segundo plano. 

NESTE MOMENTO CONSIDERA QUE É MAIS DIFÍCIL SER PRESIDENTE DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DE UM HOSPITAL PÚBLICO DO QUE GOVERNANTE?  

Tendo tido uma experiência no anterior Governo, é verdade que as medidas que tomamos, a nível nacional e transversais, possuem não apenas maior visibilidade, como maior impacto nos vários setores da sociedade. Mas a dificuldade de gestão de um grande hospital público, tendo de responder de forma direta e imediata às necessidades dos profissionais e doentes, torna este exercício de uma extrema dificuldade, que trouxe desafios imprevisíveis neste ano de 2020. Também, e em abono da verdade, transporta fatores reconfortantes, pelo facto de podermos observar os resultados a surgir e os problemas a resolverem-se. 

O SNS ESTAVA PREPARADO PARA ENFRENTAR UM PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA COM A GRAVIDADE DAQUELE QUE ESTAMOS A VIVER? 

O SNS não estava preparado para um desafio deste tipo, com este carácter de imprevisibilidade, de abrangência e de impacto em todas as dimensões. Não se tratava apenas da limitação de equipamentos, nomeadamente ventiladores, mas de unidades de cuidados intensivos, internamentos com exigências técnicas diferenciadas, espaços nos cuidados de saúde primários e nos serviços de urgência, ou até condições na linha de apoio SNS24. Por outro lado, não existiam em número e com a formação adequada os profissionais de saúde necessários para se conseguir uma resposta adequada, nos vários eixos, desde a saúde pública aos cuidados paliativos. Mas a grande lacuna era sem dúvida a organização do sistema e a capacidade de preparar a rede, num curto espaço de tempo, para um acontecimento deste tipo. 

CONSIDERA QUE PORTUGAL ESTÁ MAIS BEM PREPARADO – TAL COMO AFIRMA, REPETIDAMENTE, A MINISTRA DA SAÚDE – PARA ENFRENTAR ESTA SEGUNDA VAGA DA PANDEMIA? 

Em termos da segunda vaga, é verdade que possuímos mais equipamentos médicos, mais recursos humanos, maiores reservas de consumíveis, nomeadamente de equipamentos de proteção individual, experiência em lidar com esta patologia e conhecimento científico da evolução da doença. No entanto, temos recursos humanos mais cansados, com menor capacidade de resiliência e de adaptação às elevadas exigências físicas e psicológicas, além de que continuamos sem um nível de organização do sistema de saúde que nos garanta uma resposta coerente e sustentada. 

QUAL É A VERDADEIRA SITUAÇÃO NO HOSPITAL DE SÃO JOÃO? 

No CHUSJ, existe neste momento uma elevada pressão na procura, em termos de serviço de urgência e de transferência de doentes de outras unidades hospitalares, bem como níveis muito elevados de doentes internados, seja em enfermaria, seja em cuidados intensivos. Nesse sentido, e de acordo com a ativação do nível 3 do plano de contingência, foram já alocados vários serviços médicos e cirúrgicos a doentes Covid, a diversas unidades de cuidados intensivos, para podermos dar resposta aos cerca de 200 doentes infetados internados, para além da redução da atividade programada, nomeadamente cirúrgica. No entanto, ao contrário da primeira vaga, deparámo-nos com duas dimensões diferentes do contexto, que condicionam de forma relevante o plano: a procura de doentes não-Covid manteve-se em níveis elevados, própria desta época, limitando a capacidade do hospital de transmutar áreas de internamento; e o número de profissionais infetados, de quarentena ou a prestar apoio à família (nomeadamente a filhos que têm de ficar em casa devido a restrições escolares) aumentou de forma preocupante, devido à ausência de confinamento da sociedade, colocando em causa a capacidade de prestação de cuidados de saúde, nomeadamente em áreas em que o número de profissionais é altamente especializado e limitada a capacidade de intersubstituiçãoDe sublinhar que a generalidade das infeções em que é identificada a fonte ocorre fora do ambiente da instituição, sendo considerado extremamente seguro trabalhar no CHUSJ. Foi crítico, em termos estratégicos, implementar um conjunto de medidas que preveniram o contágio e transmitiram confiança aos profissionais, com o risco de colocarmos em causa a capacidade de intervenção da instituição. 

QUAL O NÍVEL ATUAL DO VOSSO PLANO DE CONTINGÊNCIA? 

Em função da previsão da evolução da epidemia na região Norte e do planeamento interno da instituição, devemos passar nos próximos dias para a última fase do plano de contingência, o que significa reduzir de forma muito significativa a atividade eletiva, nomeadamente em termos de cirurgia programada (especialmente a cirurgia convencional, tentando preservar a cirurgia de ambulatório), e transferir parte substantiva da consulta externa para o regime não presencial. 

O VOSSO PLANEAMENTO PREVÊ QUE O REAL AGRAVAMENTO SÓ OCORRA ENTRE DEZEMBRO E JANEIRO? 

