CARLOS ZORRINHO

11 de Maio de 2015

zorrinhoOS TEMPOS

Não é a primeira vez que uso este espaço para falar sobre o tempo. Não sobre o tempo meteorológico nem sobre o tempo axiomático, mas sobre os tempos das coisas e sobretudo sobre a separação cada vez mais forte entre o tempo da decisão e o tempo da comunicação e sobre a pressão que esses dois tempos exercem um sobre o outro nas sociedades democráticas modernas. No Parlamento Europeu, onde agora exerço o meu mandato político, mas já antes no Parlamento Nacional ou no exercício de funções de governação, constatei que convivem cada vez mais dois ciclos políticos. Por um lado, o ciclo curto, mediático, normalmente baseado numa figura regimental fraca como a resolução, cujo impacto comunicacional é elevado mas cujo sucesso no plano da decisão raramente é profundo. Por outro lado, o ciclo longo, baseado no processo legislativo ordinário, complexo, não raras vezes quase anónimo, com elevada caducidade mas também com elevado impacto quando terminado com sucesso. Ambos os ciclos são necessários, tal como a decisão é chave para a comunicação e a comunicação não vive sem decisão. O que é fundamental é que o entusiasmo com a velocidade em que vivemos não nos leve a trocar a ordem das coisas e a não respeitar o seu tempo (embora o tempo se tenha que ir desdobrando para matar a sede sempre maior da novidade). É neste quadro que sempre considerei que as narrativas são essenciais em política, não como guiões de planeamento inflexível, mas como quadros de referência, para dar sentido e coerência aos pequenos e aos grandes movimentos do quotidiano. É curioso analisar, à luz do tempo e dos ciclos da política, a recente decisão do partido estruturante da alternativa política em Portugal, de colocar em discussão pública um documento de ciclo longo como é o Quadro Macroeconómico de suporte à Agenda para a Década (uma narrativa quantificada sobre as dinâmicas económicas e sociais expectáveis face às escolhas políticas identificadas). Foi uma decisão de ciclo longo, que antecedendo uma campanha política crucial para o futuro do país se desdobrará agora em decisões de ciclo curto, preparadas para dar suporte à comunicação, mas ancoradas na matriz dinâmica de leitura entretanto já comunicada. No momento em que escrevo estas linhas não posso ainda avaliar todo o impacto público deste subtil mas muito interessante jogo do tempo. Este sobrepor do ciclo longo ao ciclo curto. Esta tentativa de assim conseguir comunicar o que é imediato e o que é mediato e conquistar uma relação de confiança e de credibilidade junto dos eleitores. Seja como for, e sabendo que esta narrativa não nasce do nada mas de um trabalho meticuloso de preparação levado a cabo por militantes e independentes, praticamente desde que os eleitores entenderam mudar a maioria política em Portugal, considero de grande mérito e valor político a sua apresentação transparente aos portugueses seis meses antes da sua escolha e dois meses antes da apresentação do programa eleitoral que definirá o molde como a narrativa se concretizará nos diversos domínios da sociedade. Trata-se de uma inovação política relevante. Num país tão carente de ambição e de inovação, ter a coragem de inovar politicamente começa por ser, só por si, um grande sinal.



Categoria: Opinião

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