LUÍS MIRA AMARAL

12 de Junho de 2012

“PARA RESOLVERMOS O PROBLEMA DAS FINANÇAS PÚBLICAS VAMOS PRECISAR DE CRESCIMENTO ECONÓMICO”

 

Com muito poucas expetativas positivas para o futuro imediato, no que toca ao crescimento económico de Portugal, Luís Mira Amaral, o atual CEO do Banco BIC Português, critica o aumento exagerado do IVA decidido pelo Governo, afirmando que este veio “afundar ainda mais a economia portuguesa”, uma vez que se gerou “mais desemprego e uma queda no consumo”. Na sua opinião, “se forem tomadas medidas de austeridade em dose exagerada”, a economia pode ser gravemente prejudicada. Em entrevista à FRONTLINE, o engenheiro e economista revelou que a resolução dos problemas económicos do nosso país passa pela aposta numa “lógica europeia que crie procura”, e para tal é necessário “esperar que os políticos europeus arranjem uma solução que permita à Europa crescer”. No que toca à atuação do Governo, o antigo ministro afirma que tem “sérias dúvidas” sobre a sua “capacidade reformista”, uma vez que em termos de reformas estruturais a única que foi feita, e que se deve, essencialmente, “ao espírito de negociação da CIP e à coragem política da UGT”, foi a do “mercado de trabalho, em sede de concertação social”. Luís Mira Amaral observa ainda o desempenho do ministro das Finanças, referindo que Vítor Gaspar “tem um grande poder no Governo”, que vai sendo reforçado “à custa dos outros ministros”.

 

Que expetativas tem em relação ao futuro da economia nacional? Quando acha que será possível darmos a volta à crise e começarmos a crescer?

Infelizmente, não tenho nenhumas expetativas positivas, uma vez que não há solução nacional para este problema ou, dito de outra forma, não vamos ter crescimento económico a curto prazo porque este problema não se resolve no plano português, é necessário esperar que os políticos europeus arranjem uma solução que permita à Europa crescer, e só nesse enquadramento Portugal vai voltar também a crescer. Continuamos numa fase muito difícil, no que diz respeito à austeridade, porque não temos margem de manobra. Não nos podemos endividar mais, daí que não possamos rejeitar a austeridade, mas por outro lado, toda a gente já percebeu que a austeridade, por si só, não leva ao crescimento económico. Como já referi, esse crescimento não pode ser de base nacional, tem haver um projeto europeu que vise tal desenvolvimento. Por outro lado, estamos a chegar à conclusão de que, em Portugal, provavelmente alguns aumentos de impostos terão sido excessivos, nomeadamente no que diz respeito ao IVA. Estes aumentos, que vieram afundar ainda mais a economia portuguesa, nomeadamente na área da restauração e também em algumas atividades do Mercado doméstico, geraram mais desemprego, falências e uma queda no consumo.

 

O que pensa do ajustamento do défice público levado a cabo pelo Governo?

Penso que o ajustamento do défice publico deveria ter sido mais lento, isto porque corremos o risco de ficar na mesma situação que a Grécia, onde assistimos a uma recessão muito forte, em que a receita fiscal vai-se abaixo e o défice não se reduz tão facilmente como se pensava. O problema aqui é que, quando o Estado aumenta impostos, designadamente o IVA, isso tem efeitos recessivos sobre toda a economia, acabando por afundá-la. A dúvida que tenho neste momento é se o Governo consegue ter as receitas fiscais que necessita.

 

A Europa está num beco sem saída?

Eu não sei se a Europa está num beco sem saída, a verdade é que está numa situação muito difícil. Mas neste caso, devo dizer-lhe que quem culpa os programas da troika e a senhora Merkel pelo que aconteceu está a ver o filme ao contrário. O que aconteceu foi que, no tempo das “vacas gordas”, alguns países como Portugal foram altamente indisciplinados, gastaram demasiado, endividaram-se muito e, depois, quando veio a crise financeira, essa dívida pública que já existia não permitiu mais financiamento externo e chegámos a um impasse. Foi necessário recorrer aos programas da troika que impuseram, naturalmente, austeridade, e por isso é necessário, a meu ver, uma lógica europeia, a curto prazo, que nos permita sair desta situação. Essa lógica europeia tem de passar por vários aspetos, nomeadamente programas de dimensão comunitária financiados pelos chamados projects bounds – trata-se, no fundo, de emissão de dívida europeia para financiar projetos de interesse europeu (o que para mim é óbvio nas ferrovias e nas redes de transporte de energias). Depois, acho que os países europeus têm de aumentar o capital do Banco Europeu de Investimentos, para que este possa apoiar mais a economia e as PME europeias. Tem de haver também alguma reafetação dos fundos comunitários, para que possam ser locados a projetos empresariais que gerem crescimento mais rápido. Penso que tudo isto tem de ser feito a nível europeu, uma vez que a resposta para o crescimento não pode ser nacional. Não podemos também esquecer as reformas estruturais nos países periféricos, que terão efeitos benéficos a médio-longo prazo e não a curto prazo. Portanto, dir-lhe-ia que há que conjugar uma visão liberal das reformas estruturais com uma visão keynesiana, a curto prazo, através de uma lógica europeia de projetos que criem procura.

