PORTUGAL 2030

10 de Julho de 2015

JCF_1238NOVAS TECNOLOGIAS NA SAÚDE EM DEBATE

“Novas Tecnologias na Saúde” foi o tema central de mais um debate do ciclo Portugal 2030, promovido pela revista FRONTLINE, que reuniu mais um painel de especialistas, no passado dia 25 de junho, no Hotel InterContinental, em Lisboa.

Nuno Sousa, da Escola de Medicina da Universidade do Minho, António Ferreira, do Centro Hospitalar de São João (CHSJ), João Martins, da Pathena, e Maria João Luís, da Multicare, foram os quatro oradores convidados para mais um debate do Ciclo Portugal 2030, promovido pela revista FRONTLINE, com o objetivo trazer para o espaço público novas ideias, novas abordagens, mas também novas preocupações para o futuro. O debate contou ainda com a presença de António Murta, managing diretor da Pathena a quem coube a moderação dos trabalhos. “Novas Tecnologias na Saúde” foi o tema central deste debate onde se procurou compreender qual a realidade atual neste domínio e o que se espera para um futuro próximo, concretamente no impacto das tecnologias na prática da medicina, nos médicos e na sua relação com os doentes e nos próprios sistemas de saúde. Como referiu António Murta na abertura dos trabalhos, “o objetivo era falar de tecnologia de forma embebida na saúde e não de forma focada estritamente na tecnologia, mas cobrindo igualmente todo o espetro da cadeia de valor da saúde, desde a ciência, passando pela fileira hospitalar, pelos cuidados de saúde primários e também pelo lado do pagador público ou privado, nomeadamente o setor segurador”.

Evolução notávelJCF_1050

Nuno Sousa começou a sua intervenção por destacar a evolução notável de Portugal nos últimos 25 anos na área da produção científica em termos de investigação biomédica fundamental, mas que não é acompanhada por um ganho idêntico na área da investigação pública, levantando a questão de como explicar este paradoxo quando estamos a falar dos mesmos agentes que têm sucesso na área de investigação e produção de conhecimento e depois não o têm numa área mais aplicada? No seu entender, a primeira coisa a fazer é a mudança do foco na educação médica: “tipicamente, as escolas médicas estão muito centradas na transmissão de conhecimentos e muito pouco nos processos de aprendizagem que levam os seus formandos a conhecer a realidade em que vão trabalhar e a estar preparados para essa realidade. Isto levou-nos já, na Universidade do Minho, a permitir que os nossos estudantes construam o seu próprio currículo e muitos optam por se direcionar para a área da investigação”. De acordo com Nuno Sousa, os números falam por si, quando revelam que 39% dos alunos estão ativamente envolvidos em atos de investigação, aproveitando para revelar um conjunto alargado de dados sustentados pelo estudo efetuado pela própria universidade sobre o perfil do investigador. Foi nesta constatação que, segundo o orador, foi entendido que era preciso fazer mais para aproveitar esta dinâmica, e assim foi criado em Portugal o primeiro programa que confere um grau de mestrado integrado e doutoramento em Medicina, passível de ser obtido em nove anos, um programa desenvolvido em parceria com universidades estrangeiras e muito facilitador da investigação, pois os alunos intercalam o programa curricular com o desenvolvimento dessa mesma investigação em inúmeras áreas. Para Nuno Sousa, a grande conclusão a reter é que o contexto onde somos educados é muito relevante para a nossa vontade de participar em atividades de investigação, e sublinhou: “enquanto as escolas médicas não entenderem isto e não tiverem a humildade de se adaptarem e criarem condições para que isto aconteça, os números não serão os que aqui acabei de mostrar”. Uma segunda questão também muito importante, levantada pelo responsável da Universidade do Minho, respeita ao paradigma de como praticamos medicina, que está obviamente a mudar. Tipicamente, até agora, o médico esperava que o doente viesse ter com ele, o que é a decisão mais crítica da medicina, ou seja, a procura de ajuda, e essa tomada de decisão era até agora exclusivamente feita pelo doente: “o que nós entendemos é que está reunido hoje em dia um conjunto de condições face à existência de uma base tecnológica – estamos a desenvolver na nossa universidade muitas aplicações neste domínio – que permite fazer esta mudança e passar a investir nos cuidados de saúde de uma forma diferente, procurando monitorizar o estado de saúde do indivíduo, e sempre que houver desvios, chamá-lo. A nossa atitude enquanto prestadores de cuidados de saúde deixa de ser uma atitude passiva para passar a ser proativa”. E concluiu a sua intervenção com uma mensagem clara, alertando para o facto de uma escola médica ter de ser muito mais do que um sítio onde se formam médicos, ser uma estrutura onde os jovens aprendem Medicina de uma forma consolidada para serem médicos competentes ao longo da vida e também um catalisador do conhecimento e da geração de valor, pois se deixarmos de investir nesta dimensão iremos ter a demonstração de que a doença é muito mais cara do que a saúde.

