JOSE CARIA

10 de Abril de 2013

PORQUE NÃO TE CALAS?

 

As mais recentes declarações de António Borges sobre a necessidade de baixar o salário mínimo nacional trouxeram-me à memória a célebre tirada do rei Juan Carlos, na XVII Cimeira Ibero-Americana, perante o despropósito verbal do malogrado presidente venezuelano, Hugo Chávez: “Porque não te calas?” Não me interessa aqui discutir a validade económica do consultor governamental, mas sim assinalar a falta de sentido de oportunidade que o mesmo tem revelado, num ciclo de intervenções que nem os opositores deste Governo teriam conseguido melhor se o objetivo fosse desgastar politicamente Passos Coelho. Mas a culpa de Borges é repartida. Por um lado, é de quem o deixa falar, e aí reside o calcanhar de Aquiles deste Governo – a total ausência de estratégia política e de uma estratégia de comunicação. Até no plano tático as falhas são de palmatória, quadro que só contribui para adensar um clima de “mistério” sobre o que se passará nos bastidores da entourage política do atual primeiro-ministro. Por outro lado, a culpa é do Borges, porque padece, num grau já avançado, do mal ancestral e epidémico duma franja esclarecida de povo que povoa Portugal – a compulsiva necessidade de opinar, a qual, pela sua própria natureza cultural, é castradora da iniciativa do fazer. De facto é mais fácil falar do que fazer, é mais fácil criticar do que empreender, é preferível justificar do que reconhecer. Se calhar está na hora de arranjarmos um Juan Carlos, mesmo que não seja rei, que diga a toda esta gente: “Porque não se calam?” Passos Coelho devia começar por aí. Mandar calar todos os que andam a falar de mais e saber rodear-se daqueles que sabem o que falar e quando falar. Porque, na verdade, este é o único problema que este Governo tem. Porque, na verdade, pese embora tenham existido opções políticas erradas, que se chegue à frente quem, no quadro de condicionantes externas em que o país se encontra, revele coragem para agarrar “o boi pelos cornos”. Os portugueses não querem políticas cegas, discursos ocos ou promessa vãs. O descontentamento que grassa no país não é um ciclo de erosão virtual, é real. E é tão perigoso para o PSD como o é para socialistas, bloquistas ou comunistas. E todos estes estão cumplicemente a alinhar num jogo de oportunidade política que pode redundar na sua perdição e deixar clivagens sociais que poderão levar décadas a regenerar.  O esforço exigível, a uma pessoa, a um grupo, a um povo, para ver reconhecida a generosidade dessa entrega, implica sempre um caminho comum, uma meta temporal e uma clara compreensão do que está em jogo. Passos Coelho ainda está a tempo de dialogar com os portugueses, mesmo que tenha de recorrer a um qualquer Juan Carlos para mandar calar quem está apostado em não ver este país avançar.



Categoria: Opinião

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