 

As medidas de austeridade que estão a ser levadas a cabo, no seu entender, são essenciais e inevitáveis, ou vão acabar por matar a economia? Que outras soluções defenderia?

Se forem tomadas medidas de austeridade em dose exagerada, podemos correr esse risco. Começo por dizer que a austeridade era inevitável, o país tinha chegado à completa exaustão. Se não existisse o programa da troika, nós tínhamos ficado sem financiamento externo, não teríamos tido dinheiro para importar alimentos,medicamentos ou energia. Veio a troika e emprestou-nos dinheiro, contudo, quem empresta dinheiro impõe condições. O problema é que agora estamos a perceber que o objetivo de redução do défice era demasiado rápido, o aumento de impostos foi excessivamente violento, o que põe em causa a própria economia, e não há uma perspetiva de crescimento económico, até porque as reformas estruturais, como disse, levam tempo a surtir efeito, e no caso português mal começaram. O que é que este Governo fez? Chegou e foi muito lesto a cortar vencimentos e pensões!Foi muito lesto a aumentar impostos, mas em termos de reformas estruturais, a única que começou a ser feita foi a do mercado de trabalho, em sede de concertação social, graças ao espírito de negociação da CIP e à coragem política da UGT. Esta alteração não foi só mérito do Governo, é necessário agradecer à CIP e à UGT tudo o que conseguiram. Neste campo, tudo o resto está atrasado. Quando o PSD estava na oposição, Eduardo Catroga dizia, em nome do partido, que tinha de se cortar no Estado gordo, extinguir organismos socialmente inúteis, reduzir as rendas dos setores não transacionáveis e que já bastava de austeridade para as pessoas, a austeridade tinha que chegar ao Estado. Um ano depois de o Governo tomar posse, ainda não vi nada disso concretizado. Para citar uma declaração presidencial, “o Governo mudou mas eu não mudei”, continuo a dizer o mesmo que dizia no Governo anterior, e tenho fortes dúvidas de que o atual, passado um ano, execute efetivamente as reformas estruturais necessárias. Quanto a tudo isto, estou realmente muito preocupado.

 

Apoiou Passos Coelho na liderança do PSD. O que pensa hoje dele como primeiro-ministro?

Continuo a pensar que é um homem sério, bem intencionado, e espero que, para bem de todos nós, ainda consiga “levar a água ao seu moinho”. Contudo, começo a ter sérias dúvidas sobre a capacidade reformista do Governo. Aquilo que se passou na área da energia, com a interferência da EDP – algo que foi evidente – sobre o secretário de Estado da Energia anterior, para mim, foi perfeitamente chocante.

 

Qual é a sua opinião sobre o ministro da Economia? E sobre Vítor Gaspar?

Eu acho que o ministro das Finanças tem de fazer o papel aborrecido da austeridade, dos cortes, mas a minha experiência de Governo diz-me que não pode estar sozinho em cena, tem de ser compensado e contrabalançado pelo ministro da Economia. É no fundo aquilo que eu fazia, no meu tempo, em relação a ministros como Miguel Cadilhe ou Eduardo Catroga, um deles até dizia que eu tinha mau feitio, mas era no bom sentido. Penso que o ministro da Economia tem que ser mais interventivo, para compensar o ministro da Finanças, e fico muito preocupado quando assisto a este endeusamento do ministro das Finanças. Isto não nos leva a nada de bom, porque, como já percebemos, para resolvermos o problema das finanças públicas vamos precisar de crescimento económico, isto não é só finanças públicas, cortes e austeridade. De facto, sinto que o ministro das Finanças tem um grande poder no Governo e esse poder vai sendo reforçado à custa dos outros ministros, algo que não é nada bom para a economia portuguesa.

