ADRIANO MOREIRA

8 de Fevereiro de 2018

SOBRE O FIM DO COLONIALISMO   

O fim da guerra de 1939-1945, para além do projeto frustrado de uma paz sem vencidos, um conceito difícil de conciliar com o castigo final dos responsáveis pelos monstruosos crimes contra a humanidade, e de seguida pela transformação da aliança dos vencedores unidos pelo pragmatismo, logo transformados em líderes de conceções do mundo incompatíveis (NATO-VARSÓVIA), teve, na solução portuguesa, também depois de uma longa intervenção militar, que teve um ponto final com a mudança de regime político, um exemplo inesperado perante o ambiente internacional da época. Foi a criação da CPLP, um triunfo diplomático da nova gestão política apoiada por elites de cada um dos novos Estados, uma solução valorizada pelo facto de o projeto semelhante do então aclamadíssimo general De Gaulle ter sido recusado. Foi discutido na época ainda marcada pelo conceito da “Europa Luz do Mundo” a importância do triângulo Brasil, Angola, Portugal, com o todo identificado pela antiga soberania portuguesa, muito pela dinamização do projeto assumido pelo Brasil, e definindo-se como um conjunto de iguais. Acontece que, avaliando este modelo com a desordem do processo supostamente envolvente de uma construída governança mundial, a expressão que se vai vulgarizando para sublinhar a passagem do conceito de relações internacionais para os novos tempos não podia deixar de avultar a questão do continente americano, ao Norte agora agravado pelo vazio de conceito presidencial dos EUA, que perigosamente envia diárias mensagens ao mundo que não contribuem para a pacificação dos espíritos responsáveis, e ao Sul, na chamada América Latina, expressão que mais deve à história do passado do que à situação presente, o desmentido às previsões do abade Correia da Serra sucede-se de maneira inquietante. É evidente que, em primeiro lugar, esta imprevista situação afeta a própria busca da governança global, porque a interdependência cresce mesmo sem projeto. Mas também, ainda como circunstância limitada ao sul do continente, não pode deixar de se refletir na solidez de uma articulação solidária com as antigas metrópoles, no caso principalmente dos países ibéricos, Portugal e Espanha, que, cada um com seu trajeto e projeto, nem sempre de relação amigável, não podem alhear-se do que, em relação à América Latina, foi chamado “le retour du balancier”, por Saint-Upéry, antes do Le Rêve de Bolivar (2007), acompanhado nesta análise por Sunniva Labarthe. Os factos mais salientes, mas a produzirem-se como que em explosão destruidora, dizem respeito à Argentina com o insucesso de Mauricio Macri, à Bolívia com a derrota de Eva Morales, com a crise gravíssima da Venezuela onde a repressão governamental parece sem norma jurídica ou ética, a paz periclitante da Colômbia, e a imprevisibilidade da evolução futura de Cuba, quando o ideário de Castro acompanhar o fim do exercício do seu sucessor e irmão. Não existem aqui antagonismos entre Estados que somem necessariamente o risco global da quebra da paz em que ainda vivemos, mas uma surpreendente crise do progresso social, que tem levado a considerar a década anterior como uma ocasião perdida, agora agravada pela queda das matérias-primas, tudo contrariando as previsões moderadas da Comissão Económica para a América Latina e Caraíbas, da ONU, em 2014. Mas aquilo que mais interessa à CPLP e, portanto, a Portugal, é o processo político do Brasil, que foi o dinamizador da CPLP e do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, processo que lembra a experiência italiana das Mani Pulite, em fim do século XX, onde a intervenção judicial atingiu todos os partidos. É verdade que as facetas da crise da América Latina são de configuração variada, mas a dimensão cultural, científica, demográfica, e também, talvez sobretudo, no que respeita à segurança e paz na geopolítica incerta do século, que tem o Brasil, não pode deixar de suscitar uma solidariedade global da CPLP para que recupere rapidamente o futuro que lhe vaticinou Correia da Serra.



Categoria: Opinião

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