CARLOS ZORRINHO

12 de Julho de 2012

A ÁRVORE DAS PATACAS

Portugal é uma nação forte de mais de oito séculos que sobreviveu sempre pela capacidade de se relacionar e de encontrar parcerias interessadas na cooperação com a nossa plataforma continental. Em certa medida precisámos sempre de complementar os recursos do solo em que penetrou a raiz fundamental da nossa nacionalidade com “árvores das patacas” que complementaram os nossos proventos em compensação da nossa sabedoria como diplomatas do mundo global. Macau, a origem imediata da expressão, é apenas mais um dos exemplos da capacidade dos portugueses de acrescentar valor em processos negociais com as sete partidas do mundo conhecido e a conhecer. A ideia da “árvore das patacas” não deve por isso ser desvalorizada. O respeito que ainda hoje os diversos povos com quem cooperámos nutrem por nós mostra que soubemos fazer valer cada “pataca” que lhes cobrámos. É por isso que é trágica a desistência do atual Governo de continuar a fomentar o papel de Portugal não como periferia, mas como país global, ponte entre civilizações, plataforma de bens, serviços e saberes. Não podemos permitir que essa visão mesquinha da nacionalidade e da identidade nacional se consolide e nos asfixie. Não esperemos encontrar em Bruxelas ou em Berlim a árvore das patacas. Aí o jogo está marcado e tudo o que conseguirmos será importante, mas devolvido em dobro ou em triplo. A nossa mais-valia está na multipolaridade. Nas relações com os cinco continentes. Na comunidade de povos de língua oficial portuguesa. Nos territories que herdaram o nosso ADN e parte da nossa matriz cultural. Na autoestima de termos construído a nossa identidade numa relação de troca e não numa relação de submissão. Se nunca fomos submissos nem tiranos, porque nos devemos submeter ou deixar tiranizar agora? Antes procurar de novo as árvores das patacas. Regá-las com carinho e colher o fruto com merecimento. Ser português não está ao alcance de todos. Os piores são os que se deslumbraram pelas luzes dos modelos dominantes e não entenderam o segredo da nossa resiliência. Mas nós somos resilientes, persistentes e no fim do jogo sobreviventes. Sobreviveremos de novo à crise que nos corrói. Uma crise de ambição e de desígnio. De ter a sombra da árvore e preferir o risco do deserto. Até ao próximo oásis.

 



Categoria: Opinião

Bem vindo à Frontline

Iniciar sessão

Esqueceu-se da senha?

Criar Registo Neste Site

captcha image