CARLOS ZORRINHO

4 de Março de 2016

ZORRINHOPENSAR E AGIR

Foi a Eduardo Prado Coelho que ouvi primeiro uma expressão que muito me tem feito refletir ao longo da minha vida. Dizia ele, não me recordo se por ideia própria ou citação, que “um pensamento que se pensa é algo que pertence à esquerda, independentemente da posição política daquele que pensa”. Esta consideração é muito potente, sobretudo para distinguir a esquerda progressista, que se interroga sobre a realidade e a procura transformar, da direita conservadora, que de forma linear procura manter a tradição ou tirar o máximo partido da ordem “natural” das coisas.  O caminho da interrogação permanente não é, no entanto, um caminho fácil. Num ensaio recentemente publicado em Portugal pela Relógio d’Água – intitulado Dez razões (possíveis) para a tristeza do pensamento – George Steiner defende que “a tristeza oferece o fundamento sobre o qual assenta a consciência e cognição”, considerando que o “pensamento é rigorosamente inseparável de uma melancolia profunda e indestrutível”. Da conjugação entre as ideias antes esboçadas, só aparentemente contraditórias, concluo que talvez a chave da viragem e da adaptação da nossa sociedade aos novos desafios, esteja exatamente na relação entre o pensamento e a ação, evitando dois alçapões em que é difícil não cair. O primeiro alçapão é o alçapão da complexidade e da incerteza, que pode de facto conduzir à melancolia e a uma compreensão que se esgota em si mesma e se revela infértil na ação para a transformação. O outro alçapão é o alçapão da fragmentação e do ativismo, que sendo socialmente mais produtivo se pode muitas vezes esfumar em ações inconsequentes para a transformação progressista da sociedade. Encontro mesmo nestes dois alçapões alguma justificação para o surto anti-ideológico que vai grassando na sociedade moderna.  Cada vez mais pessoas exercem a sua ética e os seus valores face a uma realidade existente e não face a uma realidade ambicionada. Desistem de sonhar. Desistem de imaginar. Desistem de lutar. Eu acredito nas ideologias. Nos pensamentos que se pensam em função de valores e de princípios. Mas também acredito cada vez mais que essas ideologias se têm que adaptar aos novos tempos do instantâneo, do global, do veloz. Têm que se reinventar não como matrizes de pensamento ou como matrizes de ação, mas como modelos integrados de leitura e transformação. Para darem mais sentido à vida e melhor futuro à humanidade.



Categoria: Opinião

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