JOÃO VAZ DE ALMADA

6 de Fevereiro de 2017

FotoDE BORGES PARA SOARES P.M.P.

Em junho de 2004, desloquei-me à Nicarágua em busca de histórias que resgatassem os restos do Sandinismo. Passavam então 25 anos sobre “La Revolución” que havia apeado do poder uma das mais longas ditaduras da América Central, encabeçada pela família Somoza.  A Frente Sandinista de Libertação Nacional, liderada por Daniel Ortega, estava na oposição desde 1990, ano em que uma histórica coligação de 14 partidos, a UNO (União Nacional da Oposição), a derrotou inesperadamente nas urnas. Entrevistei dezenas de pessoas durante aquele mês em que estive no país. O comandante Tomas Borges, à época o único fundador ainda vivo da Frente Sandinista, foi uma delas. Borges, de estrutura franzina, já na casa dos 70 e muitos, recebeu-me no seu gabinete. Envergando uma T-shirt com a silhueta de Che Guevara, cumprimentou-me efusivamente, naquele estilo informal dos revolucionários latino-americanos. Nas paredes, a “luta continuava” ao rubro, com fotos de encontros com grandes revolucionários de todo o mundo. Fidel, Raul, Che, Ho Chi Minh, Mao, Lumumba, Nkrumah, Chavez e muitos outros.  O comandante falou comigo com o mesmo entusiasmo com que se dirigia às massas naquela agitada década de 80, quando era ministro da Defesa do governo Sandinista, nos anos em que a pequena e paupérrima Nicarágua desafiava atrevidamente o poderio do gigante do Norte, liderado por Ronald Reagan. Contou-me que chegou a ordenar a distribuição de milhares de armas pela população, à espera de uma invasão yankee que nunca chegou. De vez em quando, no calor da conversa, dava-me um pequeno soco na barriga, seguido de um sorriso. Eu retribuía, mas ficava, obviamente, pelo sorriso. Quando, já no final do encontro, se deu conta que o artigo era para o jornal Expresso de Lisboa, inquiriu-me:

– Vais estar com o Mário Soares?

Eu disse-lhe que não era propriamente uma pessoa do meu círculo de amigos. Borges nem quis ouvir a resposta. Sacou de uma caneta e, sobre um papel timbrado com o seu nome, começou a escrever. No final, depois de rabiscar “un caluroso saludo”, explicou:

– Há uns anos tirámos uma fotografia juntos. Este bilhete é para lhe pedir uma cópia dessa foto para eu colocar aqui na parede.

Disse-lhe que ficasse descansado. Eu seria um bom correio.

E assim foi. Passados uns meses, li no jornal que Soares iria estar, em determinado dia, na sua Fundação para o lançamento de um livro. Era a melhor ocasião para lhe fazer chegar a encomenda de Borges.

No dia agendado desloquei-me à Fundação. Abeirei-me de Soares e, rompendo por entre um cacho que gente que o rodeava, disse:

– Senhor doutor, tenho uma carta para lhe entregar.

Soares, interrompendo a conversa, lançou-me um olhar espantado e perguntou:

– De quem?

– Do comandante Tomas Borges, da Nicarágua. Pede-lhe uma foto que tirou consigo há uns anos – esclareci.

E ele:

– Oh! O Borges é um castiço!

Agradeceu-me e chamou a secretária, dizendo:

– Dê, se faz favor, sequência a este pedido do comandante Borges.

Borges morreu há mais de quatro anos, mas acredito que tenha recebido a encomenda.

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Categoria: Opinião

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