O domínio da Clinical IntelligenceJCF_1178

António Ferreira centrou a sua intervenção no trabalho que está a ser desenvolvido no CHSJ, no domínio daquilo que denominou de Clinical Intelligence. Começando por retratar aquela que é genericamente a realidade hoje vigente na maioria dos hospitais neste domínio, em que existe um conjunto alargado de sistemas, mas cada um a tratar da sua parte – recursos financeiros, medicamentos, aprovisionamento, produção, informação clínica, entre tantos outros – e que não falam entre si, com a consequência de que apenas temos informação dispersa, sem grande qualidade e com uma capacidade de resposta por parte do sistema muito atrasada no tempo, o orador passou então a explicar a nova realidade que se vive atualmente no CHSJ, no Porto: “o que fizemos foi interligar todos os sistemas e passar toda esta informação para uma matriz multidimensional, o que hoje nos permite fazer perguntas e obter respostas em frações de segundos. E passámos a centrar no nosso cliente toda a informação, porque o que nos interessa é perceber, esteja ele onde estiver, o que lhe acontece, quando entra no hospital, quando sai, o que faz quando lá passa, quem o assiste, quanto se gasta, etc., pois estamos a apostar em algo que amplia toda a nossa capacidade de transformar informação em conhecimento. E estamos a fazer isto integrando toda a informação clínica com algo que é potencialmente mais valioso, que é a informação que está no genoma, na imagem, não a que o médico vê, mas que a tecnologia de inteligência artificial é capaz de interpretar e por aí adiante”. Em termos de números e segundo António Ferreira, atualmente no CHSJ são carregados diariamente 300 milhões de registos relativos a 1,5 milhões de doentes. E o sistema, que para além das respostas pré-calculadas vai aprendendo a preparar respostas à medida que novas perguntas vão sendo feitas, já responde a 100 mil questões por ano (leia-se output de dados), apesar de a primeira fase só ter arrancado em janeiro de 2012. Aquele responsável alertou ainda para uma outra questão muito relevante, o facto de o sistema ter sido planeado em três fases – correspondendo as duas primeiras à gestão e à governação clínica –, mas ainda nenhuma delas estar terminada, nem podendo estar, pois todas estão permanentemente a criar novas soluções e a gerar inovação. E retomando o raciocínio anterior, apontou um exemplo concreto para uma melhor visão do que está a ser feito e das múltiplas possibilidades do sistema, que permite hoje monitorizar praticamente todo o hospital em tempo real: “vejamos um exemplo concreto como o da atividade do bloco do hospital no dia 21 de janeiro de 2014, às 17h36, onde eu sei, através do computador, que numa determinada sala do bloco central está uma cirurgia a decorrer; que o doente entrou na sala às 17h00, quando estava previsto entrar às 16h00; que iniciou a indução anestésica às 17h10; que a cirurgia começou às 17h20 e que está prevista acabar às 18h00; e depois o sistema regista a hora em que a mesma efetivamente acabou, a que horas o doente saiu da sala e quando começou a limpeza da sala. E tudo isto em tempo real e para todas as salas do hospital”. Para António Ferreira, outra dimensão crucial do sistema é a que diz respeito ao apoio à decisão clínica, focada em três níveis, concretamente controlo da prescrição antibiótica, controlo da infeção e risco de deterioração clínica, para além de permitir ter todo o hospital geomapeado e assim conseguir-se, por exemplo, identificar onde aparece a cada momento qualquer infeção e até qual o doente responsável por essa infeção: “fazemos a monitorização do risco clínico de todos os doentes que estão internados, em tempo real, sendo que este é o tempo da chegada dos dados ao sistema. De duas em duas horas todos os doentes internados são avaliados e colocados num nível de risco, e consoante esse nível são acionados alertas. Para terem uma ideia, o sistema já nos permitiu perceber que 30% dos doente são sinalizados no sistema sete dias antes de irem para a unidade de cuidados intensivos e estamos agora a avaliar esta situação para saber se na prática conseguimos efetivamente evitar esta situação”. E conclui a sua intervenção com a convicção de que este tipo de sistemas vai finalmente permitir entrar naquilo que será o futuro, que é integrar toda a informação que temos disponível numa capacidade computacional adequada, com base em inteligência artificial para ajudar o médico a tomar decisões e até a serem criados novos produtos através da ligação à farmacologia, o que trará uma redução brutal dos custos nesta área.

