JOSÉ CARIA

3 de Março de 2017

64443646_president_donald_trump_waves_as_he_walks_with_first_lady_melania_trump_during_the_inauguratAMERICAN CAOS

Enquanto a América tenta encontrar um rumo, cada vez fica mais claro o rumo que Trump pretende para essa mesma América. Conheça-se um pouco a história da nação e perceba-se o alcance do pensamento de Trump quando se olha para o quadro que expôs na sala oval: um quadro que representa Andrew Jackson, o sétimo presidente da federação e que quase conseguiu acabar com os índios americanos, numa altura em que os novos colonos decidiram que todos os outros não eram bem-vindos aos territórios acabados de conquistar.

Pouco mais de um mês volvido sobre a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos poucas certezas parecem adquiridas, mas as linhas mestras daquela que vai ser a governação política da nação mais poderosa do mundo começam a ganhar contornos visíveis, e por vezes tão absurdos que ninguém consegue prever as suas consequências no futuro mais próximo ou mais longínquo. Para já o que está à vista é uma América mergulhada num caos interno sem precedentes na sua história. A pergunta mais recorrente, no imediato, e não só para os americanos, será: 2017 sobrevive a Trump ou será Trump capaz de sobreviver a 2017? E aqui, claramente, o vaticínio de muitos analistas sobre a ameaça Trump parece desajustado. O reflexo imediato da sua governação em pouco ou nada influenciará, pelo menos no curto prazo, o panorama internacional, mesmo nas oito grandes questões, por muitos consideradas como as mais relevantes. A saber: a possibilidade de mudanças na maior aliança militar do mundo, a NATO, a avaliar pelas críticas tecidas pelo recente presidente eleito; a aproximação EUA-Rússia, que ninguém pode aferir se será mais ou menos benéfica; o fim do livre comércio como o conhecemos, embora o objetivo por trás de uma política comercial mais protecionista não seja claro; a política de “uma China única” face ao diferendo com Taiwan; a redefinição das relações com a América Latina, onde a questão da construção do muro na fronteira mexicana foi um dos importantes argumentos de campanha para Trump e talvez o pico visível de muitas outras questões preocupantes neste domínio, nomeadamente as relações com Cuba e a possibilidade de deportações em massa de imigrantes ilegais; a revisão do acordo nuclear com o Irão; o problema do equilíbrio de poderes no Extremo Oriente e, por fim, o adeus aos acordos climáticos e a todos os esforços feitos pela comunidade internacional nesse sentido.

Reflexos visíveis0543609186041ca6

Se é verdade que qualquer decisão tomada nesta matriz atrás enunciada tem e terá sempre reflexos que conferem aos Estados Unidos um peso de decisor e estratega fundamental em muitos dos equilíbrios desejados a nível internacional, também não será menos verdade que para ter capacidade de avaliar e interferir, seja em que sentido for, Trump precisa de uma América forte e claramente “subordinada” a uma governação política inequívoca para americanos, europeus, asiáticos ou quem quer que seja. Essa América hoje não existe, e é aqui que reside o calcanhar de Aquiles não da nova Administração em Washington, mas de todos os americanos enquanto nação. No passado dia 20 de janeiro, a América acordou, ou finalmente acordou, para realidades que desconhecia. Uma profunda clivagem política com confrontos violentos na rua e uma profunda clivagem ideológica alicerçada em patamares geracionais, o que a torna mais perigosa e radicalizável. Um presidente eleito determinado em cumprir promessas eleitorais que até os mais céticos sempre pensaram que não passava disso mesmo, promessas eleitorais. Um presidente determinado em construir uma nova realidade – uma realidade para além dos factos sempre que estes contrariem a sua lógica governativa – e a impor essa realidade como absoluta. O primeiro sinal foi logo deixado quando Kellyanne Conway, secretária de imprensa da Casa Branca, foi ao programa “Meet the Press” da NBC defender que a sua equipa tinha “factos alternativos”, na sequência da polémica sobre a cerimónia da tomada de posse de Trump e após o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, ter garantido que tinha sido “a maior audiência de sempre a testemunhar uma tomada de posse” presidencial. Estes factos, que foram amplamente desmentidos por toda a comunicação social, não abalaram a defesa da realidade alternativa defendida pela Casa Branca, com Sean Spicer a falar mesmo em manipulação de imagens. Se em abono da verdade a polémica pode ter morrido prematuramente para a opinião pública, o efeito perverso subjacente deixou muitos americanos intranquilos e o célebre livro de George Orwell – 1984 – parece ter sido subitamente ressuscitado, relembrando o “Ministério da Verdade” do sistema autoritário do universo orwelliano e a sua necessidade de alterar os factos sempre que necessário para prossecução do fim desejado.

