ISABEL MEIRELLES

8 de Fevereiro de 2018

DIE GROSSE KOALITION

A GRANDE COLIGAÇÃO

Não é vulgar ver-se na Alemanha uma indefinição e um vazio governativo como aquele que dura há mais de cem dias, na sequência das eleições de setembro do ano passado, em que a coligação CDU/CSU, liderada por Angela Merkel, passou de uma votação nas eleições transatas de 41,5% para uns magros 33%, um dos resultados mais baixos desta aliança no pós-guerra.

O mesmo aconteceu ao SPD, parceiro na governação no último mandato, que, não obstante ter partido com uma esperança renovada na figura de Martin Schulz, presidente emblemático do Parlamento Europeu, também teve os piores resultados, tendo passado de 25,7% para 20,5%, o que determinou a forte resolução do partido em reconstruir-se ideológica e programaticamente. Esta é, aliás, a chamada maldição de Merkel, que tem como consequência que nos seus mandatos os partidos parceiros sejam arrasados nas eleições seguintes, como aconteceu ao SPD no primeiro e neste último mandato, e com os Liberais, que foram, no seu segundo mandato, varridos literalmente do espectro político, pois não atingiram sequer os 5% necessários de votos para integrar o Bundestag, o Parlamento alemão. Em termos de ciência política, é consabido que a política alemã se rege por grandes consensos formais, de molde a criar a estabilidade necessária para prosseguir as grandes reformas que têm conseguido tornar este país num dos mais prósperos do mundo, não só em termos económicos como sociais. É, aliás, um caso de estudo que, infelizmente, não tem sido inspirador para a maioria dos governos europeus, em que, após as eleições, Merkel se recusou a governar em minoria e persistiu arduamente na construção de uma ampla coligação forte, sólida e estável. Assim, após os resultados eleitorais e dada a inicial recusa do SPD em participar na solução governativa, a magna questão foi a de saber quem a CDU iria escolher como parceiros, sugerindo-se uma experiência nunca tentada na chamada coligação Jamaica, que incluiria os Liberais e Verdes, mas cujas conversações não tiveram um epílogo positivo.

 

Outras possibilidades

Outra hipótese seria a de convocar novas eleições legislativas que, supostamente, conduziriam a resultados muito idênticos, com a agravante de a derrocada do centro poder potenciar, ainda mais, os resultados da Alternativa para a Alemanha – AfD, um partido de extrema-direita que juntou 13% dos eleitores e que entrou para o hemiciclo pela primeira vez depois do pós-guerra, ao capitalizar o medo existencial em relação ao futuro, designadamente de perda da identidade nacional pela influência crescente do Islão, a insegurança e a indústria de asilo. E assim, persistente, mas consistentemente, qual abelha-rainha, Angela Merkel voltou a tentar seduzir o SPD até conseguir – através de negociações muito árduas, dadas as divergências entre os dois partidos em questões como as migrações e a União Europeia – uma resposta afirmativa, que teve, antes, de ser sancionada em congresso extraordinário do SPD, aliás, por uma margem estreita, para dar início às conversações. Ou seja, ainda vai haver mais um compasso de espera até à formação de um futuro Governo alemão, dado que apesar de haver, por ora, uma base para se chegar a um consenso sobre as políticas essenciais, ainda persistem muitas divergências quanto aos seus conteúdos, designadamente em matéria do impulso da economia, da justiça social, do digital e da segurança nacional. E o acordo final vai ter de ser ainda sufragado pelo SPD, com o perigo de a ala mais à esquerda, que junta sobretudo os delegados mais jovens, continuar a defender que o partido deve ficar na oposição.

 

Revolução da normalidade

Merkel sempre representou a revolução da normalidade com um sentido tático subestimado e uma enorme sensatez, que lhe permitiu atravessar, serenamente, a crise bancária de 2008, a crise do euro de 2010 e a dos refugiados de 2015, pelo que se prevê que saia destas negociações um Governo forte que possa, juntamente com a França, ser um farol na Europa e promova as reformas que esta tão desesperadamente precisa. Nas 28 páginas do documento de acordo centrado nas prioridades políticas para os próximos anos, houve três páginas dedicadas à União Europeia, onde se assinala a vontade de gastar mais com a Europa e de trabalhar de forma muito estreita com a França. Aliás, na sequência do Tratado do Eliseu, onde há 55 anos De Gaulle e Adenauer assinaram o tratado de amizade franco-alemão que colocou os cidadãos destes dois países no caminho de um futuro conjunto, agora, na mesma sala e em replay, Emmanuel Macron e Angela Merkel saudaram a amizade entre os respetivos povos, tendo-se comprometido a aprofundar a integração económica, a promover a cooperação em matéria de política externa, defesa, segurança, desenvolvimento e a trabalhar conjuntamente no combate ao terrorismo, no fortalecimento da colaboração dos serviços secretos e policiais, e numa política conjunta de desenvolvimento para África e para a imigração descontrolada. O desfecho governativo da Alemanha, como se pode perceber, não é indiferente e não interessa apenas a esta, mas a todos os Estados europeus que continuam a ter neste país o seu principal motor impulsionador da prosperidade e da paz neste nosso continente.



Categoria: Em Destaque

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