CARLOS ZORRINHO

4 de Junho de 2018

A Tecnologia e as Crianças

Não podemos deixar que por causa da tecnologia os nossos filhos percam a capacidade de sonhar e de imaginar

Sob o tema “Há tecnologia a mais na vida dos nossos filhos?”, a revista Noticias Magazine, em parceria com a Representação em Portugal do Parlamento Europeu, organizou, no dia 5 de maio, em Lisboa, uma interessante conferência, amplamente participada, demonstrando que este é um tema profundamente atual e que mobiliza o interesse das famílias, dos educadores e de todos quantos se preocupam com o futuro.Coube-me partilhar com um pediatra (Paulo Oom) e um empreendedor (Manuel Laia) a animação de um painel moderado pela diretora do Diário de Noticias (Catarina Carvalho), cuja questão central era “Parece que eles já nascem ensinados. A partir de que idade é que as crianças podem ter acesso a ecrãs?”.A resposta a esta questão é obviamente variável. Depende do objetivo, do enquadramento e da inserção no processo formativo. É importante que os nossos filhos sejam saudáveis, felizes, aprendam a raciocinar de forma lógica e a decidir de acordo com valores e princípios que lhes permitam ser protagonistas de uma sociedade sustentável para viverem.Tendo comigo no painel um pediatra e um criador de jogos educativos, foquei a minha abordagem sobretudo nos valores que serão os alicerces de transformação para um mundo melhor, mais justo e digno, sublinhando três ideias que de forma sintética partilho nesta crónica.Em primeiro lugar, a aceleração tecnológica é imparável e está a revolucionar a forma como vivemos. As revoluções não são boas nem más por natureza. Nós somos os protagonistas e decidiremos o que será o futuro. Não podemos excluir ninguém de poder ser um decisor. Alguns de nós podem decidir quando e como incluir os seus filhos no mundo digital. Outros nem decidir podem. A inclusão digital tem que ser uma prioridadeEm segundo lugar, com a aceleração tecnológica vamos migrar de uma sociedade tecnológica para uma sociedade digital a gigabits. É fundamental que os valores não se percam na transição. É preciso ir inculcando nos nossos filhos valores, princípios éticos e competências lógicas, para que eles usem as tecnologias e não sejam usados por elas. Proibir não é solução. Ajudar a usar as tecnologias como próteses cognitivas para a aprendizagem, a vida em comunidade ou o lazer, faz parte do nosso deverFinalmente, estando a nossa sociedade no limiar do desenvolvimento de algoritmos que aprendem e que entre outras coisas emulam os comportamentos e as emoções, o futuro será Homem/Máquina (com valores) ou Máquina/Homem (com servidão). A diferença estará na capacidade de imaginar e sonhar. Atribuir significado à realidade é o que temos de mais precioso e único. Não podemos deixar que por causa da tecnologia os nossos filhos percam a capacidade de sonhar e de imaginar (com a tecnologia, mas não em função dela).

Carlos Zorrinho-Professor Universitário e Eurodeputado do PS

 

 

 



Categoria: Opinião

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