FERNANDO LEAL DA COSTA

6 de Outubro de 2017

AMBIENTE

Os recentes turbilhões de ar nas Caraíbas são mais um efeito visível do impacto do clima na saúde das pessoas. Trata-se de fenómenos limite, mas a frequência de efeitos extremos tem vindo a aumentar, ao mesmo tempo que se assiste a uma crescente violência nas consequências de fenómenos climáticos em todo o mundo. Vou abster-me de tecer considerações sobre o valor do “aquecimento global” na época dos furacões atlânticos de 2017, nos incêndios florestais na Europa, nas secas ou nas inundações. Não vou especular sobre causas, embora seja evidente que há um padrão de desregulação global que parece resultar da tendência estatística para o aquecimento da atmosfera. Também não é minha intenção discorrer sobre o significado dos gases poluentes na génese do efeito de estufa que poderá ser o condicionante principal para o aquecimento global. Posso, contudo, afirmar com segurança que o aparecimento de uma ilha de detritos no oceano Pacífico é o resultado de décadas de emissão desordenada de lixo para o mar. Tal como as marés de petróleo acontecem porque os homens as deixam acontecer. Se a incidência de cancro e outras doenças está a aumentar por causa da degradação ambiental, não sei. Provavelmente sim. Tenho mais certezas quanto ao efeito da poluição na asma, em particular nas cidades. Não tenho réstias de dúvida quanto aos efeitos nefastos de toneladas de produtos que todos os dias nos infestam, no peixe, na carne, nos vegetais que comemos. E, no entanto, uma larga parte da população mundial, nem toda, vive melhor e mais tempo hoje do que há 50 anos. Os antibióticos que nos salvam podem ser os mesmos que nos poluem. As estradas que nos encurtaram as distâncias e nos trazem socorro podem ser as mesmas que nos matam. Nada é apenas bom ou mau. Mas a constante agressão ao meio ambiente é motivo de preocupação séria e ninguém pode ficar fora da sua prevenção. É por isso que o aparente recuo dos EUA no que diz respeito à recusa de participar nas medidas previstas nos mais recentes acordos internacionais merece um aplauso especial. Afinal, não passou tudo de um susto? Esperemos que sim. Mais grave é a loucura do anúncio, vindo do neto Kim, de um eventual lançamento de uma bomba H sobre o Pacífico. Depois dos desmandos em Bikini e Muroroa, para quê fulminar e irradiar a flora e fauna de um oceano?  Qualquer acordo sobre proteção do clima torna-se irrelevante quando há quem se entretenha com ameaças de explosões nucleares. E, contudo, o bom uso da radiação nuclear tem a capacidade de salvar vidas. E os efeitos das guerras da Síria, Iraque e Afeganistão sobre a saúde de quem lá vive? Esquecem-se, os fanáticos que por lá se batem, que o processo de recuperação terá prazos de gerações? Não aprendemos nada com as pulverizações florestais na Indochina? O “agente laranja” matou e ainda mata. E o DDT? É tóxico mas já salvou vidas em África, enquanto arma de combate aos mosquitos que transmitem malária. O meu ponto é de que não devemos transformar as discussões sobre o ambiente em esgrimas de fações. Não se matem os carros de combustão antes de termos a certeza do valor protetor ambiental dos motores elétricos. Não critiquem as vacinas porque não são naturais, quando até o são. Não se sustentem guerras para construir a paz. Precisamos, num mundo em que as desigualdades também matam por via do ambiente em que os menos favorecidos são forçados a viver e onde se morre menos nas nossas poluídas cidades do que no delta do Ganges, de uma discussão continuada, evolutiva e consequente sobre o que podemos e devemos fazer para proteger a Terra que temos, a única onde, por enquanto, estes humanos podem viver.



Categoria: Opinião

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