 

Acha que nesta altura deveria existir uma maior articulação entre os dois ministérios?

Obviamente. E, claro, um maior protagonismo por parte do ministro da Economia. Era necessário que se demonstrasse, nitidamente, em termos públicos, que há ali um contrapeso. A atuação indiscutível e que é, sem dúvida, da esfera de ação do ministro da Finanças, é o controlo financeiro do Governo e a reforma da Administração Pública com a extinção dos organismos socialmente inúteis.

 

As rendas excessivas no setor elétrico, a que já tantas vezes se referiu no passado, foram agora atualizadas pelo ministro da Economia. Acha que finalmente o ouviram?

Não me ouviram especificamente a mim, mas sim a um grupo de pessoas que apresentou os manifestos sobre a energia e no qual eu me incluo. Se o dossier já está na opinião pública, foi graças ao manifesto em que participámos, à ação da DECO e à atuação corajosa do ex-secretário de Estado da Energia, Henrique Gomes. Foram estes três fatores que, realmente, surtiram efeito. Quando começámos com os manifestos ninguém nos ligava, o lobby eólico e a EDP controlavam a comunicação social e o Governo estava contra nós. Foi uma batalha muito difícil, contudo, a nossa ideia, com a ação da DECO, foi conseguir chegar ao grande público. O dossier chegou, finalmente, à opinião pública e toda a gente percebeu a renda excessive que os eletroprodutores tinham na economia portuguesa.

 

O pacote que prevê um corte de 1,8 mil milhões de euros até 2020, no setor elétrico, está correto?

Não, não está correto, pois, pelas minhas contas, e até 2020, o corte será de 1,4 mil milhões de euros. O valor de 1,8 mil milhões de euros será alcançado até 2025. Existe, portanto, um erro na afirmação do ministro Álvaro Santos Pereira. Por tudo isto, o corte que o ministro da Economia anunciou, seja de 1,4 ou de 1,8, não é suficiente para eliminar todas as rendas excessivas, o que significa que continuaremos a ter aumentos de preços da eletricidade mais do que seria desejável, ou vamos ter, caso o Governo não queira que exista esse aumento de preços, grandes défices tarifários, que são dificilmente financiáveis na economia portuguesa. Este pacote, a meu ver, não chega. Foi melhor que nada, mas face aos valores que o ex-secretário de Estado da Energia calculou, este valor é pequeno. Também é fácil explicar porquê, este pacote foi às cogerações, basicamente de empresas industriais, depois foi às chamadas garantias de potência, fundamentalmente de centrais da ENDESA e da EDP.

 

Porque é que a ENDESA protesta mais do que a EDP?

Porque a ENDESA só tem uma central e esta foi afetada pelo corte na garantia de potência. A EDP tem muito mais centrais, e quando são só três centrais da EDP afetadas com os cortes de garantias de potência, esquecemo-nos de que a maior parte das centrais da EDP estão protegidas pelos chamados CMEC, Custos de Manutenção do Equilíbrio Contratual, e esses foram marginalmente afetados. Repare que os CMEC levam apenas um corte de 20 milhões de euros por ano, o corte é pequeno, como o corte nas renováveis também o é. Poderia então dizer que o pacote elaborado pelo ministro da Economia afeta, assim, as cogerações das empresas industriais e a central da ENDESA. Na globalidade, a EDP é muito pouco afetada, porque a maior parte das suas centrais são dos CMEC e não foram afetadas por este corte. Repare que a EDP fez logo um comunicado a dizer que só havia uma redução de 1% no EBITDA.

 

Olhando para o país hoje, acha possível evitar um segundo pedido de ajuda à troika?

Eu até percebo o Governo, quando afirma que não será necessário um Segundo pedido de resgate. Se lá estivesse, afirmaria também que não precisaríamos de um novo pacote e que estamos a cumprir, exemplarmente, as condições que nos foram impostas. Não os critico por isso, mas duvido que possamos dizer, com toda a segurança, que não precisamos de um Segundo pacote. Primeiro, porque não depende só de nós, ou seja, quando vemos a situação da Grécia e da Espanha, percebemos que há variáveis externas que se estão a agravar e que muito vão afetar Portugal. Mesmo que façamos todo o trabalho de casa bem feito, se a Grécia sair do Euro e criar uma onda de choque sobre nós, se a situação espanhola se continuar a agravar, há uma dimensão externa que nós não controlamos e que nos vai obrigar fatal e indubitavelmente a pedir um segundo pacote. Mas mesmo sem tudo isto, e recordando o que disse há pouco, o aumento dos impostos, para tentar reduzir o défice, foi feito de forma rápida e muito violenta, o que gerou falências em série. A juntar a tudo isto, o desemprego está a crescer, rapidamente, preocupando já o próprio Governo.