índiceA inabilidade política

Neste paradoxo de contradições em que a América parece mergulhada, outro traço surge, porém, já claramente vincado na nova administração de Donald Trump: a sua total inabilidade e incapacidade política para governar. O primeiro alerta ficou logo expresso com um dos primeiros decretos presidenciais, o que visava travar a entrada de pessoas provenientes de sete países de maioria muçulmana nos EUA, nomeadamente Irão, Iraque, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iémen. A ordem determinava ainda que os refugiados ficavam impedidos de pisar solo norte-americano por 120 dias. Em 24 horas, Trump conseguiu fazer o que mesmo uma ameaça séria de alta segurança não conseguiria, ou seja, gerar o caos na generalidade dos aeroportos americanos e em muitos outros de países terceiros, deixando bem evidente a fragilidade da equipa do presidente. Mas não só. Logo a 4 de fevereiro, o decreto foi suspenso a nível nacional  pelo juiz James Robart, e o recurso apresentado pela administração Trump, para que voltasse a entrar em ação imediatamente, foi rejeitado no dia seguinte. Outro exemplo elucidativo passou pela nomeação, apenas três dias depois da impugnação judicial atrás referida, de Betsy DeVos, uma multimilionária do Michigan, para a pasta da Secretaria da Educação, fortemente criticada pela sua falta de experiência e de conhecimento do setor. Quando ficou claro que dificilmente esta nomeação passaria no senado, DeVos, mesmo fragilizada politicamente, não colocou o lugar à disposição do presidente e o vice-presidente Mike Pence – que é simultaneamente presidente do Senado – foi obrigado a usar a prerrogativa do voto de qualidade em favor da nomeada, uma vez que DeVos tinha obtido apenas os votos favoráveis de 50 republicanos e o voto contra de 46 democratas, dois independentes e dois eleitos do partido Republicano. DeVos foi eleita, mas todos asseguram que este episódio não tem precedente histórico na votação em nomeações no Senado norte-americano. E nesta situação, como em tantas outras, Trump vai reagindo pelo Twitter, construindo uma cadeia de reações que muitos apelidam de virtual. Mas menos virtual foi outro precedente aberto pelo presidente quando veio a público, no pleno exercício das suas funções presidenciais, defender os negócios da filha, também ela conselheira na Casa Branca, após a cadeia Nordstrom ter anunciado que deixaria de vender a marca de Ivanka Trump pelos maus resultados alcançados. Sean Spicer, o mesmo, veio a público afirmar que se tratava de um “ataque direto” da empresa contra a filha do presidente. Esta não foi a primeira vez que o presidente Trump criticou abertamente empresas, como já tinha acontecido, por exemplo, com a Toyota, mas foi a primeira vez que defendeu abertamente os negócios da família.

O regresso à pradaria2015 Hank's Yanks Golf Classic

Enquanto a América tenta encontrar um rumo, cada vez fica mais claro o rumo que Donald Trump pretende para essa mesma América. Conheça-se um pouco a história da nação e perceba-se o alcance do pensamento de Trump quando se olha para o quadro que expôs na sala oval da Casa Branca: um quadro que representa Andrew Jackson, o sétimo presidente da federação (1829-1837). A pintura nada significa, não fosse Andrew Jackson alguém que quase conseguiu acabar com os índios americanos, numa altura em que os novos colonos decidiram que todos os outros não eram bem-vindos aos territórios acabados de conquistar. O que Andrew Jackson fez foi entrar em litígio profundo com os poderes do país, nomeadamente com o Supremo Tribunal de Justiça, e quando percebeu que tinha contra ele as leis que os seus antecessores tinham assinado, a opção expressa foi simples: tentar mudar a Constituição Federal. Com semelhanças ou não, Trump enfrenta ainda outro dilema entre uma América progressista e a sua base de apoio eleitoral, ou seja, quase todos aqueles que o conseguiram eleger para a presidência: uma maioria branca, de classe média, com pouco rendimento e fortemente iletrada ou com baixos níveis de qualificação. Para muitos, Trump não será mais do que a personificação da tentativa desse regresso à pradaria de uma América que já não existe, e as próximas duas décadas fecharão este ciclo com o desaparecimento natural daqueles que hoje são a base de apoio eleitoral do milionário. E mesmo tentando ser o “último dos cowboys”, até agora Trump não conseguiu encarnar qualquer das míticas personagens de John Wayne ou mesmo personificar o espírito do Marlboro Man. Antes pelo contrário, ficou-se pela versão muitas vezes patética de “Bronco Bill”.



Categoria: Análise

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