BREXIT: DA POLÍTICA À ECONOMIA

 

Não existe uma saída do Reino Unido afortunada ou indolor. O Brexit é um cenário desastroso, mas uma rutura nas negociações seria, porventura, catastrofica.Todo o processo negocial está cercado por um dilema o acordo final não pode favorecer o risco moral daqueles que queiram sair. Não é admissível que o RU utilize estas negociações para obter melhores condições fora da União do que dentro. Isso seria nefasto para o processo de integração europeia. O Conselho Europeu do passado mês de outubro foi apontado, de véspera, como o “momento da verdade do Brexit”. Na verdade, foi mais um momento para se concordar em continuar as negociações, antecipando aquilo que parece inevitável. Nas palavras do negociador-chefe da Comissão Europeia, Michel Barnier, é necessário “mais tempo, muito mais tempo”, para se poder chegar a um acordo aceite nos dois lados do canal da Mancha. Apesar do otimismo evidenciado pelo Governo português quanto a uma possibilidade de entendimento naquele que será o último Conselho Europeu de 2018, os sinais recomendam maior prudência. O otimismo do “temos de chegar a uma conclusão até dezembro” é um wishful thinking que, tomando um desejo por realidade, não dispensa que o Governo português se prepare, política e economicamente, para qualquer um dos cenários, especialmente os mais gravosos.

Saída prejudicial

Não há como fugir ao assunto: a saída do Reino Unido é politicamente prejudicial para Portugal. Desde logo, porque continentaliza, em demasia, o centro político europeu, alimenta a falta de coesão entre regiões e países da UE, expondo-nos mais a um diretório político e, sobretudo porque reduz o nosso leque de aliados infuentes no debate europeu, ainda por cima um aliado com a mesma sensibilidade atlântica. Há por isso boas razões para adotarmos uma atitude politicamente determinada e economicamente ativa na proteção dos interesses nacionais.E embora pareça inquestionável a presença de Portugal no grupo de países de vocação marítima e atlântica do continente europeu, não deixa de ser perplexizante a incapacidade do Governo português em dinamizar uma estratégia atlântica norteadora do posicionamento de Portugal neste processo. A falta de comparência (para não dizer desinteresse) de Portugal às cimeiras que se têm realizado, periodicamente, entre três países da nossa dimensão – Irlanda, Dinamarca e Holanda –, com a mesma vocação atlântica, é não só merecedora de incompreensão como é inversamente desproporcional à sua importância estratégica. Decorre outra variável que importa destacar: as consequências do Brexit para a economia nacional, cujo impacto não é suscetível de relativização. A este respeito, cabe começar por destacar o recente estudo promovido pela Confederação Empresarial de Portugal – CIP (1), que veio preencher uma lacuna flagrante na avaliação dos efeitos potencialmente negativos do Brexit para a economia e empresas portuguesas, na identificação e graduação de riscos por setor e região e na deteção de oportunidades. Até à sua divulgação, este estudo, específico para o nosso país, estava por fazer. Estávamos apenas perante contas simples com números redondos e sem uma metodologia rigorosa.

Papel Relevante

Evidentemente, sendo o Reino Unido o nosso 4.º maior cliente e o 6.º maior fornecedor, um dos principais destinos dos fluxos de investimento estrangeiros entre os dois países, desempenhando um papel de relevo no financiamento das empresas estabelecidas em Portugal e na colocação da dívida pública nacional, um dos parceiros com os quais Portugal mantém relações mais estreitas na área da cooperação científica e intercâmbio universitário, um dos principais emissores de turistas para Portugal e, por último, um dos primeiros destinos da emigração portuguesa, não era difícil perceber o embate sobre a nossa economia.O ponto central é que Portugal se encontra entre as economias mais expostas ao impacto negativo do Brexit. O estudo promovido pela CIP aponta para um cenário alarmante, com reduções potenciais das exportações globais para o Reino Unido entre cerca de 15% e 26%. Outro estudo internacional prevê que a penalização para o ritmo de crescimento do nosso país se situe num intervalo de variação entre os 0,7% e os 0,9% do PIB. Não deixa de merecer relevo o apelo público do Governo às empresas portuguesas quando lhes pediu confiança. Em política, a confiança constrói-se através de sinais, é certo. Mas acima de tudo constrói-se através de medidas concretas. O caractere chinês para crise tem dois significados: crise e oportunidade. Convém refletir sobre os riscos e vulnerabilidades que se colocam às nossas empresas, segmentados no estudo referido, para que estas se possam preparar para reagir e responder devidamente. Mas importa também explorar as oportunidades identificadas. E estas oportunidades são particularmente visíveis no mercado europeu. Basta atender ao facto de oito dos principais mercados de exportação britânica serem europeus, para facilmente se depreender que o lugar que o RU deixar de ocupar na Europa será ocupado por outros países. Espanha é para o Reino Unido apenas o seu 10º mercado, mas, em valor, exporta tanto para o nosso vizinho como o total das exportações portuguesas. Portugal deverá definir com muita precisão quais os segmentos onde poderá ser mais competitivo e retirar vantagem.Tal como ficou claro numa das recomendações do estudo: o Governo deve desenvolver e implementar uma estratégia em termos de políticas públicas, com o mesmo objetivo.