ADRIANO MOREIRA

6 de Novembro de 2017

UMA COOPERAÇÃO DE MÉRITO

No desfazer do regime colonial pelo programa da ONU, a qual, segundo a tradição da Sociedade das Nações que acabou com os Impérios de sede europeia (Alemão, Austro-Húngaro, Turco, Russo), colocou um ponto final no Império Colonial Euromundista (Holanda, Bélgica, França, Reino Unido, Portugal), a luta militar foi um pesado tributo, mais imposto pelo grito – deixem passar o meu povo – do que, neste caso, pela reivindicação nacional, que não era o valor existente. Isso não significou que, com o apoio sempre ao dispor da semântica, a hegemonia, ou a supremacia, fossem categorias que ou permanecem nas mãos dos antigos titulares do poder colonial, ou enriquecem a definição do estatuto internacional de emergentes. Tratou-se de um drama global que atenuou, mas não eliminou, muitas das situações de subdesenvolvimento, da falta de projeto de governança que se afastasse do modelo extrativo colonial findo, que impediria que mais de metade dos povos que entraram como Estados da ONU fossem incapazes de responder sequer aos desafios da natureza, como terramotos, tufões, secas, crises de saúde, pobreza extrema, e inimizade dos que tomaram o poder para com os colonizadores. Neste panorama, Portugal não recebe o seu passado a benefício de inventário, mas por isso mesmo deve colocar em relevo algumas diferenças em relação às restantes parcelas do Império Euromundista a que a ONU retirou a legitimidade. Entre essas diferenças, a mais conhecida, e publicamente noticiada com frequência, é ser a única potência colonial que organizou, com interferência valiosa do Brasil, a CPLP e o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, que se espera que venha a consolidar benefícios recíprocos dos parceiros, por vezes dificultados pela circunstância internacional. Mas às cooperações que aquelas organizações prestam e são divulgadas, soma-se a cooperação militar, certamente surpreendente para vários observadores menos atentos. Recentemente, o Jornal do Exército, que anunciava o Convénio de Admissão à Academia Militar para o ano letivo de 2017-2018, recordava que “a cooperação técnico-militar com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa já completara três décadas. Neste período, 2095 alunos e militares, oriundos de tais países, foram formados no nosso país, e 2078 militares do Exército estiveram no exterior em ações de assessoria”. Trata-se de uma cooperação que foi iniciada em 1986, devendo destacar-se a passagem de oficiais superiores em cursos de doutoramento nas universidades portuguesas, com êxito e louvor. É evidente que não podem omitir-se as conhecidas intervenções da Marinha e da Força Aérea em ações iluminadas pelos deveres humanitários em situações de crise, mas a Guerra Colonial é mais recordada com factos retidos pela opinião pública. Nesta data já apenas parte da memória da nova geração que não teve de a viver, mas que, sem benefícios de inventário, tem de avaliar e usar um passado que lhe permite enriquecer a política externa portuguesa, num clima de cooperação sem fácil equivalente na história de antigos colonizadores, e participando agora, em pé de igualdade, com esses novos Estados, em cujo futuro deste modo participamos, sem esquecer o passado. Numa época em que a crise de ordem mundial se agrava, os emergentes desmentem os projetos, as supremacias são a nova dimensão da falta de soberania e da igualdade das nações. Esta solidariedade é um exemplo e uma esperança de também inspirar modelos renovadores de cooperação e governança.



Categoria: Opinião

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