ADRIANO MOREIRA

4 de Março de 2016

JCF_2402ASSIMILAÇÃO E INTEGRAÇÃO

A assimilação foi um conceito social e político que ficou ligado à prática colonial dos ocidentais, e que em Portugal, além da relevância que teve a intervenção de Gilberto Freyre e do seu Instituto Joaquim Nabuco do Recife, perdeu muito da vinculação académica em favor da afirmada utilização política do doutrinador e da sua atribuída intervenção pessoal no apoio ao regime político português. Isso, quanto ao autor da Casa Grande e Senzala, não impediu que o seu constante crítico, Fernando Cardoso, quando presidente do Brasil, decretasse o ano 2000 como ano de Gilberto, e que o seu opositor Darcy Ribeiro, antigo e perseguido reitor de Brasília, deixasse escrito que, assim como a Itália seria outra sem Dante, a Espanha seria outra sem Cervantes, e Portugal seria outro sem Camões, o Brasil seria outro sem Gilberto. A difícil questão das migrações, em que centenas de milhares de homens, mulheres e crianças procuram salvar um futuro, perdendo a vida, veio repor a questão da assimilação, mas agora em consonância com a integração, ressuscitando uma herança do passado colonial europeu. A assimilação, que teve notações religiosas fundamentais, em vista da evangelização essencialmente católica, e isto desde o início das navegações e descobertas, mas que igualmente procurava a migração da cultura civil tradicional para a dos colonizados, foi nesta última versão posta em discussão e exercício, talvez a partir da discussão iniciada em 2009 em França, por iniciativa do ministro Éric Besson. Mas determinada pelas violências verificadas em Londres, Paris, e Madrid, que se agravariam até à atual intervenção do Estado Islâmico levando às medidas restritivas que tornam evidente um problema muçulmano na Europa, do lado dos europeus incluindo o que foi chamado a “instrumentalização do medo”, e do lado dos imigrantes, a orientar a formulação do conceito de “muçulmano europeu”, cobrindo milhares de crentes, sobretudo em França, na Itália, na Bélgica e na Alemanha. Alguns geopolíticos apontaram a possibilidade da islamização da Europa, não apenas pelo número crescente de migrantes, mas também pelas convenções, tornando difícil a manutenção do importante conceito de “identidade nacional”, e despertando a islamofobia, acrescentada aos antigos mitos raciais, circulando o discurso de 27 de setembro de 2001 do primeiro-ministro da Itália Sílvio Berlusconi, citável pelo cargo, onde proclamou o seguinte: “Não podemos colocar no mesmo plano todas as civilizações. Temos de ser conscientes da nossa supremacia, da superioridade da civilização ocidental que garantiu o respeito dos direitos humanos, religiosos e políticos, que não existem nos países islâmicos. O Ocidente continuará a ocidentalizar e impor-se aos povos. Isso já se verificou no mundo comunista e numa parte do mundo islâmico.” Esta liberdade de comparação não tem contribuído para evitar o outono ocidental, nem que tenha nascido uma consciência muçulmana europeia, que passou por duas fases: primeiro, os imigrantes foram recebidos como uma contribuição útil do ponto de vista da mão de obra, em geral mal protegida pelas leis, e depois, situação em que estamos, como ameaça à segurança, trazendo um conflito de respostas, entre os deveres humanitários, a defesa e o anti-islamismo. No fundo, é o problema da assimilação, em face do valor da identidade nacional, que está em causa, lembrando o passado colonial, que, todavia, usou tal política com sentido diferenciado: os portugueses falavam na adoção da maneira de viver, os ingleses na “força da assimilação” das instituições, ou, como que para manter a subordinação dos nativos, nasceu a “não-assimilação” combatida pela Revolução Francesa a favor da igualdade. Os movimentos anticolonialistas do século passado em muito se basearam na distância entre o dito e o feito em termos de igualdade, não tendo êxito a prudente adoção do conceito da “integração das diferenças” quando a credibilidade já estava perdida. Mas é este conceito que agora renasce, vista a dimensão das migrações voltar a crescer incluindo vozes muçulmanas contra as discriminações das suas práticas culturais, que não impediriam a fidelidade à vida civil pacífica, nem à nacionalidade fiel, logo que concedida. De facto, a instrumentalização do medo cresce de domínio na definição das medidas inspiradas pela segurança, a qual é um desafio mal apoiado numa época de ideologia orçamentista. O poder da palavra esmorece perante o pousio das instituições supranacionais que se organizam a pensar no desenvolvimento sustentado como nome da paz para o século. Das vozes encantatórias do fim da Segunda Guerra Mundial, neste novo século, ainda recordado de Gandhi e de Mandela, releva a pregação do Papa Francisco. Mas se a sua voz sustenta os confrontos do credo dos valores, enfrentando as dificuldades que tem de superar na reforma da estrutura eclesiástica, e não obstante o entusiasmo com que o seu franciscanismo fez rodear as viagens peregrinas aos lugares mais críticos, isso não tem sido suficiente para tornar credível, pelas populações em fuga, que “o desenvolvimento do Islão é protagonizado pelos moderados e não pelos extremistas”, porque são estes que fazem do medo o muro que impede até agora que o contacto interdependente e construtivo dos ocidentais, e do que estes chamaram “resto do mundo”, sejam alicerces participantes do património comum da humanidade em paz.



Categoria: Opinião

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