LUÍS LOPES PEREIRA

6 de Outubro de 2017

ECONOMIA COMPORTAMENTAL PODE PRODUZIR MELHOR SAÚDE?

O processo da decisão médica envolve incerteza, complexidade e emoção, tal como as decisões dos consumidores em geral, que, longe de serem processadas com base apenas na lógica, são influenciadas por múltiplos fatores. Como exemplo ligado à saúde, se compararmos os países onde a doação de órgãos necessita de uma autorização escrita, em vida, com os países onde a doação de órgãos é aceite à partida, podendo ser revogada em documento escrito em vida, verificamos percentagens entre 4 e 27% no primeiro grupo e mais de 90% no segundo. A Economia Comportamental explica-nos que os consumidores preferem um café gratuito hoje do que dois na semana seguinte, que perder 100 euros é duas vezes pior do que ganhá-los, ou, ainda, o facto de que a escolha múltipla e oferta muito diversificada pode conduzir à inibição da compra. Atualmente reconhece-se que a saúde pode beneficiar da Economia Comportamental e alguns estudos são prova disso. Na Universidade da Pensilvânia, o Dr. Kevin Volpp, criador do Centro dos Incentivos de Saúde e da Economia Comportamental, fez um estudo com uma empresa para avaliar diferentes incentivos para os colaboradores deixarem de fumar. Foram criados três grupos: no primeiro foi implementado o tratamento normal, com materiais educacionais e apoio à cessação tabágica; no segundo grupo estava contemplado um programa de incentivos onde os colaboradores poderiam receber cerca de 800 dólares se deixassem de fumar em seis meses; no terceiro e último grupo os participantes eram obrigados a fazer um depósito inicial de 150 dólares e caso deixassem de fumar ser-lhes-ia restituído este valor, ao qual acresciam 650 dólares, totalizando os mesmos 800 dólares contemplados no segundo grupo. Em termos de resultados, o que teve maior aceitação foi o segundo grupo, mas o mais eficaz foi o terceiro (duas vezes mais eficaz do que o segundo e cinco vezes mais eficaz do que o primeiro). Um estudo semelhante foi realizado com pessoas que pretendiam perder peso, comparando dois grupos onde eram contemplados incentivos com um grupo de controlo. Num dos grupos com incentivos, mediante o cumprimento de determinados objetivos diários, os participantes eram eleitos para uma lotaria de pequenos prémios diários e ocasionalmente para grandes prémios. No outro grupo com incentivos, os participantes investiam o seu próprio dinheiro (alguns dólares por dia) e recebiam o seu dinheiro de volta, ao qual acrescia um extra caso atingissem os objetivos. Ambos os grupos onde foram instituídos incentivos perderam mais peso do que o grupo de controlo (sete quilogramas versus dois quilogramas ao fim de quatro meses). Mas o segundo grupo de incentivos, onde os participantes investiram o seu próprio dinheiro, perdeu bastante mais peso do que os outros. Em Portugal, o número de fumadores tem diminuído substancialmente nas últimas décadas (entre 2005 e 2014 cerca de 500 mil portugueses deixaram de fumar) e há mais centros no país para os cidadãos recorrerem, a fim de deixarem de fumar. No entanto, creio que a prática dos incentivos pode ser ponderada com o intuito de aumentar a eficácia destes tratamentos. Na obesidade não fomos ainda tão bem-sucedidos, mas seria bom encararmos este mal como fizemos com o tabagismo e procurarmos ser mais eficazes na sua diminuição, especialmente no que respeita à obesidade infantil. O conhecimento cada vez mais alargado da Economia Comportamental e os estudos que suportam a sua eficácia podem ser ferramentas poderosas na resolução mais rápida destas epidemias e comportamentos que cada vez mais atingem a saúde dos portugueses.



Categoria: Opinião

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