ADRIANO MOREIRA

3 de Março de 2017

jcf_2402A RENOVAÇÃO DO  CONCEITO ESTRATÉGICO NACIONAL

Entramos neste ano da graça de 2017 com uma espécie de redescoberta de que um Estado, sobretudo quando baseado na comunidade de afetos, que é uma nação, precisa de um conceito estratégico nacional. Admitindo que o Estado antecede de regra a Nação, como sustentou Lord Acton, o evidente é que o fundador D. Afonso Henriques teve um conceito estratégico nacional marcado pela independência como estatuto e pela reconquista como tarefa, que a Dinastia de Aviz, com D. João I e a excelente educadora que foi D. Filipa de Lencastre, apoiada nos Ínclitos Infantes, redefiniu o conceito nacional ao virar as costas ao Muro de Castela e adotando o Mar como futuro, que o doloroso intermédio Filipino, que presenciou várias edições dos Lusíadas, não afetou o conceito, como se viu com a Restauração e as fidelidades que a apoiaram, com a mudança do regime monárquico para República, invocando como dinamizador da mudança os interesses ultramarinos. Foi a crescente evolução para Estado exógeno, passando pelas duras provas da guerra de 1914-1918, e o fim do Império Euromundista nas consequências da guerra mundial de 1939-1945, que tendeu para colocar um ponto final na perspetiva que vinha desde o arranque para Ceuta. Com elite numerosa, em que os marinheiros se distinguiam, os factos levaram a que o Hino Nacional definisse o povo como Heróis do Mar, “salgado pelas lágrimas de Portugal”, segundo Pessoa. Decorrido mais de meio século sobre o fim daquela guerra civil dos europeus, que custou 50 milhões de mortos, e sobre o ponto final colocado no colonialismo português em 1974, proliferam os estudos, os ensaios, as propostas, sobre o Conceito Estratégico de Defesa Nacional, uma tarefa que parece não poder ser bem executada sem um prévio Conceito Estratégico Nacional para enfrentar o mundo globalista em que nos encontramos, na condição de Estado “exógeno”, isto é, submetido aos efeitos de decisões em que não participa, “periférico” segundo observadores que não se incomodam em explicar como se identifica a periferia desse globalismo mal sabido, “exíguo” pela relação negativa entre recursos e necessidades, e pela pressão de tantos fatores negativos, na situação de “protetorado”, que se distingue dos extintos pela ONU pelo facto de a submissão vir de instâncias internacionais que são, além do FMI, do Banco Central Europeu, e Comissão Europeia, centros não identificados de poder financeiro, e não de uma “soberania” superior em poder, e descuidada de respeitar a jurisdição interna. A comunidade de afetos, que é a definição mais apropriada para uma nação sólida, vai dando mostras de partilhar a desconfiança que por todo o Ocidente fere a relação com os centros formalmente investidos na função de governança, mas ao mesmo tempo o passado de dignidade que foi ferida, e agrava a incerteza do futuro não suscetível da prospetiva segura. Nesta inquietação, é natural que se procure encontrar exemplo e ânimo nas elites inspiradoras da formação da Nação e do conceito estratégico nacional esgotado.



Categoria: Opinião

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