O planeamento do plano de contingência para o outono-inverno começou a ser delineado no final de março, ainda em plena primeira vaga da crise epidémica. Percebeu-se claramente que iríamos ter pelo menos uma segunda vaga, cujo impacto iria ser em período sazonal de aumento de afluxo por patologia respiratória, que poderia tornar o ambiente extremamente complexo e disruptivo. Nesse sentido programaram-se intervenções infraestruturais no serviço de urgência, cuidados intensivos, patologia clínica e no centro de ambulatório, de forma a preparar as condições físicas para este contexto. Criou-se um novo armazém e efetuaram-se reservas estratégicas de equipamento de proteção individual e de testes laboratoriais. Adquiriu-se um conjunto relevante de equipamentos médicos, que permite criar as bases para uma medicina de excelência. Contrataram-se recursos humanos e deu-se formação. Alteraram-se fluxos e procedimentos, mudaram-se práticas e culturas. Construiu-se uma nova versão do plano de contingência, alicerçada nas boas práticas e na experiência nacional e internacional, entretanto obtida, que foi discutida exaustivamente pelos vários serviços e profissionais, para que a versão final envolvesse a comunidade hospitalar, fosse integradora e do conhecimento de todos. O estado de prontidão e a capacidade de prever e agir antecipadamente tem sido a chave para o sucesso interno nesta dura batalha. O facto de os profissionais perceberem claramente esta dimensão tem sido fundamental para ganhar a confiança e a abertura para o esforço que tem sido solicitado diariamente a cada um. Sentem que o seu árduo trabalho não é em vão nem utilizado de forma caótica, em resposta ao que vai acontecendo. E acima de tudo, sentem que possuem a capacidade de fornecer aos doentes a resposta mais diferenciada em saúde, e tal é motivo de satisfação profissional e de empenho, no meio de todas as adversidades. 

EXISTEM MUITOS DOENTES QUE ESTÃO A SER “NEGLIGENCIADOS” DEVIDO À COVID-19? O QUE É QUE O HOSPITAL DE SÃO JOÃO ESTÁ A FAZER PARA ALTERAR A TENDÊNCIA QUE SE TEM VERIFICADO ATÉ AGORA? 

No que concerne aos doentes não-Covid, o plano de contingência do CHUSJ foi construído de forma a evitar a suspensão relevante das atividades programadas, até ao limite do possível. O impacto para os doentes do adiamento da atividade na primeira vaga foi importante em morbilidade e não era de todo desejável uma repetição desta abordagem, em termos de cuidados de saúde. Nesse contexto, a organização da instituição e dos serviços foi no sentido de privilegiar a atividade adicional nos meses de junho a outubro (foi o verão em que se operou mais doentes no CHUSJ e conseguiu-se recuperar parte da atividade de consultas externas) e manter o máximo de produção mesmo durante a segunda vaga. Atualmente a limitação mais importante nesta visão prende-se com o suporte de cuidados intensivos, pelo que se tenta manter a atividade do ambulatório, bem como a produção convencional em áreas de oncologia urgente e patologia cardiovascular muito grave. 

 SÃO AS PESSOAS QUE TÊM MEDO DE SE DESLOCAR AO HOSPITAL OU, PELO CONTRÁRIO, É O HOSPITAL QUE NÃO TEM CONDIÇÕES PARA AS RECEBER? 

Os doentes têm tido uma taxa de falta às consultas e cirurgias acima do que acontecia em 2019, fruto de algum receio em se deslocarem ao hospital ou mesmo por estarem infetados ou de quarentena. Nesse sentido, temos tentado informar e sublinhar o carácter seguro do ambiente hospitalar, remarcar consultas e cirurgias adiadas e convocar novos doentes, de forma a evitar perdas de tempos cirúrgicos ou de consulta. 

ESTAVA NO GOVERNO QUANDO FOI LANÇADO O PROJETO-PILOTO DA INTEGRAÇÃO DAS FARMÁCIAS NA VACINAÇÃO CONTRA A GRIPE NA POPULAÇÃO COM IDADE IGUAL OU SUPERIOR A 65 ANOS. A VACINAÇÃO É ESTE ANO QUASE QUE OBRIGATÓRIA PARA TODOS. EXISTEM VACINAS EM NÚMERO SUFICIENTE? AS FARMÁCIAS E OS CENTROS DE SAÚDE VÃO TER STOCK DISPONÍVEL? 

A vacinação contra a gripe é de uma importância crucial em termos de saúde pública. A proteção que confere aos cidadãos mais vulneráveis e aos profissionais de saúde contribui para assegurar a sustentabilidade do sistema de saúde e a saúde individual. Neste contexto as farmácias de comunidade são agentes imprescindíveis, pela sua capilaridade no território nacional, pela confiança dos utentes e pela competência dos seus profissionais. Qualquer estratégia neste âmbito deve incluir as farmácias comunitárias, que devem ter um papel mais ativo neste domínio. 

 QUE ANÁLISE FAZ AO ORÇAMENTO DO ESTADO PARA 2021, RELATIVAMENTE À SAÚDE?  

O Orçamento do Estado para o ano 2021, que ainda se encontra a ser discutido na Assembleia da República e, portanto, ainda sujeito a alterações na área da Saúde, aparentemente inclui um reforço orçamental. No entanto, em face do aumento de encargos com recursos humanos, do impacto da Covid-19 nos sistemas de saúde e do crescimento expectável da inovação em saúde, não parece ser suficiente e não nos permite alinhar uma trajetória de aproximação à média dos países da OCDE. Mas o mais relevante é não prever o aumento da autonomia com responsabilidade do SNS e dos hospitais, EPE [Entidade Pública Empresarial], relativamente ao Ministério das Finanças, que conduz necessariamente a uma limitação da sua capacidade gestionária e de redução da despesa inapropriada. 

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