CARLOS MINEIRO AIRES

6 de Junho de 2018

A ÉTICA PESSOAL, PROFISSIONAL E EMPRESARIAL

De há uns anos a esta parte a sociedade tem sido abalada por escândalos sucessivos que, por serem impensáveis no quadro dos nossos brandos costumes, nos deixaram maioritariamente boquiabertos.

É certo que, apesar de historicamente vivermos no país das “cunhas”, um tráfico de influências socialmente aceite, senão mesmo recomendável, os casos de corrupção, compadrio, favorecimento, lavagem de dinheiro, fraudes, enriquecimento ilícito, etc., vieram abalar as nossas mentalidades, mais moldadas para os jeitinhos ou para o mexer os cordelinhos.Faço parte dos ingénuos e daqueles que acreditavam que tudo o que tem vindo alume seria impensável e, quiçá, impossível de acontecer no meu país.O que se tem passado na banca, onde o esbulho do dinheiro dos clientes depositantes não mereceu qualquer respeito,tendo servido para defender interesses e favorecer relações pessoais de interesse mútuo e remunerar desproporcionadamente serviços e favores, leva-me hoje a perceber a profundidade do pensamento de Bertolt Brecht, quando referiu que “melhor que roubar um banco, é fundar um”.Muito embora a crise financeira mundial tenha tido como causa próxima a bolha do crédito imobiliário, que veio a originar o colapso do banco Lehman Brothers, é visível que a rutura global do sistema se deve basicamente à podridão da governação dos bancos e à sua atuação articulada e à falta de princípios de quem os geria de uma forma algo leviana e, até, com sentimentos de impunidade.

FACTOS EM CIMA DA MESA

Hoje, chegam ao nosso conhecimento factos que indiciam toda uma rede que foi sendo paulatinamente montada, em que muitos dos autores eram idolatrados e mediaticamente entronizados, quando por detrás, conforme tudo indica, havia uma teia de favorecimentos e de interesses cruzados que movimentaram e favoreceram de forma desproporcionada, toda uma cadeia de intervenientes. No meio dessa gestão por objetivos, o país viu-se esbulhado de algumas “joias da coroa”, em alguns casos as melhores empresas tecnológicas e de serviços, ou seja, cada um de nós ficou mais pobre e perdeu a soberania em atividades cruciais para o nosso país.Perguntarão os leitores quem é o esquerdista que escreve este texto? Fiquem tranquilos, pois apenas quero conduzir o raciocínio para o essencial deste meu artigo, pelo que desde já clarifico que nada tenho contra os gestores, empresários e investidores que têm ajudado a economia do país, com o seu rasgo, com o seu esforço e com os investimentos que aqui fazem. Refiro-me, claro, a gente séria, empreendedora e que neste enquadramento ganha a sua riqueza e paga os seus impostos, sendo que a inveja também nunca me motivaria a escrever estas linhas.Vamos, pois, ao essencial. Se pensarmos bem, a origem da crise, e tudo o que hoje está a vir a lume em Portugal, reside na ausência total de ética, pessoal, profissional e empresarial, e até de responsabilidade social, já que a (ir)responsabilidade individual é evidente. Resumindo, falta de princípios e de escrúpulos.Os casos de corrupção, ativa ou passiva, e o (re)enriquecimento ilícito são atitudes eticamente reprováveis que nunca motivaram os intervenientes a questionarem-se sobre as razões e justificações para tanta generosidade e a desproporção das retribuições e ofertas.

ESTADO FACILITADOR

É certo que a falta de regulação em algumas das áreas que foram varridas por este furacão acaba por trazer à evidência um Estado facilitador e, por omissão,conivente, sendo que esta razão serviu para justificar muito dislate.O curioso é que todas estas empresas, bancos e demais intervenientes, certamente sem exceção, afirmação que arrisco fazer sem ter feito qualquer procura, foram pioneiros na adoção de princípios de boa governance, vertida em Códigos de Ética e Conduta, regras de compliance e best practices, o que significa que daí muito pouco resulta, salvo o descrédito. Numa época de crise de valores e de sucessivas notícias que, a todos os níveis (empresarial, político, desportivo, etc.), nos devem envergonhar, e em que as novas gerações de Portugal têm toda a legitimidade para se questionarem sobre o que se está a passar e como é que as coisas ocorreram, eis uma boa oportunidade para recordar que na vida, individualmente ou em conjunto,os princípios comportamentais, mormente os de índole ética, devem sempre prevalecer. A par da ética, a deontologia é a outra componente essencial para alcançar a virtude.“Para ter muitos amigos é indispensável ser muito pouco exigente”, uma máxima pouco económica e muito empresarial, de um livro do meu amigo José Manuel Moreira, que pode não ser universalmente aplicável, mas que dá que pensar.

por Carlos Mineiro Aires
Bastonário da Ordem dos Engenheiros



Categoria: Opinião

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