A perspetiva das doenças crónicasJCF_1203

João Martins orientou a sua intervenção neste painel no sentido de explicar, de forma sucinta, o que está hoje ao nosso alcance para ser feito numa perspetiva de minimização do impacto das doenças crónicas conciliando a tecnologia. Para o responsável da Pathena, face ao tipo de perfil das doenças crónicas, é fundamental que haja uma abordagem mais prática e mais sustentada por parte dos cuidados de saúde primários no lidar com estas doenças, que tem de se traduzir numa mudança de paradigma: “o que não faz muito sentido hoje em dia é o paradigma curativo em que ainda vivemos – a evolução da medicina continua toda virada para o lado curativo – face ao peso que começam a ter as patologias crónicas, como a diabetes ou a obesidade, entre outros exemplos, doenças com as quais vivemos uma vida; que continuemos a ter 96% dos gastos em saúde na perspetiva curativa e apenas 4% na preventiva. Esta lógica é a de continuar a tentar curar algo que se calhar não tem cura, o que não faz sentido. O exemplo simples mas infelizmente muito pesado de uma doença crónica é a diabetes, onde 12% da população portuguesa é diabética ou pré-diabética e muitas vezes a doença já é diagnosticada numa fase avançada em que o seu gasto curativo passa logo para um patamar muito superior, para além das implicações na qualidade de vida do doente. Em Portugal estamos a falar de um gasto de 1200 a 1500 milhões de euros por ano, ou seja, entre 10 e 15% do orçamento do Serviço Nacional de Saúde”. Agora, há forma de resolver isto? Perante esta questão, a resposta de João Martins foi esclarecedora, contrapondo aquele que seria o salto para o mundo ideal, onde já temos muita tecnologia disponível neste domínio, mas onde seria naturalmente necessário toda uma (re)infraestruturação do sistema: “mas há um senão, é que sabemos que custa muito dinheiro, dinheiro que não temos para pagar e, numa perspetiva de cuidados de saúde primários, imaginar que teríamos, por exemplo, de (re)infraestruturar tudo o que é centros de saúde, entre outras medidas. Seria impensável”, concluiu. E soluções? Aqui o orador foi enfático, deixando bem expresso que elas estão já ao nosso dispor, de uma forma acessível e a um custo controlado: “às vezes as coisas são mais óbvias do que parecem. Hoje temos muito mais consciência sobre os riscos da saúde e temos de nos recentrar naquilo que é o nosso papel em casa, na nossa ação direta. Nós temos é de pensar num sistema em que vamos pegar nos dispositivos que existem hoje em dia, de custo acessível, como por exemplo o gleucómetro, garantir que todos estes dispositivos falam uns com os outros, mas feito de forma simples, permitindo que enviem informação para um outro sistema onde, aí sim, de forma estruturada e com acompanhamento dos profissionais de saúde, sejam emitidos alertas que permitam, de forma proativa e sistemática, o acompanhamento do doente à distância, neste caso pelo próprio médico de família. Esta será a grande inovação. Nós hoje ainda não temos isto, apesar de termos os meios, nada está feito”.

