CARLOS ZORRINHO

8 de Fevereiro de 2016

ZORRINHOÂNIMO

O ano começou frio e chuvoso em Bruxelas, embora os dados meteorológicos confirmem que este tem sido até agora o inverno mais quente dos últimos 18 anos. Faço esta constatação em sentido literal embora a metáfora também se pudesse aplicar, em função dos múltiplos alertas e ameaças à segurança que têm ocorrido na capital belga desde o fatídico dia 13 de novembro dos atentados de Paris. O frio e a chuva parecem por estes dias ter estabelecido uma parceria com as ideias e com as palavras dos defensores do projeto europeu. Assolados por problemas em catadupa, desde a crise dos refugiados e migrantes, às transgressões democráticas em Estados-membros e às dinâmicas secessionistas nalgumas regiões, em particular no Reino Unido, alguns dos atores chave do processo europeu revelam algum desânimo. Ora o desânimo dos europeístas é um terreno fértil para os populismos nacionalistas. Faça chuva ou faça sol, é preciso que a União Europeia (UE) avance, faça acontecer, tome decisões concretas capazes de melhorar a vida dos seus cidadãos. Neste plano, a prática de governação que está a ocorrer em Portugal é determinante. A consolidação dos resultados encorajadores que se têm verificado será a confirmação de que mesmo com regras que necessitam de ser flexibilizadas e tornadas mais inteligentes, é possível governar no contexto da UE com sensibilidade social e foco no bem-estar das pessoas. Não faz sentido uma UE em que, como pretendem alguns, a “realidade” se sobreponha à capacidade de escolha política num contexto de debate democrático de ideias e perspetivas. A democracia, a liberdade e a solidariedade entre povos e países são aliás as “realidades” imperativas do projeto europeu. “Realidades” que parecem poder ser beliscadas mais facilmente do que os modelos tecnocráticos falhados que foram impostos nos últimos anos pelos defensores da austeridade e do empobrecimento. A UE e os defensores de um projeto europeu avançado e ambicioso precisam de ânimo. Ânimo para enfrentarem os múltiplos obstáculos com que se confrontam, mas ânimo também para contra-atacar fazendo avançar dossiers decisivos para mobilizar os europeus e recuperar a sua confiança, como as reformas globais na energia (União da Energia) e o posicionamento da UE face à nova revolução digital (União Digital). No plano da União Digital, que uso para exemplificar o que antes referi, a resolução do Parlamento Europeu aprovada em janeiro em Estrasburgo reafirma de forma muito estimulante os valores europeus, pugnando pela inclusão no acesso aos meios digitais (com tudo o que isso significa em termos de capacitação, infraestruturas e modelo económico), por um modelo de concorrência transparente e acessível às grandes e às pequenas empresas e por uma aposta em modelos mais sustentáveis de mobilidade, organização social e criação de emprego na indústria e nos serviços. Precisamos de mais Europa para fazer face aos desafios. Aproveitemos os domínios em que mais Europa está a emergir, para ganharmos o ânimo necessário para dar a volta aos problemas que geram o nosso descontentamento.



Categoria: Opinião

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