FERNANDO LEAL DA COSTA

5 de Julho de 2016

JCF_0095-e1459968150653-300x195A GIGANTESCA AMEAÇA MICROSCÓPICA

Mais uma prova da importância do aumento da prevalência de infeções causadas por microrganismos resistentes a antibióticos foi a capa da edição de 21 de maio da revista The Economist ter sido dedicada a este assunto. A mortalidade e morbilidade associadas a estas infeções são geradoras de perda de produtividade e de elevados custos para um país. Simultaneamente, há uma oportunidade de negócio que tem sido “descurada” pelos investigadores e fabricantes de medicamentos. Até bem recentemente, as infeções eram vistas como um tema que dizia respeito a sociedades e países com menores índices de desenvolvimento sanitário e, por conseguinte, simultaneamente mais vulneráveis e menos capazes de pagar pelos tratamentos necessários. Esta visão, característica do fosso insalubre que separa dois mundos habitados por pessoas com direitos teoricamente iguais, é corresponsável pelo agravamento de uma situação de típico falhanço de mercado que só poderá ser resolvido através de uma intervenção dos Estados, idealmente com parcerias de desenvolvimento e investigação público-privadas. Esta é a tese de Dame Sally Davies, que no seu precioso e pequeno “The Drugs Don’t Work” (Penguin, 2013) alerta para a necessidade de abordar a resistência a antimicrobianos numa ótica de tratado ou convenção internacional vinculativa. As infeções que matam apesar dos antibióticos estão aí, à nossa porta, nos nossos hospitais, nas nossas ruas. Temos de o admitir, o aparecimento de um número crescente destes agentes é consequência do uso indevido e excessivo destes agentes terapêuticos, que mais não fez do que facilitar a propagação de micróbios com as mutações espontâneas que lhes conferiram vantagem seletiva em ambientes com elevada exposição a antibióticos. Como Darwin previu, os mais resistentes floresceram e são eles que poderão dominar o mundo microbiológico, e ameaçar o planeta dos procariotas, ou seja, o dos seres multicelulares como nós. Em Portugal, seguindo as recomendações da OMS e antecipando as recomendações do relatório final de Lord O’Neill, enviado ao primeiro-ministro do Reino Unido em 19 de maio de 2016, temos um programa prioritário de saúde pública, desde 2013, dedicado ao combate aos agentes infeciosos resistentes. A Fundação Gulbenkian, na sequência do Relatório de Lord Crisp (por favor, não acreditem que a saúde é coisa só de Damas e Lordes), tem também um programa que ajuda o Ministério da Saúde nesta luta. Não estamos desprevenidos, bem pelo contrário, estamos a fazer uma parte do que é necessário. Mas a parte que falta ainda precisa de decisões políticas que urge ter a coragem de tomar. Os preços para os antibióticos não podem continuar a ser tão generalizadamente baixos para uns, nem tão caros para outros, as farmácias têm de ser ainda mais restritivas na venda ao balcão, os médicos, incluindo os veterinários e dentistas, têm de ser mais rigorosos na prescrição e os consumidores precisam de compreender o significado da ameaça de tratar uma “gripe” com antibióticos. Na indústria agropecuária há limitações que precisam de ser impostas e fiscalizadas e deseja-se que a indústria farmacêutica investigue mais e melhores soluções. Este é um tema fundamental para consensos.



Categoria: Opinião

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