ISABEL MEIRELLES

9 de Dezembro de 2018

POPULISMO E NACIONALISMO E AS  SEMENTES DO MAL

Um dos principais problemas das nossas sociedades voláteis, digitais, das fake news e da comunicação instantânea, é não termos tempo para pensar. Diante da vertigem imparável que consome as nossas rotinas, há que parar para refletir. Um dos défices do nosso tempo começa logo porque pensamos pouco sobre os nossos problemas coletivos.

A Europa também deixou de pensar e este continente, berço das Luzes, recorre cada vez menos à razão, e deixa-se também contaminar pela emoção. O mundo está em mutação e os acontecimentos tomam proporções e são conhecidos quase de forma instantânea. A globalização mudou por completo o paradigma clássico da relação entre emissor-recetor. Os efeitos dantescos de um tsunami nas Celebes, na Indonésia, rapidamente nos chegam a casa. As redes sociais estão a quebrar com o paradigma tradicional do Estado-nação. Para o bem e para o mal, este é o tempo do WikiLeaks, dos Panama Papers, do Football Leaks… Hoje qualquer um de nós tem acesso ao espaço da informação, tenha sido obtida de forma lícita ou ilegal, e tem opinião sobre tudo e sobre todos. Porém, saber argumentar só faz sentido quando temos a informação necessária. Hoje há dados, mas não há conhecimento; há zapping de atualidade, mas não há análise; há muita crítica, mas não há autocrítica.

 

Temos de voltar a ler os clássicos

Sim, Netflix e Instagram, mas também reler e estudar Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Maquiavel, John Locke, Alexis de Tocqueville, Ortega Y Gasset…Temos de voltar a beber nos conceitos de Estado, poder, Nação, República, capitalismo, democracia… Quanto à democracia, sabemos que é um sistema político espantoso, pois até permite que populistas e nacionalistas possam apoderar-se das nossas instituições. Não nos esqueçamos que Hitler ascendeu ao poder pela via democrática, recorrendo à propaganda, à provocação e às mais diversas formas de manipulação das massas e conseguiu chegar ao poder pelo voto dos eleitores! A democracia tem esta componente especial: é um sistema de tal forma aberto e plural que permite que, se não estivermos atentos, se autodestrua. Os valores que ergueram a era contemporânea, a partir da Revolução Francesa, estão em declínio, e a ideologia tradicional está em decadência e deparamo-nos com a impotência das instituições tradicionais e com a debilidade do Estado-nação. “Como curar um fanático?”, começa por interrogar Amos Oz numa obra intitulada Contra o Fanatismo. A pergunta aqui mais adequada é “qual será a fórmula para combater os fenómenos do populismo e do nacionalismo”? Ou melhor, por que motivo os regimes democráticos estão a falhar? Por que razão os nossos cidadãos, o eleitor médio, personificado no bonus pater familiae, está descontente e direciona o seu voto para um populista ou nacionalista? Como é que sociedades tão diferentes, anglo-saxónicas ou latinas, nórdicas ou sul-americanas, são capazes de acolher a mesma semente do mal?

 

Populismo

O populismo, cuja expressão emerge da Revolução Francesa, a partir do petit peuple, está a erguer-se por todo o lado: da França à Suécia, do Reino Unido aos Estados Unidos, da Itália ao Brasil… Os populistas e os nacionalistas gostam de dividir a sociedade, são provocadores de emoções, exploram até à exaustão as dificuldades das pessoas e são exímios na arte da propaganda. Fomentam um discurso de ódio, aceitam a violência e a justiça vingativa, num patamar micro e macro, entre indivíduos, entre povos e entre nações. Os populistas e os nacionalistas criam novos muros, erguem obstáculos, limitam os direitos e as liberdades e criam retrocessos. Têm um discurso racista e de superioridade de uma raça (a branca, embora África, por exemplo, seja fértil no apelo ao ódio entre grupos étnicos diferentes), apelam à concretização de políticas de perseguição ou de recuo dos direitos das minorias, exploram até ao grau máximo a mensagem e insegurança, defendem o isolamento económico e as políticas industriais protecionistas. Os políticos democratas devem reconhecer os erros e devem fazê-lo enquanto é tempo, porque os populistas nunca admitem que erraram. Se é verdade que os partidos não são donos das democracias, também não devemos cair na tentação de demonizá-los, porque, até ver, não se conhece nenhum regime democrático sem partidos. Os meios de comunicação são igualmente importantes. A mensagem que transmitem não deve potenciar fenómenos e dar voz a autênticos arruaceiros. Não se pede censura, ou autocensura, mas jornalismo de valores, de responsabilidade, de compromisso com princípios.

 

Era do silício

Vivemos a era do silício, mas a garantia de um prato de comida, três vezes ao dia, e um teto para dormir em sossego ainda é uma quimera para muitos milhões de seres humanos. Nas lixeiras de Bombaim ou nas favelas do Rio de Janeiro, o Planeta continua a ser um lugar de contrastes. A guerra e o ódio continuam vivos por todo o lado. Assim, se cada um de nós se mantiver desinteressado do que se passa na nossa rua, cidade ou país, podemos ter a certeza de que esse espaço vai ser ocupado e aproveitado por algum demagogo, oportunista, intolerante ou mal-intencionado. A semente do mal pode ter um monstro-criador: os populistas e nacionalistas. Contudo, é na criatura racional e emotiva que reside um problema mais grave: a indiferença. O escritor e Prémio Nobel da Paz em 1986, Elie Wiesel, dizia que “etimologicamente, a palavra significa ‘não diferença’. Um estado peculiar e bizarro em que a fronteira que separa a luz da escuridão, o lusco-fusco da aurora, o crime do castigo, a crueldade da compaixão, o bem do mal, se dilui”. Assim, só combatendo a indiferença podemos mudar o mundo e alimentar o sonho que nos acalenta enquanto seres humanos.



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