CARLOS MINEIRO AIRES

3 de Agosto de 2019

DESAFIO AMBIENTAL – Plásticos: do conforto ao problemaFruto da incansável procura por novos materiais que deem resposta às necessidades e melhoria da qualidade de vida, a partir do início da segunda metade do século passado assistimos à divulgação e posterior massificação do uso do plástico, com toda a facilitação que trouxe para os mais diversos usos. 

Recordo-me das campanhas publicitárias a determinados produtos de uso doméstico, em que uma das ofertas mais cobiçadas, sobretudo na então designada “província”, eram os alguidares e baldes de plástico, muito mais leves do que os tradicionais feitos em barro e, sobretudo, com a vantagem de serem inquebráveis, bem como de transportar as compras em sacos de papel. Como sabemos, não se trata de um recurso natural, mas sim de um subproduto obtido a partir de pesquisas e experiências no processamento dos hidrocarbonetos, ou seja, subprodutos com elevado valor acrescentado obtido a partir de recursos fósseis naturais. Muito embora tenham existido antecedentes na segunda metade do século XIX, a invenção, em 1909, da baquelite, primeiro plástico à prova de calor e um excelente isolante de eletricidade, terá sido o marco na demonstração do efetivo potencial destes novos materiais. Também por esta altura, Mr. Adams, o pai da indústria das pastilhas elásticas, iniciou a massificação do que já era um velho hábito de muitas civilizações e, desta forma, também trouxe um novo problema, que hoje atinge proporções colossais, pois só nos EUA o consumo anual de chewingum ronda as 90 mil toneladas/ano, gerando resíduos cujo destino é desconhecido, salvo o dos que ficam agarrados aos pavimentos e às solas dos sapatos. Desde então, a investigação na indústria do plástico não parou de crescer, tendo passado a existir soluções para substituição de praticamente todos os materiais convencionais, o que também acrescentou valor à indústria dos hidrocarbonetos. 

 A produção de lixo plástico  

Estava criado um material de excelência e capacidades praticamente ilimitadas, o que poderia ser virtuoso não fosse o caso da sua produção, utilização e fim de vida estarem globalmente fora de controlo, mas, mais grave, a sua indestrutibilidade no ambiente, pois o ciclo de vida pode, mesmo em condições adversas, chegar perto dos 500 anos. Os plásticos vulgarizaram-se no quotidiano da nossa vida, facilitaram, e de que maneira, muitas das atividades humanas, contribuíram para novas soluções em muitas áreas, desde a saúde, indústria automóvel, fins militares, etc., passando a garantir utilizações onde hoje não se perspetivam alternativas, mas criaram um problema acrescido que até há poucos anos estava pouco ou nada interiorizado na maior parte da população, até terem surgido imagens toneladas de plástico, lixo e diversos detritos a boiar no que foi uma paradisíaca praia do Caribe. A partir daí milhares de casos foram mediatizados e permitiram contribuir para o despertar da consciência coletiva quanto à necessidade de algo ter de ser feito ou repensado. Entretanto, a ONU, como sempre atenta, embora por vezes com algum atraso, alertou para o facto de a produção mundial de lixo plástico atingir anualmente cerca de 300 milhões de toneladas, com tendência para crescer, das quais apenas 9% é reciclado e 14% são coletado para reciclagem, o fim óbvio para estes materiais. 

 Um flagelo a controlar 

Por seu lado, em 2018, a China, que importa quase metade do lixo produzido no mundo, decidiu deixar de receber lixos plásticos produzidos fora do seu território, o que veio a apressar a necessidade de repensar a reciclagem e, sobretudo, estabelecer políticas concertadas e formas de atuação para controlar este flagelo que andava “esquecido”. Para compor o cenário, foram postas a nu as situações de lixo marinho e da preocupante existência de detritos e materiais plásticos com grave perigosidade para a sobrevivência das espécies, entre as quais a humana, enquanto principal consumidor da fauna e flora marítima.Segundo um estudo publicado em 2018 pela World Wildlife Fund, 72% do lixo encontrado em zonas industriais e de estuários em Portugal são microplásticos, partículas de pequena dimensão que resultam da degradação do plástico, com graves consequências na cadeia alimentar marinha e humana. Acresce que muitos dos materiais tradicionais que eram usados em usos correntes, caso, por exemplo, dos materiais abrasivos das pastas dentífricas, cosméticos e suportes de medicamentos que são, ou podem ser, ingeridos, passaram a ser substituídos por micropartículas de plástico, também já detetadas na água de consumo, com demonstrada perigosidade para a saúde. Temos, assim, mais uma situação que requer atuações coordenadas a nível global e, neste contexto, com resultados muito difíceis de alcançar. 

 Antever consequências 

À semelhança do combate à emissão de gases com efeito de estufa, temos outro 0problema global de difícil solução, onde os players estão em estados de desenvolvimento muito diferentes e com preocupações prioritárias bastante distintas. É bom recordar que um simples garrafão de plástico, que para nós é um resíduo descartável, em muitos locais do mundo tem um valor incalculável para a sobrevivência dos que palmilham dezenas de quilómetros para ir buscar água. A falta de cultura e atenção para as consequências da deposição no ambiente natural de detritos desta natureza mais agravam o problema, pois esta situação é mais grave nas zonas mais populosas e empobrecidas. Portugal, como habitualmente, procura posicionar-se na linha da frente e já legislou nesta matéria, com particular visibilidade nas embalagens e resíduos de embalagens, nos plásticos de uso único, incentivo à devolução de embalagens de bebidas em plástico não reutilizáveis e adoção de soluções circulares na Administração Pública, promovendo a redução do consumo de produtos de plástico. Ironicamente, o uso dos sacos de papel foi progressivamente desincentivado por constituir uma ameaça para as florestas e agora temos uma tarefa para a qual cada um de nós terá de contribuir reduzindo o recurso aos plásticos e cuidando da sua recolha seletiva, o que resulta da dificuldade de antevermos as consequências e combater atempadamente os interesses. 

 



Categoria: Análise

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