 

Como é que vê a renegociação dos contratos das Parcerias Público-Privadas (PPP)? A economia deve mexer em compromissos assumidos em prol da sua sobrevivência?

É evidente que eu defendo o Estado de direito e também sou muito sensível a essas compensações, mas quando um Estado corta pensões do regime contributivo, no fundo está a privar as pessoas do dinheiro que, elas próprias, pagaram para a sua pensão. Desta forma, o Estado já violou um compromisso e esqueceu até uma parte do dinheiro que as pessoas já pagaram para o sistema. O ajustamento necessário não pode ser só do fator trabalho, com cortes nos vencimentos e nas pensões, o setor financeiro e o capital também têm que perceber que têm de fazer alguns sacrifícios. Na verdade, é necessário que todos façamos sacrifícios. Este Governo herdou uma situação muito difícil, fez cortes impensáveis em vencimentos e pensões, mas é ele próprio que tem de pensar que, em nome da equidade social, é necessário apelar para que o setor financeiro e o capital também façam alguns sacrifícios. A solução, a meu ver, não é cortar mas sim renegociar e moderar as parcerias. Até porque as projeções mostram que a economia do país não aguenta o serviço financeiro dessas parcerias público-privadas.

 

Acha que as PPP, da forma como foram negociadas, foram prejudiciais para o Estado?

A ideia das PPP não é má, porém, como temos um Estado fraco e pouco preparado, os consórcios apetrecharam-se com os melhores juristas e com os melhores financeiros, conseguiram implementar uma relação perfeitamente assimétrica entre si e o Estado, sendo que os riscos ficaram muito centrados neste último, ou seja, no próprio contribuinte, e não nos consórcios. Tudo isto está contra a ideia essencial das PPP, uma vez que na base da sua criação está a partilha de risco entre o setor público e o privado, o que não acontece com os típicos projetos públicos. Infelizmente, e neste caso específico, estamos a concluir que a partilha do risco não foi feita da maneira que seria de esperar, sendo que o risco ficou mais no setor público do que no privado.

 

Disse, há uns meses, que a geografia empresarial da banca portuguesa vai mudar. Como?

Infelizmente, temos uma economia portuguesa sem capital e, pelas razões que conhecemos, não há poupança suficiente para a acumulação do mesmo. A situação da banca demonstrou que não havia capital privado português para proceder aos aumentos necessários. Lamentavelmente, também não houve capital estrangeiro para ser investido, porque o risco do país era de tal forma grande que ninguém se interessou. Se o BIC comprou o BPN num concurso aberto ao exterior, foi porque ninguém, no exterior, esteve interessado para vir fazer uma proposta… O Estado, por seu lado, entrou agora com a famosa linha dos 12 mil milhões para acorrer aos aumentos de capital da banca, mas esta falta de capital português e estrangeiro privado, bem como a incapacidade dos acionistas portugueses e das atuais estruturas acionistas dos bancos de acorrer ao capital social dos bancos, numa perspetiva a prazo, vai implicar que entre novo capital nessas estruturas acionistas. A partir da altura em que a economia portuguesa comece a dar alguns sinais de credibilidade, com a situação dos bancos tão baratos, é óbvio que nos tornaremos apetecíveis para acionistas e capitais estrangeiros. Por todas as razões já mencionadas, não tenho dúvidas de que a geografia acionista dos bancos e de algumas empresas vai mudar.

 

Ocupa um cargo importante num banco com ligações a Angola. A presença massiva deste país no nosso tecido empresarial é, no seu entender, um potencial ainda em crescimento?

Sim, não tenho dúvidas disso, mas convém também referir o potencial das relações entre Portugal e Angola. Esta realidade tem de ser vista de forma bilateral e, como sabe, Angola tem uma crescente importância para as empresas portuguesas. É do mais elementar bom senso percebermos que é importante também que os angolanos se interessem pela economia portuguesa, pois passam a partilhar connosco também os riscos da nossa economia e passamos a ter os interesses ligados. Portanto, eu vejo com muito agrado o capital angolano em Portugal. Vejamos o seguinte, Angola ultrapassou os Estados Unidos como mercado de exportações não comunitárias, e se analisarmos a dimensão da população dos Estados Unidos e o seu poder de compra, comprovamos que é muito superior ao de Angola. Tudo isto demonstra que temos mais facilidade em entrar em Angola do que nos Estados Unidos, portanto, Angola é um pivot essencial na nossa estratégia de diversificação para mercados não comunitários.