 

A perspetiva do financiadorJCF_1222

Maria João Luís, da Multicare, começou a sua intervenção traçando o perfil do papel das seguradoras no financiamento global dos custos com a saúde em Portugal, que se cifram em 15 mil milhões de euros, um terço dos quais suportados pelo setor privado, e nessa fatia cabe ao setor segurador o equivalente a 500 milhões de euros. Quanto ao crescimento do peso do seguro de saúde nos últimos 15 anos, segundo os dados apresentados, este praticamente duplicou, crescimento que resultou do facto de este ter sido praticamente o único setor em que, pese embora todo o panorama de recessão e crise, os prémios dos seguros de saúde continuaram a crescer, crescimento esse que até ao ano de 2008 andou sempre nos dois dígitos e mesmo já no período da troika se situou na ordem dos 3%. Quanto à repartição desta despesa e de acordo com os dados avançados pela oradora no que respeita a 2013, repartiu-se da seguinte maneira: 49% em ambulatório, 12% em estomatologia, 28% em internamento, o que tem vindo a crescer e efetivamente representa risco para o setor, 2% em medicamentos, 6% em próteses e ortóteses, num universo de 2 milhões de pessoas seguras, sendo que 44% são individuais puros e 56% segurados por via das empresas, onde se tem registado um maior crescimento do que nos seguros individuais.Perante este retrato e na sequência dos temas já abordados pelos diversos intervenientes, a pergunta era óbvia: que alterações se preveem e que desafios se colocam num futuro próximo. Neste contexto, Maria João Luís não deixou grande margem para dúvidas: “hoje temos uma certeza, a nossa população segura está a envelhecer mais rapidamente do que a população portuguesa, e como se pode constatar pelos dados disponíveis, entre 2010 e 2013, enquanto o número de pessoas acima dos 65 cresceu 4,7% na população em geral, cresceu 9,4% na nossa carteira de seguradoras e 20% na Multicare, o que representa um impacto brutal no paradigma do financiamento. Portanto, os desafios que se nos colocam efetivamente são: a longevidade e a pressão para coberturas vitalícias, onde enfrentamos um outro desafio à semelhança do que está a acontecer em Espanha, onde saiu uma lei em que as seguradoras têm de dizer ao seu cliente quais vão ser os prémios do seu seguro até ao final do contrato que pode perfeitamente ser aos 100 anos de idade”. E a responsável da Multicare concluiu o seu raciocínio deixando em aberto, como matéria de reflexão, aquilo que hoje já é uma realidade para o futuro de todo o setor segurador na área da saúde: “Tudo isto nos vai obrigar a compromissos futuros bem diferentes daqueles que temos atualmente. Depois, temos o aumento das doenças crónicas e o aumento da doença oncológica em todas as idades, e este talvez seja o principal desafio que nós seguradores vamos ter, olhando para as projeções conhecidas e que nos dizem que uma entre cada quatro pessoas vai ter cancro. Tudo isto associado ao crescimento exponencial de custos inerentes à explosão da tecnologia médica, quer seja no diagnóstico, na terapêutica ou na área da telemedicina. Portanto, o grande desafio que se coloca às seguradoras é fazer uma gestão integral da saúde. Prevenir, prevenir, prevenir e investir em programas de prevenção. Estar antes da doença”.

 

 



Categoria: Em Foco

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