ADRIANO MOREIRA

8 de Outubro de 2019

RELIGIÕES, CIÊNCIAS E PAZ – Em 1835, no seu livro, que prendeu a atenção de toda a Europa, intitulado Vida de Jesus, David Strauss colocou em dúvida a historicidade dos Evangelhos, numa data que foi chamada de Europa Dominante (1789-1914). Poucos anos depois (1848), Ernest Renan, no seu L’Avenir de la science, anunciava a organização científica da humanidade. Escreve o seguinte: “É sobretudo sob a forma religiosa que o Estado velou até agora pelos interesses da humanidade. Mas desde que a religiosidade do homem se venha a exercer sob a forma puramente científica e racional, tudo o que o Estado despendia antes no exercício religioso será de direito entregue à ciência, única religião definitiva. Não haverá mais orçamento dos cultos, haverá orçamento da ciência, orçamento das artes.” No “Syllabus”, publicado logo em 1869 pelo Papa Pio IX, este apontava como um dos principais erros, do mundo do seu tempo, considerar “a Raça humana sem nenhuma relação com Deus e único árbitro da verdade e do erro”. Afrontava assim os ideários da Revolução Francesa, afirmando, contra o então “mundo moderno”, a autoridade revelada. De então em diante, no plano político ocidental, as Constituições consagraram progressivamente a separação entre a Igreja e o Estado, mas as quebras da paz internacional, com relevância para as duas Guerras Mundiais, acabaram com o rigor de considerar a “Europa Dominante”, repondo a questão da importância das Religiões, no plural, na busca de uma governação pacífica do globalismo em que nos encontramos.

Logo na fundação da ONU, em cuja Assembleia Geral tomavam assento, pela primeira vez na história, representantes de praticamente todas as diferentes culturas mundiais, com as diversidades religiosas inerentes, o grande secretário-geral Hammarskjöld, que foi prematuramente morto, organizou uma sala destinada à meditação de todas as fés, que de resto ali não têm representação institucional. Todavia aconteceu, neste longo período, que a Assembleia chamou a discursar, sobre o estado do mundo, os sucessivos bispos de Roma, Papas da Religião Católica: Paulo VI, que ali pregou que o desenvolvimento sustentado é o nome da paz para o nosso tempo; por duas vezes, João Paulo II, advertindo para a falta de igual liberdade dos povos; o Papa Emérito em defesa da autenticidade; e finalmente o Papa Francisco, o pregador de que “esta economia mata”.

Entretanto, o princípio fundador da Carta da ONU, que é o do “mundo único”, isto é, sem guerras, vê crescer o conflito armado entre os ocidentais, que procuraram ocidentalizar o globo, e os muçulmanos, estes com uma invocação crescente de valores religiosos, que contribuem gravemente para o avolumar da linha vermelha que separa os diferentes como inevitavelmente inimigos. É por isso que, identificados os graves problemas da ecologia, da igualdade das mulheres exigida pelas próprias Declarações Universais de Direitos Humanos, da condenação dos mitos raciais, da distribuição equitativa das riquezas, é imperativo prestar atenção às conclusões de Hans Küng, uma vida dedicada ao problema, sem omitir atenção às conclusões de Samuel Huntington sobre o que este chama “O Choque das Civilizações”, para meditar nesta convicção: “se os políticos, os diplomatas e os especialistas em direito ocidentais conhecessem melhor as outras religiões, estariam também mais dispostos não só a negociar, mas a dialogar”. Uma tarefa em que se empenha o Papa Francisco, que foram buscar ao fim do mundo. A paz solidária deve ser um valor participado.



Categoria: Opinião

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