CARLOS MINEIRO AIRES

10 de Outubro de 2018

O fim do ceticismo

Os eventos extremos que ocorreram em 2017 (graves incêndios, seca, inundações, entre outros) vieram chamar a atenção dos portugueses para a questão das alterações climáticas (AC), tema que habitualmente é abordado com algum ceticismo e, quiçá, algum desconhecimento.

Pelas piores razões, o assunto parece ter entrado nas preocupações quotidianas dos cidadãos, já que os cientistas e investigadores há muito que o estudam e monitorizam, havendo hoje provas mais do que suficientes que permitem constatar esta incontornável realidade. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, ilustre engenheiro português, aquando do seu doutoramento honoris causa pela Universidade de Lisboa, centrou a lição de sapiência em dois assuntos principais que, no seu ponto de vista, afetam a humanidade e a estabilidade mundial, que são as alterações climáticas e a cibersegurança, o que bem demonstra a importância que a ONU atribui a estes temas. Ciente de que a nível global enfrentamos uma árdua tarefa, cuja bandeira terá de ser levantada pelos líderes políticos e pelas superiores instâncias mundiais, a ONU também plasmou as alterações climáticas e outros problemas conexos nos seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030. A questão das alterações climáticas é, pois, uma realidade global cuja dimensão e efeitos são inquestionáveis, pois encontram-se bem diagnosticados e monitorizados, estando há muito a ser seguidos de forma atenta pela comunidade científica e pelos países que podem liderar a mudança. Assim, é cada vez mais urgente a adoção coordenada de medidas globais que, obviamente, começam na atuação local, porquanto os resultados alcançados serão sempre o somatório dos contributos de cada um.

 

Estados de desenvolvimento diferentes

Habitamos um planeta que engloba países com estados de desenvolvimento muito diferentes e a diversas velocidades, a maioria deles com débeis economias baseadas em mão de obra barata e tecnologias poluentes e antiquadas, o que mais difícil torna a solução global do problema. Repare-se no dramático despertar que recentemente tivemos para a utilização massiva e indevida de plásticos, uma calamidade que silenciosamente se instalou, com repercussões ambientais de muito difícil solução. No caso de Portugal, embora sejamos responsáveis por apenas 0,11% das emissões de gases com efeito de estufa (GEE), que são uma das maiores causas do problema, temos metas estabelecidas e que tentamos cumprir, com suporte em políticas europeias por vezes demasiadamente ambiciosas. Hoje, todos sabemos que as metas do Acordo de Paris não poderão ser alcançadas no prazo previsto, o que demonstra o otimismo que muitas vezes pauta a celebração destes acordos internacionais cujo sucesso é efetivamente muito difícil, pois exigem-se grandes desafios, mesmo aos que nunca os poderão cumprir. Portugal é um país com um clima mediterrânico, que alterna anos de seca com períodos de grande pluviosidade, que tem temperaturas elevadas no verão e invernos muito frios, inserido na península Ibérica que nos influencia em termos climáticos e com quem partilhamos as bacias hidrográficas dos nossos principais rios, o que nos obriga a ter uma visão transfronteiriça de muitas destas questões, tal como o avanço da desertificação, porquanto a continuidade geográfica é incontornável. Este enquadramento geográfico é, pois, indissociável da abordagem de algumas das questões conexas com o tema em apreço, como é o caso da gestão partilhada dos recursos hídricos. Há muitas décadas que o nosso litoral está a sofrer um processo quase generalizado de contínua erosão, cuja evolução pode vir a agravar-se substancialmente com a subida do nível médio das águas do mar.

 

Alterações notadas

A subida de temperatura média, a variação da disponibilidade dos recursos hídricos, a adequada gestão das bacias hidrográficas, nacionais e internacionais, a subida do nível das águas do mar, a desertificação, o aumento de frequência e intensidade de fenómenos extremos, são aspetos que carecem da maior atenção e vigilância e da partilha de conhecimento e de cooperação internacional. Embora estes fenómenos já fossem cíclicos, vivemos agora evidências que configuram uma efetiva variabilidade de cenários climáticos, com ocorrência de fenómenos extremos, cujas causas antropogénicas já não podem ser ignoradas. Demonstrativo é o facto de associações empresariais ligadas a setores produtivos, como a indústria e a agricultura, inicialmente relutantes, terem passado a encarar estas situações sob uma perspetiva diferente e muito mais atenta, pois perceberam que as suas atividades estão ameaçadas. Num quadro de conectividade global, o trabalho da comunidade científica, a aposta na investigação e na observação, permite-nos conhecer a evolução dos fenómenos em todo o globo, bem como ter acesso às suas causas e impactos. Quais os contributos que a investigação científica, a engenharia, os engenheiros e as tecnologias podem dar para fazer face aos desafios que se colocam no futuro imediato?  No que respeita às alterações climáticas, a atuação da engenharia estará obrigatoriamente centrada no acompanhamento dos danos irreversíveis que já se registam, na sua mitigação e na adaptação às consequências.

 

Grandes desafios

Estes são os grandes desafios que se colocam aos cientistas, à engenharia e aos engenheiros, cujo envolvimento será sempre incontornável: a mitigação dos efeitos das alterações climáticas, como é o caso da redução das emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera, através de políticas e medidas e soluções a nível setorial, a investigação, a inovação tecnológica, onde assume particular importância o desenvolvimento de soluções que permitam a captura de CO2, emissões negativas de GEE, gestão da radiação solar, etc. Hoje todos percebemos a importância que a descarbonização, o abandono progressivo de combustíveis fósseis e o aumento da produção de energias limpas (eólica, solar e ondas) aportarão a esta causa, conjugadamente com soluções de mobilidade e atividades inteligentes, limpas e muito menos poluentes. As eficiências hídrica e energética, a par de uma forte aposta na eficiência material, que permitirá passar da atual economia linear para uma economia circular, onde quase tudo pode ser reaproveitado, são exigências atuais. A adaptação à irreversibilidade das alterações e a implementação de medidas que permitam inverter a tendência de crescimento assumem crucial importância como estratégia de futuro. Os impactes, vulnerabilidades, riscos e resiliência às alterações climáticas, a adaptação setorial, irão originar uma nova “economia da adaptação”, e deste quadro resulta a necessidade de investimento e financiamento aos vários níveis de governação e cooperação internacional. No entanto, todos devemos estar conscientes de que a resposta a estes desafios tem maior probabilidade de sucesso nos países ricos e mais desenvolvidos, pelo que estamos perante um problema que não pode ter um modelo de abordagem universal, mas sempre com a plena noção das limitações de alguns, o que exigirá um maior apoio de todos. Todavia, existe o risco de que a ambição e a pressão de muitos interesses instalados possam toldar a clarividência e a oportunidade das decisões. Resta a certeza de que no final ficará, uma vez mais, demonstrada a imprescindibilidade e importância da intervenção dos engenheiros no desenvolvimento de soluções que permitam inverter a tendência, mitigar as consequências e gerir os cenários e soluções de adaptação.



Categoria: Em Foco

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