FERNANDO SANTO

11 de Dezembro de 2017

A 4.ª REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

A INTEGRAÇÃO DIGITAL

A realização da Web Summit em Portugal, pelo segundo ano consecutivo, dedicada às novas tecnologias e à sua ampla divulgação, contribuiu para nos interrogarmos sobre as consequências imprevisíveis para a sociedade. A perceção de que muitos dos desenvolvimentos previstos para o futuro já são uma realidade deve obrigar os governos a uma reflexão e a definir estratégias para o posicionamento dos países numa sociedade, pela primeira vez, realmente global, aproveitando as mudanças em curso e minimizar os efeitos menos favoráveis, pois, à semelhança do que ocorreu noutras transformações, serão sempre difíceis para os que ficarem excluídos.

A 4.ª Revolução Industrial, como também é chamada a transformação em curso, irá mudar muitos dos modelos que resultaram das anteriores “revoluções”, desde a invenção da máquina a vapor no final do século XVIII, passando pela mecanização da produção, utilização de combustíveis fósseis como fonte de energia, a eletricidade, a introdução de computadores, a robotização da produção, até à utilização generalizada da internet a partir do final do século passado e uma relevância elevada da informação. Em cada período, a transformação da ciência em inovação e a sua aplicação aos processos produtivos provocaram significativas alterações na sociedade. As 1.ª e 2.ª Revoluções ficaram marcadas pela deslocalização da população rural para as novas zonas industriais, que passaram a suburbanas e urbanas, pela crescente substituição do homem por máquinas e a deslocalização da produção para os países de menor custo, em paralelo com a criação de novos empregos em serviços. A produção de riqueza e a melhoria de vida das populações ficaram associadas aos países que foram capazes de se adaptar e criar as condições para dirigir e responder a estes processos de mudança. Na última geração surgiram as empresas de base tecnológica a partir da internet, de que são exemplos a Google, a Apple, a Amazon e o Facebook. Em poucos anos estas empresas passaram para o grupo das mais valiosas do mundo, ultrapassando os produtores do ouro negro, como era conhecido o petróleo, tendo ao seu dispor redes com milhares de milhões de pessoas de todo o mundo e acesso a um dos produtos de maior valor, as detalhadas informações sobre os seus utilizadores. O novo ouro são hoje os dados. No mesmo período assistimos à falência de grandes empresas que não souberam acompanhar esta evolução, como foi o caso da Kodak, e outras que apesar da sua base tecnológica foram ultrapassadas, como a Blackberry e a Nokia. Nunca iremos acertar nas previsões sobre os impactos que esta evolução irá trazer, mas devemos criar cenários e entender em que consistem estas transformações. Os países deverão preparar-se, mas também trabalhar em conjunto nesta nova sociedade que não conhece fronteiras.

 

Novidades apresentadas

Com a Web Summit a população portuguesa percebeu que a criação de robots, cada vez mais parecidos com o ser humano, está em curso, que a inteligência artificial está a desenvolver-se a um ritmo acelerado e que a ligação das máquinas através de redes, no que se designa por Internet das Coisas, irá mudar a produção industrial, sintetizada no conceito designado por Indústria 4.0. Não por coincidência, algumas das grandes empresas alemãs têm uma forte presença em Portugal, não só na produção, mas em centros de inovação e desenvolvimento de produtos, devido à qualidade da engenharia portuguesa. Com este modelo é possível produzir fábricas que são maioritariamente autónomas. A partir da análise de poderosas bases de dados é possível medir o comportamento dos consumidores e produzir os produtos mais adequados a cada um. Estamos a assistir ao fim da segmentação, que será substituída pela personalização. É uma revolução que irá alterar o modelo de desenvolvimento em que vivemos e, provavelmente, a localização das fábricas nos locais de mão de obra barata deixará de ser uma vantagem para ser mais importante a localização em países que estejam na linha da frente das infraestruturas tecnológicas, e que tenham técnicos altamente qualificados para o desenvolvimento e gestão dos sistemas.

 

Ordem dos Engenheiros

Nesta perspetiva, a Ordem dos Engenheiros deu um excelente exemplo, pois o Congresso que realizou em Coimbra, nos dias 23 e 24 de novembro, foi dedicado ao tema da Engenharia na Transformação Digital, com a presença de especialistas de todas as áreas. Numa excelente intervenção, o comissário europeu Carlos Moedas divulgou as alterações políticas que a União Europeia está a desenvolver para transformar ciência em inovação e preparar respostas para a nova realidade, sem esquecer a regulação, consciente de que nos últimos 30 anos o PIB dos países da UE, à escala mundial, passou de 30% para 20%, enquanto a China passou de 3% para 20%. O sistema de ensino deverá sofrer profundas alterações para preparar os estudantes para uma sociedade em mudança, sendo imprescindível que a Matemática, a Física e a Química sejam disciplinas de primeiro plano, obrigando a um rigor e a uma capacidade de aprendizagem que não se coaduna com um sistema de ensino pouco exigente, com elevado insucesso escolar e pouca motivação dos alunos por estas disciplinas e pelo acesso ao ensino superior. É no ensino secundário que começa a orientação e o despertar do interesse pelas matérias que podem fazer a diferença no futuro, pois os empregos que irão desaparecer poderão ser substituídos por outros, mas é necessário que os candidatos tenham as competências necessárias. Para além de outros riscos, prevê-se que os governos irão deparar-se com elevadas taxas de desemprego resultantes da libertação de mão de obra e haverá maiores dificuldades em aplicar impostos, pois as empresas da nova geração estarão localizadas nas zonas em que os impostos forem mais favoráveis. A boa notícia é que a qualidade da engenharia portuguesa é cada vez mais reconhecida no estrangeiro, o que tem contribuído para que algumas empresas da 1.ª linha desta transformação digital tenham centros de desenvolvimento em Portugal. Nesta matéria, a sorte sempre deu muito trabalho e o facilitismo sempre foi o caminho mais seguro para ter azar.



Categoria: Análise

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