 

Que oportunidades considera que estão ainda por explorar?

Começamos a verificar que alguns empresários angolanos começam a comprar empresas portuguesas de construção civil, de materiais de construção e metalomecânicas. No fundo, Angola começa a ter um setor privado e os seus empresários também querem investir no exterior e, para tal, escolhem empresas portuguesas que são interessantes para Angola. Outra das áreas em que assistimos também a investimentos angolanos são os media, isto porque se querem internacionalizar.

 

Qual é agora a sua estratégia para o Banco BIC?

Quando o BIC Português começou, era um banco pequeno que apostou nas seguintes áreas de negócios: banca de empresas – começando pelas empresas ligadas a Angola (atualmente já temos uma carteira de empresas não ligadas a Angola); banco correspondente de bancos angolanos; e depois Private Bank para gerir patrimónios financeiros não só de portugueses como também de angolanos. Em 2011, três anos após ter começado, obtivemos o resultado líquido de 1,1 milhões de euros, sobre uma situação líquida de 33 milhões, o que revela uma rendibilidade para o acionista de cerca de 15%, sendo um resultado muito simpático. O nosso único problema é que o BIC Português não tinha rede de retalho e, como compreende, num país já densamente povoado de redes de retalhos, não era fácil construir uma de raiz. Disse aos meus acionistas que se o objetivo era transformar o BIC num banco de retalho, o mais rápido era comprar uma rede de retalho, e por isso surgiu a ideia de adquirir o BPN. O racional na aquisição do BPN é termos acesso a uma rede de retalho que não tínhamos antes. Agora temos de respeitar o nosso código genético, em termos de banca de empresas – nomeadamente no financiamento de exportações para Angola –, banco correspondente de bancos angolanos, a começar pelo banco BIC em Angola, e Private Bank, mas contamos também com uma rede de retalho à escala nacional, o que nos dá uma capacidade de funding, de captar a poupança das pessoas, algo que não tínhamos até aqui. país era de tal forma grande que ninguém se interessou. Se o BIC comprou o BPN num concurso aberto ao exterior, foi porque ninguém, no exterior, esteve interessado para vir fazer uma proposta… O Estado, por seu lado, entrou agora com a famosa linha dos 12 mil milhões para acorrer aos aumentos de capital da banca, mas esta falta de capital português e estrangeiro privado, bem como a incapacidade dos acionistas portugueses e das atuais estruturas acionistas dos bancos de acorrer ao capital social dos bancos, numa perspetiva a prazo, vai implicar que entre novo capital nessas estruturas acionistas. A partir da altura em que a economia portuguesa comece a dar alguns sinais de credibilidade, com a situação dos bancos tão baratos, é óbvio que nos tornaremos apetecíveis para acionistas e capitais estrangeiros. Por todas as razões já mencionadas, não tenho dúvidas de que a geografia acionista dos bancos e de algumas empresas vai mudar.

 

Ocupa um cargo importante num banco com ligações a Angola. A presença massiva deste país no nosso tecido empresarial é, no seu entender, um potencial ainda em crescimento?

Sim, não tenho dúvidas disso, mas convém também referir o potencial das relações entre Portugal e Angola. Esta realidade tem de ser vista de forma bilateral e, como sabe, Angola tem uma crescente importância para as empresas portuguesas. É do mais elementar bom senso percebermos que é importante também que os angolanos se interessem pela economia portuguesa, pois passam a partilhar connosco também os riscos da nossa economia e passamos a ter os interesses ligados. Portanto, eu vejo com muito agrado o capital angolano em Portugal. Vejamos o seguinte, Angola ultrapassou os Estados Unidos como mercado de exportações não comunitárias, e se analisarmos a dimensão da população dos Estados Unidos e o seu poder de compra, comprovamos que é muito superior ao de Angola. Tudo isto demonstra que temos mais facilidade em entrar em Angola do que nos Estados Unidos, portanto, Angola é um pivot essencial na nossa estratégia de diversificação para mercados não comunitários. Assim, podemos reforçar a nossa aposta nas PME portuguesas, exportadoras para Angola e não só, coisa que o BIC Português já vinha a fazer num contexto em que, como sabe, os outros bancos estão com falta de liquidez. Nós respeitamos o nosso código genético, apostamos em ter agências de retalho de baixo custo oferecendo um bom serviço aos nossos depositantes. Não nos estou a ver fazer, massivamente, crédito à habitação ou ao consumo – o contexto português também não está para isso neste momento –, mas sim a apoiar as boas empresas exportadoras para Angola e para outros mercados. Convém não esquecer que a grande surpresa da economia portuguesa foi a performance do setor exportador, que ultrapassou tudo o que se previa.

