ISABEL MEIRELLES

10 de Abril de 2012

OUSAR EMPREENDER, OUSAR VENCER

A dinâmica empresarial da Europa e de Portugal tem de ser fomentada de modo mais eficaz. São necessárias mais empresas novas e bem-sucedidas para ajudar a combater a crise em geral, e o desemprego em particular, que criem uma solução de saída para os tempos difíceis que estamos a viver. Porém, como primeiro obstáculo, segundo o Eurobarómetro, os europeus preferem trabalhar por conta de outrem a trabalhar por conta própria. Assim, a média da UE é de 45%, enquanto 67% dos cidadãos dos EUA prefeririam trabalhar por conta própria. Também para 46% dos europeus, “não se deve criar uma empresa quando existir um risco de que ela possa falhar”, enquanto que para os cidadãos dos EUA, esta percentagem é apenas de 25%. Para motivar os indivíduos no sentido de se tornarem empresários, é necessário transmitir-lhes o conceito de espírito empresarial, de forma a apresentá-lo como uma opção bastante sedutora. A attitude positiva relativamente ao espírito empresarial é especialmente importante junto daqueles de quem dependem os empresários atuais e futuros, como escolas, universidades, investidores, coletividades locais, regiões, organizações setoriais, consultores e meios de comunicação social, podendo ser incentivada através da divulgação de exemplos a seguir em histórias de sucesso. Porém, só o entusiasmo e atitude positiva não chegam e é, antes de mais, necessário alterar e melhorar fatores de estrangulamento, o primeiro dos quais reside no enquadramento regulamentar. Apesar dos esforços para melhorar a situação, os empresários consideram ainda a burocracia como um obstáculo de peso na gestão de uma empresa, em especial para os que desejam operar e prosperar no mercado interno e internacional. A regulamentação não difere, em geral, consoante a dimensão da empresa, afetando assim de forma desproporcionada as empresas mais pequenas. Também no âmbito da fiscalidade, segundo fator de estrangulamento do empreendedorismo, medidas adequadas podem contribuir para o desenvolvimento, o crescimento e a sobrevivência das empresas. A estrutura do sistema fiscal, incluindo o imposto sobre o rendimento, singular e coletivo, sobre o trabalho e o IVA, exerce influência sobre as possibilidades de expansão das empresas. A fiscalidade do trabalho prepondera, igualmente, na estratégia de contratação das empresas. Por outro lado, a complexidade dos sistemas fiscais em si constitui um encargo administrativo para os empresários, e à medida que as taxas dos impostos sobre os rendimentos marginais aumentam, os empresários tendem à expansão mais lenta das suas empresas, ao menor investimento e à menor contratação de pessoal. Outro ponto crucial de estrangulamento é o acesso ao financiamento, indispensável para o crescimento das muitas PME com dificuldades, na medida em que o mercado do capital de risco está subdesenvolvido e os bancos evitam cada vez mais os créditos com risco, pelo que se deveria pensar numa solução de acesso fácil a microcréditos. Outro ponto de fragilidade para o empreendedorismo é a legislação da insolvência, que deveria ser revista no sentido de reduzir os obstáculos aos empresários honestos que desejassem retomar a atividade, sem prejudicar indevidamente, claro está, os interesses dos credores, cuja relutância em investor em pequenos e novos projetos poderia aumentar. Finalmente, pedra de toque é o sistema de ensino, que pode contribuir decisivamente para a promoção do espírito empresarial, fornecendo as competências e os contactos. Nas universidades, a formação para o espírito empresarial não deve limitar-se aos alunos do MBA, mas também aos outros estudantes. Também nas universidades técnicas, a formação para o espírito empresarial pode contribuir para combiner os potenciais empresarial e tecnológico. Devia-se, aliás, começar no ensino básico, ensinando, por exemplo, a gerir uma empresa virtual. Convém não esquecer as oportunidades fornecidas pela União Europeia. Estou a referir-me, em particular, ao Erasmus para Jovens Empreendedores, que é um programa transfronteiriço que dá aos novos empreendedores, ou aos que pretendem sê-lo, a oportunidade de aprenderem com outros empreendedores mais experientes, como gerir pequenos negócios noutros países da União Europeia. A troca de experiências ocorre durante a estadia, permitindo que o novo empreendedor adquira as competências específicas necessárias para gerir uma pequena empresa, sendo a permanência parcialmente financiada pela União Europeia. O empreendedor de acolhimento beneficia também de novas perspetivas sobre o seu negócio e tem a oportunidade de cooperar com parceiros estrangeiros ou adquirir conhecimentos sobre novos mercados, bem como obter troca de conhecimentos e experiências, oportunidades de trabalho em rede em toda a Europa, novas relações comerciais ou mercados no exterior. Tudo isto é tão mais importante porquanto, com Estados falidos, são agora os empresários os condutores da economia de mercado e são os seus resultados que vão permitir que a sociedade disponha de riqueza, postos de trabalho e variedade de escolha para os consumidores.



Categoria: Opinião

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