 

Em determinada altura pensaram comprar outra instituição bancária. Porque não o fizeram?

A negociação entre o BIC e o Governo para a compra do BPN foi cheia de avanços e recuos, e a determinada altura julguei que o dossier BPN estava terminado. Quando já estávamos a estudar outra alternativa, o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, telefonou-me a solicitor que passasse no seu gabinete para tratar do BPN, numa reunião que acabou inconclusiva. Mais tarde, o primeiro-ministro ligou para Luanda e pediu para Fernando Teles vir a Lisboa. O primeiro-ministro tinha que escolher entre a liquidação do banco, com 1600 pessoas a ir para o desemprego, e uma alternativa em que se salvavam, no mínimo, 750 postos de trabalho. O primeiro-ministro flexibilizou então bastante a posição do Governo para vender o BPN. Até aí, o Governo dizia que não podia cumprir o acordo de princípio que tinha feito connosco em 31 de julho e nós dizíamos que só comprávamos o BPN nos termos desse acordo, o que acabou por acontecer. A Comissão Europeia chegou à conclusão de que ficaria mais barato para o contribuinte vender o BPN ao Banco BIC do que liquidá-lo. É necessário reforçar a ideia de que quando comprámos o BPN apostámos nos depositantes, que sempre estiveram com o BPN. Com tudo o que estamos a fazer, com uma equipa de gestão que já deu provas de que consegue arrancar com um banco e pô-lo a ganhar dinheiro, os nossos depositantes têm todas as razões para ter confiança no futuro. Esperamos, sinceramente, ter mais depositantes muito em breve. Por outro lado, apostamos também muito nos nossos trabalhadores, porque não podemos ter um banco de sucesso sem ter trabalhadores motivados. É esta a nossa proposta para o futuro.

 

Afirmou recentemente que “recuperar o BPN vai ser um trabalho colossal” e espera que “em cinco anos o BPN comece a dar lucro”. Pode comentar estas duas afirmações?

O BPN vai desaparecer, será o novo Banco BIC, que é a integração do BIC Português com o BPN. Primeiro, devo dizer que pegámos numa estrutura que estava adormecida, e que tinha muitos problemas – como é do conhecimento de toda a opinião pública –, e estamos a recuperá-la. Se a economia portuguesa estivesse a crescer, esta aposta era algo que não me tirava o sono, porém, o problema é que não sabemos quando é que a economia portuguesa vai voltar a crescer, e vamos ter de recuperar uma estrutura num contexto em que a economia portuguesa pode continuar a afundar. Portanto, não é realista dizer que, em dois ou três anos, teremos o banco totalmente recuperado. O que é realista é pedir aos nossos depositantes que acreditem em nós e na nossa estrutura acionista, que, posso afirmar, é bastante sólida. No meio disto, teremos também o crédito mal parado. Se daqui a quatro anos tivermos o banco recuperado, a crescer e a ganhar dinheiro, será muito bom. Aliás, os meus acionistas estão preparados para isso e estão perfeitamente conscientes de que, ao comprarem o BPN, não fizeram uma aposta de rendibilidade a curto prazo, e, por isso, até prescindiram de ter dividendos nos próximos cinco anos. Os meus acionistas têm um grande banco em Angola, o BIC Angola, que teve em 2011 um resultado líquido de 150 milhões de dólares, cerca de 117 milhões de euros, ou seja, não precisam dos dividendos aqui em Portugal, o que têm em Angola já lhes permite uma “travessia no deserto” confortável. O objetivo é recuperarmos um banco num contexto extremamente difícil da economia portuguesa. Daqui a cinco anos todos esperamos que a economia já esteja a crescer, que tenhamos aqui o novo BIC com o BPN integrado, e que seja um banco à escala nacional e já a ganhar dinheiro.



Categoria: Grande Entrevista

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